terça-feira, 22 de junho de 2010

Amar depois da morte

Pai:
Hoje é o dia do meu 38.º aniversário.
Não vou receber o seu beijo nem ouvir a sua voz a dar-me os parabéns.
Mas sei que continuo a ter o seu Amor e que só fisicamente não está hoje aqui.
Depois da sua morte, amo-o e tenho o seu amor.
Continuo a ter Pai.


Sofia

Tenho Pai

Nos meus pés, é a firmeza do andar, haja o que houver.
Nas minhas mãos, é a mão que me limpa as lágrimas quando teimam em chorar, por saudade dele e tudo o resto.
No meu coração, é a razão, a vontade e a tentativa de ser melhor, em cada dia que passa, dia após dia.
Em todo o meu corpo, é ainda uma saudade que treme, mas que nunca fica só, tanto é o alimento que deixou para o lembrar.
O pai morreu fisicamente mas vive em mim, da cabeça aos pés.
No meu silêncio e na minha noite, é a face visível de Deus.
Um Deus que, pela morte física do meu Pai, se fez para mim ainda mais familiar.
Que um dia, Senhor, ao olhar-te face a face, reencontre o Pai em ti.
E que, nessa hora, possa voltar a ser criança.

domingo, 20 de junho de 2010

Os Vampiros

Recordamos hoje a entrevista dada à Revista Visão em 19 de Março de 2009, em que se lia em manchete "Eles Comem Tudo".
Hoje, diz o Google: «Mario Lino substitui Saldanha Sanches na presidência do conselho fiscal das seguradoras da Caixa geral de Depositos». A ser verdade, temos que, mais uma vez, lembrar Zeca Afonso.


sábado, 19 de junho de 2010

O Sr. Reis e O Sr. Brown.


Como habitualmente, fui estudar para um café. Sentado já a uma mesa, deparou-se-me uma discussão entre um português e um inglês. Da polémica que entre um e outro se travou tirei, de imediato, a inevitável conclusão: baixíssima mentalidade do português, contra uma perfeita, mesmo cavalheiresca diplomacia do britânico. O nosso compatriota não abriu a boca senão para dizer asneiras. Desde a afirmação da inexistência de Cristo, ao ataque a Salazar, passando por um desconhecimento estúpido da política de De Gaulle à afirmação (!) de que nós somos um povo inculto, sem liberdade, etc. etc., o nosso «amigo» passou por tudo. Seriam imperdoáveis já semelhantes basófias numa conversa entre portugueses, mas comentários tais para com um estrangeiro dentro da nossa terra e perante outros portugueses – francamente é um índice perfeito de que a mentalidade lusíada atravessa uma grave crise! Crise sim mas provocada por todos aqueles que, como o Sr. Reis falam despropositadamente, num alardear estúpido e destruidor d’aquilo que não sabem. Pelos vistos o Sr. Reis era ateu; nada tenho com isso, que cada qual siga a religião que quer. Mas dizer que o nosso regimen é uma ditadura, que os portugueses não são capazes de fazer nada, que vivemos moribundos na Europa, que De Gaulle é um estúpido e um déspota e que os franceses não o querem, e outras – dezenas de outras – no género é menosprezar a própria pátria e o próprio sangue. É verdade que Salazar está desactualizado e que comete presentemente graves erros. Mas vivemos em regimen de ditadura? Se assim fosse, certamente que o Sr. Reis não chegaria, sequer, a poder dizer meia dúzia das palavras que disse. Somos um povo inculto é certo mas não é atirando – o à cara de estranhos que nós nos cultivamos. Exemplo flagrante é o Sr. Reis: o alardear em voz alta e sonante uma « cultura» nacional e internacional que ofuscaria o desprevenido, enquanto «despreocupadamente» batia palmadinhas nas costas do Inglês, fumava sem cerimónia os «Chesterfield» que estavam em cima da mesa e « limpava» em menos de um hora e meia três rotundos Wiskies ao vermelho da velha Albion!! Escusado será dizer que quem pagou a despesa foi o Inglês.

