segunda-feira, 28 de junho de 2010

ONTEM COMO HOJE..

Em 1983, a chamada troika tomou conta do Partido Social Democrata, procurando preencher um vazio deixado por Pinto Balsemão: Nuno Rodrigues dos Santos, Carlos da Mota Pinto, Eurico de Melo e Henrique Nascimento Rodrigues, foram os homens que assumiram a responsabilidade. Mais tarde, a presidência do Partido seria entregue, em Congresso, a Mota Pinto.


Após eleições, das quais não saiu nenhum partido com maioria absoluta, o partido entrava em negociações com o Partido Socialista com vista à formação do chamado Bloco Central. Viviam-se tempos conturbados no plano financeiro (e não só), pelo que urgia que os dois maiores partidos políticos conciliassem esforços. Logo de seguida, temos em Portugal a intervenção do FMI (Fundo Monetário Internacional), sem a qual as nossas contas públicas dificilmente teriam sido corrigidas. Na imagem, vemos a Troika do partido sentada à mesa com Mário Soares:
Em 20 de Maio de 1983, é assinado um acordo de incidência laboral entre ambos os partidos. Os delegados do lado do PSD foram Nascimento Rodrigues e Luís Moralles, do lado do PS foram delegados Walter Rosa e Maldonado Gonelha. Nesse acordo, mencionava-se ter-se «(...) concluído haver uma margem de convergência muito larga e acordado o seguinte:
1- Haver necessidade de ser institucionalizada uma Política de Concertação Social;
2- Consequentemente, criar uma instância superior de representação plural de interesses colectivos (...); e
3- Haver necessidade de serem tomadas algumas medidas legislativas (...) com audição dos parceiros sociais, tendo em vista a consecussão de objectivos de segurança e promoção do emprego (...)».
Queremos também recordar Setembro de 1981, por altura de uma homenagem organizada pela Tesiresd ao nosso Pai, após a sua saída do Governo de Pinto Balsemão. Na altura, dizia Pinto Balsemão, «É cada vez mais necessário, relançar o programa social-democrata». Acrescentava Ângelo Correia que se sentia «saudoso do PPD» e que «um partido que se quer grande não pode ser particionista», tendo de «admitir alas em torno do ideal social-democrata». In Diário de Lisboa, 11 de Setembro de 1981.
Neste dia em que Pedro Passos Coelho lança a revisão do programa do Partido Social Democrata, sob a presidência de Aguiar Branco, e no contexto económico e financeiro em que vivemos, sob o risco de sermos de novo alvo de intervenção do FMI, quisemos aqui relembrar alguns episódios dos anos idos de 1981 a 1983.
Tal como naquele tempo, também hoje, vivemos momentos extremamente difíceis, nos planos económico, financeiro e social. As palavras de Ângelo Correia, proferidas em 1981, podiam hoje ser replicadas novamente que estariam, porventura, perfeitamente enquadradas com a situação do País e do Partido.
Ontem, como hoje, Pedro Passos Coelho procura acordos com o PS em áreas e temas importantes para o País. Naquela altura, o Bloco Central durou pouco tempo e, de certa forma, originou o surgimento de um Líder que tanto marcou - e ainda marca - o nosso País, Aníbal Cavaco Silva.
Será que a história se repete?...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um Líder

1955 Lubango Liceu Nacional de Diogo Cão

Reunião das turmas do 6º Ano para preparar o pic-nic que assinalava o início do ano lectivo.
Foi assim que conheci o Henrique.
Ele, de capa e batina, buço incipiente, encarava de pé, atrás de uma secretária, toda a assistência.
Eu, acabada de chegar do Continente, sentada na fila da frente, perguntei à colega do lado:
Quem é este? Resposta: É o Henrique!

Em 14 de Janeiro de 1962 dizia num poema que terminava assim:

Desde então - vê só, Amor!-
No registo do Céu
ficou escrito, meu nome
junto ao teu.

