segunda-feira, 12 de julho de 2010

VII Governo Constitucional


O VII Governo constitucional toma posse a 9 de Janeiro de 1981.

É constituído por uma coligação de três partidos: P.S.D. , C.D.S. e PPM.
Termina o seu mandato a 4 de Setembro de 1981, em plena crise, económica, politica e social.
Diz nessa data O Jornal- «Pela primeira vez, um ministro do Trabalho abandona a Praça de Londres com mais prestígio do que aquele com que entrara. Não por obra feita- mas pelo que se recusou a fazer.»
Numa carta datada de 21 de Agosto de 1981, e dirigida ao Senhor Primeiro Ministro Dr. Pinto Balsemão, o nosso Pai coloca a questão de ser dispensado da chefia do Ministério do Trabalho, nos seguintes termos: « os homens devem ser escolhidos em função das politicas a prosseguir,(……….) e não vislumbro que possa ser eu, (………. )um homem adepto do dialogo e dos processos lentos e difíceis, de sedimentação de consensos sociais tácitos ou expressos,(…….) a pessoa mais indicada para continuar à frente do Ministério do Trabalho, no contexto dos objectivos pelos quais o seu novo Governo tem que lutar no próximo, senão mesmo nos próximos anos, atento à durabilidade da crise».
A coerência de pensamento, a firmeza de atitudes demonstrada, foram uma constante na sua vida politica. No dia em que passam três meses da sua morte deixamos este testemunho para que seja lembrado e, porque não, seguido pelos que hoje têm a difícil e ingrata tarefa de dirigir os destinos da Nação.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Homenagem Sindical

A 10 de Julho de 1998 o Secretariado Executivo do Sindicato da Agricultura, Alimentação e Florestas, organizou uma sessão comemorativa do seu 1º centenário.

Na sessão solene o nosso Pai foi homenageado pelo sindicato na sua qualidade de ex -ministro do Trabalho.

Fotografia publicada no número 15, Ano V, (Julho/Agosto) 1998, Jornal do SETAA.

sábado, 3 de julho de 2010

A Bailarina

«A Bailarina foi publicada, sob pseudónimo no Jornal A Huila (Lubango antiga Sá da Bandeira) 1956? 1957?
Também para o Henrique, no inicio de um projecto surgia um período de incerteza - será que vou ser capaz? Dúvida fugaz, transitória. No horizonte - a tarefa que se desenhava, a concretização da utopia sonhada, a entrega total. Como a bailarina."

A Bailarina

Em poética silhueta do poente, ela entra no palco desconhecido, pisando de mansinho o tablado, enquanto, a medo, a esbelta figura se requebra em passos de harmonia.
Ofuscada pela luz de focos encerrados em câmara escura, a bailarina ergue-se na ponta dos pés pequeninos, e calca o chão em rodopio delicado e saltitante, airosamente recortada, na trágica alegria do momento, pela veste de tule branco, debruado a lantejoulas.
Receosa, o busto arfando em palpitação subtil, ela olha o público mordaz que a fixa em silêncio reprovador de juiz; e os pés, atropelam-se grotescamente em precipitação atabalhoada, que arranca murmúrios abafados de pateada.
Desdobrado, sobreposto em « onduleio» de serra, o divinal corpo de mulher agacha-se lentamente, até beijar o soalho iluminado da ribalta silenciosa. E a bailarina chora…Estática, braços rígidos, sem o calor da excitação, sente as lágrimas borrarem-lhe o traço preto da maquilhagem…Olhos sem vida na plateia de cabeças poisadas com apatia, ouve a suave sinfonia do ballet tocado por figuras de traje negro, que lhe lembram espectros ridículos em desafinamento. Envergonhada, precoce timidez reflectida no peito receoso, agarra nervosamente o modesto crucifixo de ferro e os lábios sussurram uma oração que há muito ela houvera desprezado: «Ave-Maria, cheia de graça»…
E as ondas dos projectores varrem em turbilhão o palco longínquo, cenário irreal de pureza, onde cresce o feto da inocência de um mundo diferente, paraíso da música que ela quer dançar. Livram-se os pés da imagem da emoção, cavalgam em marcha sem horizontes, descontraídos e indomáveis no rodopio desvairado do espectáculo. E a bailarina baila…
Estranha deusa nimbada pela louca alucinação dos acordes, os braços voam em contorções orientais, meneiam-se e afagam suplicas, acariciam o rosto de alguém que já não volta, saracoteiam-se em traços vincados de fascinação; e arfando em viravoltas desprendidas, a bailarina corre o estrado de ponta a ponta, desenhando na maneira empoeirada dos bastidores, exóticas figuras para o desconhecido, que só ela entende no grácil delinear do seu vestido.
E para ela não há terra nem céus, nem cor e luz, nem recordações de um vulto de homem que não esquece: só se avoluma o ritmo inconsciente do fascínio, que fica a perdurar no mavioso bater das notas do piano, enquanto braços, pernas, e a sombra do próprio corpo, arrancam o véu tirano de destino para dançarem até ao fim…
Incendiada no fogo vivo da sua musica, o corpo cansado contorce-se dolorosamente no último suspiro do ballet. E na reverência sonolenta do acabar, a bailarina ajoelha, comovida.
Em vagalhão clamoroso, a plateia aplaude de pé, freneticamente... E na ribalta, atapetada por flores brancas de ventura, jazem, da endiabrada bailarina, as duas sapatilhas de veludo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O IMBONDEIRO