Lisboa 1958



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Notas soltas

Eu disse, que era minha intenção deixar nestas páginas, uma série de impressões, quer objectivamente quer subjectivamente colhidas.
A vida em sociedade é segundo as melhores doutrinas, derivada da própria natureza do Homem.
Assim, o «status societatis» é um bem, necessário, imprescindível, imperioso, pelo qual o homem alcança, ao servir-se dele, muitas das suas fundamentais necessidades. Entre elas, a convivência com outros seres humanos, não é das de somenos importância.
A ausência de contacto gera, na maioria, um estado de insatisfação, de laconismo mórbido, de apática e inaproveitável melancolia. Um homem precisa de falar com outros homens? A sociedade tem, para dar largas a essa necessidade, a convivência de seres de mentalidade conforme a sua.
Mas o Homem também precisa de falar «consigo mesmo». É indispensável não é ridículo. Ridículo é a cobardia de se furtar a um monólogo, jamais a capacidade de o fazer. Olhando dentro de si mesmo, mirando o revolucionar das emoções que se geram, e lutam entre si no seu íntimo, auscultando, sempre que possível, o verdadeiro sentir do seu eu, o homem está a dar satisfação a uma necessidade de ordem psicológica. Portanto tentarei fazer nestas páginas não só uma introspecção no sentido filosófico, mas também, uma vista de olhos pelo que me cerca e sobretudo no que me fere a atenção.
O que eu possa escrever não tem interesse para ninguém, a não ser para mim próprio, que vou cuidar de saber o que sinto e o que penso.
Está a volver um ano que arribei a estas terras do continente. Em boa verdade - e contrariando as profecias dos mais velhos – eu não me acostumei no sentido verdadeiro de perfeita e incondicional adaptação, ao ambiente e ao modo de vida metropolitano. Há indiscutivelmente uma mentalidade diferente. Em meu entender, há mesmo uma profunda diferença de mentalidades, mesmo de usos e até de sentimentos.
Angolanos e metropolitanos entroncam no mesmo ramo, somos Portugueses.
De tal maneira que eu duvido de que os metropolitanos consigam ser mais patriotas do que nós. O caso não merece discussão, claro nem é, susceptível de polémica. Esta descendência recíproca, é o traço mais forte que se possa apontar entre uns e outros. Mas, para além dele as diferenças já são grandes.
Essa diferença, que talvez seja mais formal do que substancial, aprofunda-se no tocante às massas juvenis, sobretudo entre aqueles que fizeram todo ou só parte do Liceu em Sá da Bandeira.
Quem lá estudou imbui-se de um número de características típicas, bem conhecidas, que vão provocar um choque de modos de ser e de comportamentos quando se arriba e permanece na metrópole. Eu não podia fugir à regra antes a confirmarei latamente. Mas vendo o problema o mais objectivamente possível, tentando fugir portanto ao meu próprio não querer aceitar de boamente a minha estadia por cá – reconheço que – na maior parte das vezes não é proveitosa a vinda de estudantes angolanos para as faculdades do continente.
Em nada devemos ficar agradecidos – pelo contrário – por essa medida que os governantes reputam de proveitosa e útil para os rapazes ultramarinos. E não é ser-se mal agradecido palavra. O ensino, de qualquer grau que seja, não é uma medida de altruísmo de nenhum Estado – é antes, uma obrigação, um dever moral e político a que nenhum Estado se pode furtar. E bem sabemos que há Estados em que o ensino, além de obrigatório é totalmente gratuito. Não pode existir uma Nação sem um povo civilizado e culto; a civilização técnico – cultural só pode ser adquirida pelo estudo; e o estudo, na sua regra, só pode ser devidamente ministrado por mestres competentes. A par de outras manifestações que estão na essência do próprio estado, o ensino é um dever que lhe compete, obrigatoriamente, que para bem dele próprio será; donde deduzimos que nenhuma mercê nos fazem ao proporcionar-nos estabelecimentos de ensino que nos preparem para a vida…quando sabem proporcionar-nos.
Lisboa 1958