E ficou, com os nossos 5 filhos e os treze netos.
Sempre o conheci como um «sedutor», um homem de «enamoramentos», um líder natural -
De causas, de projectos, de pessoas, em momentos muito especiais da vida em sociedade.
Muitas vezes me disse com determinação – quem está com o meu projecto está comigo, quem não está, pode sair.
Disse-lhe outras tantas vezes – és um homem de sementeiras – quando chegará o teu momento de colheita?
Mas a colheita nunca o motivou. Gostava de «arar o campo», «desbravar terreno», fazer crescer algo novo. Depois, partia para outras causas, outros projectos, quantas vezes com os mesmos colaboradores.
Nunca gostou de misturar a sua vida profissional com a vida familiar.
Dizia-me – a família é o meu bem mais precioso, é o meu suporte, a minha retaguarda, o meu porto de abrigo, tenho que a preservar.
Foi sempre assim.
Desde que o conheci até ao momento da sua morte.
O Henrique foi de facto um Homem de excepção.
Com mais homens como ele o Mundo ficaria certamente melhor.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Quadro

Este conto nunca foi publicado. A imagem que suporta o texto, é um esboço de um rosto de mulher, feito pelo nosso 3º filho, o Nuno, em 1992, conforme se vê pela rubrica no canto inferior esquerdo



Enervado, o homem proferiu uma blasfémia e jogou o pincel de encontro à tela, que se encheu como por milagre, de miríades de borrões coloridos. Lentamente a tinta deslizou pelo papel grosso e, pingo a pingo, tombou no chão, marcando regos estrambólicos no soalho rachado do quarto…
Com uma apatia exasperante, o homem quedou-se ainda um momento frente ao conjunto bizarro; depois, virou costas com um gesto de indiferença desdenhosa e deixou-se cair em cima da cama desfeita, que gemeu ao peso do corpo. Alheio, puxou do maço de cigarros e alisou a madeixa de cabelos negros, expirando, distraidamente, argolas de fumo azul, que se diluíram, aos poucos, no vácuo do ambiente…
Na imensa solidão da noite, ouvia-se o tic-tac, monótono e desesperante, do relógio de cabeceira, batendo, de segundo em segundo, as notas sempre iguais do pendular; e as pulsações enfadonhas do maquinismo contundiram-lhe com os nervos e fizeram-no dar voltas sobre voltas, até ficar deitado de borco, mirando de esguelha o quadro borrado.
Erguida sobre um cavalete de pernas altas, a pintura desconexa pareceu-lhe, à luz mortiça da lâmpada, uma bruxa feia, de guedelhas espalhadas sobre a moldura! Com os olhos semi-cerrados numa modorra tediosa, ele ficou quieto, embrenhando-se nos seus próprios pensamentos, de que apenas se desviava para olhar a tela suja, que o atraía e o arrastava para um mundo diferente daquela realidade de pintor sem glória! E o homem mordeu os lábios ao recordar o seu vulto cabisbaixo percorrendo vielas, no propósito desesperado de vender as suas obras por um preço qualquer! E ele teve garras de gritar a aflição que o torturava por ver a sua arte incompreendida; e bateu com os punhos na borda da cama, ao avistar despontando da moldura o quadro incompleto cheio de traços hesitantes e desarticulados.
Furioso, nem deu conta que o cigarro lhe queimava os dedos. E ao vê-los mexerem-se nervosamente como tentáculos o homem encheu-se de um orgulho momentâneo levantou-se precipitadamente agarrou as bisnagas de tinta e com um entusiasmo febril misturou-as no tampo de ensaio. E aos poucos, enquanto o pintor num ritmo ziguezagueante misturava os pasteis coloridos, avolumava-se no bastidor do panorama a sombra angélica de um rosto de mulher; e no momento de entusiasmo mórbido que o conquistava ele não sentia o badalar das horas ininterruptas e, excitado só fixava a tela que enchia de traços e sulcos suaves, de uma figura serena e correcta. No pequeno tablado do teatro do pintor define-se de pincelada em pincelada a personagem central do acto; hipnotizado rasga-lhe os lábios, pintalga-lhe as faces de um carmesim discreto enruga-lhe a tez num trejeito pensativo, brinca-lhe com as mãos e sombreia-lhe uns olhos tristes e profundos, sonhadoramente enamorados do infinito; e vagamente, num apelo longínquo que lhe fere a alma, experimenta a doce sensação dos olhos acastanhados da mulher retrato a chamá-lo para o amor. No pátio, um galo cantou a alvorada e acordou-o do seu marasmo…Na luz coada e álgida da mansarda sobressaía, sobre o cavalete a sua obra prima de pintor! No pátio de lá de baixo, o canto do galo voltava a soar.


Angola 1957

terça-feira, 22 de junho de 2010

Amar depois da morte

Pai:
Hoje é o dia do meu 38.º aniversário.
Não vou receber o seu beijo nem ouvir a sua voz a dar-me os parabéns.
Mas sei que continuo a ter o seu Amor e que só fisicamente não está hoje aqui.
Depois da sua morte, amo-o e tenho o seu amor.
Continuo a ter Pai.


Sofia

Tenho Pai

Nos meus pés, é a firmeza do andar, haja o que houver.
Nas minhas mãos, é a mão que me limpa as lágrimas quando teimam em chorar, por saudade dele e tudo o resto.
No meu coração, é a razão, a vontade e a tentativa de ser melhor, em cada dia que passa, dia após dia.
Em todo o meu corpo, é ainda uma saudade que treme, mas que nunca fica só, tanto é o alimento que deixou para o lembrar.
O pai morreu fisicamente mas vive em mim, da cabeça aos pés.
No meu silêncio e na minha noite, é a face visível de Deus.
Um Deus que, pela morte física do meu Pai, se fez para mim ainda mais familiar.
Que um dia, Senhor, ao olhar-te face a face, reencontre o Pai em ti.
E que, nessa hora, possa voltar a ser criança.

domingo, 20 de junho de 2010

Os Vampiros

Recordamos hoje a entrevista dada à Revista Visão em 19 de Março de 2009, em que se lia em manchete "Eles Comem Tudo".
Hoje, diz o Google: «Mario Lino substitui Saldanha Sanches na presidência do conselho fiscal das seguradoras da Caixa geral de Depositos». A ser verdade, temos que, mais uma vez, lembrar Zeca Afonso.


sábado, 19 de junho de 2010

O Sr. Reis e O Sr. Brown.


Como habitualmente, fui estudar para um café. Sentado já a uma mesa, deparou-se-me uma discussão entre um português e um inglês. Da polémica que entre um e outro se travou tirei, de imediato, a inevitável conclusão: baixíssima mentalidade do português, contra uma perfeita, mesmo cavalheiresca diplomacia do britânico. O nosso compatriota não abriu a boca senão para dizer asneiras. Desde a afirmação da inexistência de Cristo, ao ataque a Salazar, passando por um desconhecimento estúpido da política de De Gaulle à afirmação (!) de que nós somos um povo inculto, sem liberdade, etc. etc., o nosso «amigo» passou por tudo. Seriam imperdoáveis já semelhantes basófias numa conversa entre portugueses, mas comentários tais para com um estrangeiro dentro da nossa terra e perante outros portugueses – francamente é um índice perfeito de que a mentalidade lusíada atravessa uma grave crise! Crise sim mas provocada por todos aqueles que, como o Sr. Reis falam despropositadamente, num alardear estúpido e destruidor d’aquilo que não sabem. Pelos vistos o Sr. Reis era ateu; nada tenho com isso, que cada qual siga a religião que quer. Mas dizer que o nosso regimen é uma ditadura, que os portugueses não são capazes de fazer nada, que vivemos moribundos na Europa, que De Gaulle é um estúpido e um déspota e que os franceses não o querem, e outras – dezenas de outras – no género é menosprezar a própria pátria e o próprio sangue. É verdade que Salazar está desactualizado e que comete presentemente graves erros. Mas vivemos em regimen de ditadura? Se assim fosse, certamente que o Sr. Reis não chegaria, sequer, a poder dizer meia dúzia das palavras que disse. Somos um povo inculto é certo mas não é atirando – o à cara de estranhos que nós nos cultivamos. Exemplo flagrante é o Sr. Reis: o alardear em voz alta e sonante uma « cultura» nacional e internacional que ofuscaria o desprevenido, enquanto «despreocupadamente» batia palmadinhas nas costas do Inglês, fumava sem cerimónia os «Chesterfield» que estavam em cima da mesa e « limpava» em menos de um hora e meia três rotundos Wiskies ao vermelho da velha Albion!! Escusado será dizer que quem pagou a despesa foi o Inglês.