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Mão e a Escrita

Quem se debruça, entusiasmado, sobre as páginas em branco de um livro qualquer para deixar correr a pena em estiradas de rabiscos e garatujos, não pensa, um minuto sequer, em fazer boa ou má literatura, suficientemente capaz de agradar a quem, porventura, algum dia resolver devassar, distraído ou atenciosamente – e mau grado nosso – o que se escreveu num momento de exaltação inconsciente. E então – sublime hora de paradisíaco! – a pena escorrega, livremente, pelo emaranhado confuso de ideias e pensamentos, tingindo as folhas de traços e riscos que, na maior parte das vezes, não possuíam a mais pequena sequência lógica, que se possa conceber.
Nebula-se a mente, tolda-se e entorpece-se o espírito embaciam-se as letras que fogem à nossa frente, e o aparo chia e espaparra-se, impiedosamente maltratado pela mão que o aperta com nervosismo, próprio desse momento de turbilhão, em que se pretende fugir à crua e nua realidade da época que se atravessa.
Mas… que fazer! - o gosto de se escrever é plena e totalmente satisfeito e completado, e as mãos não encontram no seu caminho demolidor, fronteiras altaneiramente potentes para se oporem ao desejo que se não contem, e ao desabafo que se expande em linhas tortas por fugidas incoerentes.
Quem, como o autor destas linhas tortas por direitas reconhece, a sua impotência literária para levar a cabo a sempre espinhosa tarefa de escrever algo que não será, no futuro, só de sua única pertença – sente-se apiedado por si mesmo e pelos outros, mas espera o soar da hora triunfal, com aquela confiança inabalável que deve ser apanágio de quem tem um só dever, e uma só consciência a baterem num só peito.

28 de Fevereiro 1957


Há 17 anos a primeira neta e a Mão do Avô

sábado, 12 de junho de 2010

Eu Vencerei

Eram 8 horas e quarenta minutos. O nosso Pai morreu faz hoje dois meses. Deixamos aqui umas notas que ele escreveu, como um desabafo, num dia muito mau da sua vida. Tinha perdido o primeiro ano do curso de Direito ao «chumbar» na cadeira de Introdução ao Estudo do Direito.

"Chumbado, irremediavelmente chumbado a Introdução.

Não vou falar da justiça ou injustiça com que fui reprovado. Isso partirá muito do critério pelo qual cada um vir a minha prova e, se um diz que eu merecia passar, outro poderá rebatê-lo sem que a isso se possa chamar injustiça.
A justiça dos homens é falível e porque homem, a ela estou sujeito para a sofrer ou… para a praticar na primeira altura, quando eu acho que é justo e outrem disser que é injusto. Sempre fiz a mim mesmo esta pergunta: se a vida se me revelasse adversa e sem remédio possível conseguiria eu continuar a pensar e sentir da mesma maneira?
Conseguiria eu aguentar o choque, enfrentá-lo e ter forças para após uma desilusão outra ilusão erguer sobre os escombros da derrota?
Apanhei o primeiro pontapé forte que a vida me quis dar - pois bem eu sinto-me perfeitamente o mesmo. Eu vou continuar a lutar como sempre lutei, eu vou continuar a ter a mesma fé no meu futuro, em Deus, na vida e nos Homens.
Eu não duvido, um minuto sequer, de mim, das minhas faculdades e d’aquilo que eu posso e quero obter. Eu não duvido de nada, porque eu vou lutar pelo que sempre lutei e estou convicto , estou certíssimo de que vou vencer. Hoje ou Amanhã mas hei-de vencer. Sei perfeitamente que não fui destinado a aumentar a legião dos que andam nesta vida por andar. EU VENCEREI! Vencerei com a ajuda de Deus dentro dos princípios que Ele nos ensinou, seguindo os caminhos da honestidade e da justiça, fazendo os possíveis por continuar ou vir a ser um rapaz sem qualquer mancha na consciência; continuarei a minha vida, como sempre, lutando pelos meus ideais de sempre com o fito ardente e elevado de ser alguém prestável à humanidade e à sua terra de quem os meus Pais se possam orgulhar de eu me possa sentir honrado, de que toda a gente possa falar sem apontar a mais pequena falta. Que Deus me ajude na minha vida de Amanhã e me torne no Homem que eu sei que sou capaz de ser."


Lisboa Outubro de 1958



quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dia de Portugal de Camões e das Comunidades


Mais de três séculos e meio decorreram já sobre a morte do príncipe dos poetas portugueses, mas o rodar dos tempos e o advento das novas gerações não conseguiram ainda julgar um forte sentimento de admiração pelo homem que cantou com engenho e arte incomparáveis, as glórias imperecíveis da Raça Lusa. Por todo o território pátrio se levam a efeito, hoje, manifestações de carácter patriótico, em comemoração da imorredoira data do 10 de Junho, que assinala a entrada, nos anais da imortalidade, do Poeta Nacional; e o Dia da Raça, quis o nosso liceu frisá-lo com mais esta sessão cultural, que vem expressar, conquanto modestamente, a consideração e o nosso preito de homenagem póstuma a Luís de Camões, e terá, assim, solenização adequada ao seu significado histórico, fazendo arreigar no espírito da juventude a admiração consciente pelo Vate que serviu a Pátria com amor e lealdade.