Lisboa 1958



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Notas soltas

Eu disse, que era minha intenção deixar nestas páginas, uma série de impressões, quer objectivamente quer subjectivamente colhidas.
A vida em sociedade é segundo as melhores doutrinas, derivada da própria natureza do Homem.
Assim, o «status societatis» é um bem, necessário, imprescindível, imperioso, pelo qual o homem alcança, ao servir-se dele, muitas das suas fundamentais necessidades. Entre elas, a convivência com outros seres humanos, não é das de somenos importância.
A ausência de contacto gera, na maioria, um estado de insatisfação, de laconismo mórbido, de apática e inaproveitável melancolia. Um homem precisa de falar com outros homens? A sociedade tem, para dar largas a essa necessidade, a convivência de seres de mentalidade conforme a sua.
Mas o Homem também precisa de falar «consigo mesmo». É indispensável não é ridículo. Ridículo é a cobardia de se furtar a um monólogo, jamais a capacidade de o fazer. Olhando dentro de si mesmo, mirando o revolucionar das emoções que se geram, e lutam entre si no seu íntimo, auscultando, sempre que possível, o verdadeiro sentir do seu eu, o homem está a dar satisfação a uma necessidade de ordem psicológica. Portanto tentarei fazer nestas páginas não só uma introspecção no sentido filosófico, mas também, uma vista de olhos pelo que me cerca e sobretudo no que me fere a atenção.
O que eu possa escrever não tem interesse para ninguém, a não ser para mim próprio, que vou cuidar de saber o que sinto e o que penso.
Está a volver um ano que arribei a estas terras do continente. Em boa verdade - e contrariando as profecias dos mais velhos – eu não me acostumei no sentido verdadeiro de perfeita e incondicional adaptação, ao ambiente e ao modo de vida metropolitano. Há indiscutivelmente uma mentalidade diferente. Em meu entender, há mesmo uma profunda diferença de mentalidades, mesmo de usos e até de sentimentos.
Angolanos e metropolitanos entroncam no mesmo ramo, somos Portugueses.
De tal maneira que eu duvido de que os metropolitanos consigam ser mais patriotas do que nós. O caso não merece discussão, claro nem é, susceptível de polémica. Esta descendência recíproca, é o traço mais forte que se possa apontar entre uns e outros. Mas, para além dele as diferenças já são grandes.
Essa diferença, que talvez seja mais formal do que substancial, aprofunda-se no tocante às massas juvenis, sobretudo entre aqueles que fizeram todo ou só parte do Liceu em Sá da Bandeira.
Quem lá estudou imbui-se de um número de características típicas, bem conhecidas, que vão provocar um choque de modos de ser e de comportamentos quando se arriba e permanece na metrópole. Eu não podia fugir à regra antes a confirmarei latamente. Mas vendo o problema o mais objectivamente possível, tentando fugir portanto ao meu próprio não querer aceitar de boamente a minha estadia por cá – reconheço que – na maior parte das vezes não é proveitosa a vinda de estudantes angolanos para as faculdades do continente.
Em nada devemos ficar agradecidos – pelo contrário – por essa medida que os governantes reputam de proveitosa e útil para os rapazes ultramarinos. E não é ser-se mal agradecido palavra. O ensino, de qualquer grau que seja, não é uma medida de altruísmo de nenhum Estado – é antes, uma obrigação, um dever moral e político a que nenhum Estado se pode furtar. E bem sabemos que há Estados em que o ensino, além de obrigatório é totalmente gratuito. Não pode existir uma Nação sem um povo civilizado e culto; a civilização técnico – cultural só pode ser adquirida pelo estudo; e o estudo, na sua regra, só pode ser devidamente ministrado por mestres competentes. A par de outras manifestações que estão na essência do próprio estado, o ensino é um dever que lhe compete, obrigatoriamente, que para bem dele próprio será; donde deduzimos que nenhuma mercê nos fazem ao proporcionar-nos estabelecimentos de ensino que nos preparem para a vida…quando sabem proporcionar-nos.
Lisboa 1958