Sr. Reitor



Srs. Professores



Caros Colegas

 
 
 
 
 
 
 
 

Uma obra de génio é sempre o produto de um homem de dotes notáveis, que logra pintar com fina personalidade, um momento de circunstâncias excepcionais da humanidade; e « Os Lusíadas», que constituem o expoente máximo da nossa literatura, não poderiam ser excepção à regra, e direi antes que a confirmam plenamente, no desenvolvimento de uma rema de interesse universal.

Todo o século XV tinha sido um constante aclamar de marinheiros, que ousadamente penetravam as vias até então nunca usadas; um acentuado cantar de heróis que venciam infiéis e gentios, e transplantavam para as mais remotas plagas a soberania Lusitana e o culto da Fé Cristã. E os ecos vibrantes das navegações entraram sec. XVI adentro, abeirando-se da época em que viveu Camões ganhando em fama com as ressonâncias da lenda que começa a aureolá-los.

A vida nacional de antanho, agitada, inconstante e ansiosa, dia a dia reclamava imperiosamente um cantor para os feitos assombrosos dos que «ao mundo foram dando novos mundos»: e o poeta surgiu, com uma pena de rara sensibilidade e um espírito de ritmo variado, forjando o poema heróico, de fé nacionalista, tecido em torno de uma viagem náutica de repercussão internacional. Subterfúgio lógico para uma época que inicia a Idade Moderna, toda a epopeia está crivada de referências à geração dos descobrimentos, à novidade das navegações e aos fenómenos do mar, frequentemente experimentados pelos mareantes, e aos quais o próprio Camões, no seu peregrinar pelo Oriente, teve ocasião de assistir.

Mas, o Homem não seria só um épico de crença exaltada mas também um lírico de impetuoso temperamento, que nos aparece como um poeta sentimental, um romântico antecipado. A sua lírica – que, segundo o testemunho de Diogo do Couto, expresso na década oitava, se chamaria «Parnaso de Luís de Camões»- estreita todas as diversas correntes artísticas e ideológicas do século XVI, em Portugal. Resumidamente, poderemos dizer que o assunto capital do lirismo camoniano são as contradições encontradas pelo poeta, entre o ideal apreendido na escola, e na sua cultura livresca, e o lastro pesado das baixezas da vida real. Não se apresenta Camões como um poeta original, mas sim como um talento portentoso, que absorve, com fulgor e brilhantismo todas as correntes do grande século em que viveu.

Como lírico, é um discípulo de Petrarca, conseguindo dar às suas obras um tom pessoal e um cunho individual, de certa impressionabilidade. Após o verso torturado de Sá de Miranda, depois de uma harmonia bastante trabalhada de António Ferreira, surge-nos Camões com um verso sem esforço e aparentemente muito fácil, extremamente variado, abundante de ritmo colorido, conforme os estados de alma e as situações de espírito que pretende exprimir; mas sob esta desenvoltura exterior, esconde-se um grande poder de síntese e de condensação, sendo numerosos os seus versos lapidares, o que nos leva a concluir que a perfeita naturalidade do verso, na parte mais representativa da sua lírica, é fruto de um esforçado trabalho. A mensagem de uma alma, e o grito de um espírito que se encontra deslocado na época, transbordam em vagas de rimas, ora mais calmas e largas, ora mais curtas e ofegantes, que sinalizam a sensibilidade e o estremecimento de um ser que penou as agruras da vida.

Por mares nunca de antes navegados, semeando velas e proas nos caminhos tenebrosos do oceano, terçando lanças por seu Deus e seu Rei, a linhagem de marinheiros e missionários viu o seu valor inestimável doirar-se nas páginas de um livro que há muito transpôs fronteiras, e foi ganhar a coroa de louros merecida nos reinos nos da imortalização. Acordem-se os ecos das trombetas da gloriosa Fama, porque Camões não morreu para a Raça nem para o Mundo: vive ainda, portentoso e inexcedível, nas páginas sagradas dos milhares de edições da sua obra prima de artista. É que a célebre frase de Schlegel, sintetiza o pensamento do orador em relação ao Poeta: «Camões vale por si só, toda uma literatura».


Escrito aos 16 anos de idade, Liceu de Diogo Cão, Sá da Bandeira, 10 de Junho de 1957