Em 1959, o Henrique reúne, num pequeno volume intitulado «Os Meus Primeiros Passos», contos, ensaios, reportagens e discursos já anteriormente publicados ou no jornal A Huíla, no Lubango, ou no Diário Popular em Lisboa, num período que vai de fins de 56 a fins de 58.
Editámos já no Ouvidor do Kimbo o discurso proferido a 10 de Junho de1957.
Com o Imbondeiro começaremos uma série de contos.
Curioso como, não sendo um conto autobiográfico, o Henrique se confunde, se identifica, se solidariza com o «Quasímodo» e se torna seu amigo na desgraça e na solidão.


«IMBONDEIRO»

«Ele é o único senhor e rei da vastidão incomensurável da «chana» sem «capim». Por ali vive só, acabrunhado e solitário mendigo, abarcando, com um olhar de desolação, o horizonte sem fim dos seus domínios.
Não tem amigos nem irmãos! Pobre que ao mundo veio num dia de triste sina, aziago como feitiço, não quiseram os fados embutir-lhe no tronco descaído uma pequenina parcela de alma sentimental. Por isso dizem, é bruto, malcriado e estúpido!
Mas ele sofre coitado! Nos braços rugosos e carcomidos pelo tempo, mostra, altivo e arrogante, as feridas e chagas das contendas e das batalhas.
Outrora, quisera também ser igual a tantos outros, que sentiam a seiva quente a latejar nos ramos farfalhudos… E lutara com denodo e energia. Endireitara o busto vaidosamente, lançando as hastes por cima da ramagem virgem, e clamara bem alto: Eu quero …eu quero!... Num eco a voz galgou montes e valados, levando para longe o grito desesperado do rebelde.
Os outros miraram-no com compaixão e tristeza, fitaram com nojo o seu porte grotesco de Quasímodo, e viraram-lhe as costas, como se repulsa lhes provocasse o pobre imbondeiro sem família.
A princípio, na brutalidade crassa que o distingue, não alcançou a ofensa de que fora o alvo tentador…. E continuou a gritar com fúria arrebatada, num desejo incompreensível de lutar e vencer, apontando com os dedos descarnados, a tentação mirabolante que o seduzia “ Eu quero… eu quero!...
Entorpecera-se-lhe o cérebro de ideias loucas e extravagantes. O crepúsculo esbatia-se em pinceladas suaves, tingindo a terra de uma aguarela avermelhada, enquanto no céu cavalgavam as primeiras sombras da tormenta. Mas, nesse poente ensombrado, tudo se tornou num mundo diferente e irreal. Sonhou embevecido, com o paraíso de eterna felicidade, com a bonança dos bem aventurados, com o amor caprichoso…
E sentiu-se leve e imaterial. Esqueceu as maldições do destino, a iniquidade da vida, o seu talhe tosco e grosseirão, a avareza dos que o tinham repudiado. Cresceu e inchou-se para o ar, ergueu os galhos destorcidos e curvados, e voltou a bradar com júbilo potente, feroz e brutal: “Eu quero… eu quero!... Mas a voz sai-lhe, agora, enrouquecida, num murmúrio moribundo, que se afoga aos poucos… Compreende que ele, a árvore sarnenta da floresta, não tem direito à vida. Será um proscrito, um eterno vagabundo esfomeado a quem se nega a côdea suja de pão, e a água que mata a sede.
Pelos galhos abatidos do imbondeiro, correm lágrimas sentidas… deixa pender a descomunal cabeça para o chão, e assim se queda carpindo as mágoas que o queimam…
Hoje não tem amigos! Banido para sempre do convívio dos seus semelhantes, aí ficou na “anhara” despovoada, sem ninguém que o console nas horas intermináveis de saudade.
Quantos anos terá? É uma alma morta… apenas a ”tchiri-tchiri, abelhuda enganadora da selva angolana, lhe traz, de quando em vez, as novas desse mundo ímpio que o desiludira.
Mas não merece a pena chorar imbondeiro! Eu sou teu amigo. Companheiro na desgraça desgarrada, também eu rogo por uma gota de água límpida. E eu não choro amigo. Sei sofrer em silêncio. Vamos imbondeiro, olhemos de alto essa indiferença e finjamos pelo menos, que sorrimos quando a alma sangra. Limpa essas lágrimas rebeldes que te escorrem pelo tronco cansado. Terás a teu lado alguém, que sofre tanto como tu!
Somos irmãos em tudo, imbondeiro!!!»

Publicado no Jornal “A Huíla” em 27 de Junho de 1957. Sá da Bandeira Angola




segunda-feira, 28 de junho de 2010

ONTEM COMO HOJE..

Em 1983, a chamada troika tomou conta do Partido Social Democrata, procurando preencher um vazio deixado por Pinto Balsemão: Nuno Rodrigues dos Santos, Carlos da Mota Pinto, Eurico de Melo e Henrique Nascimento Rodrigues, foram os homens que assumiram a responsabilidade. Mais tarde, a presidência do Partido seria entregue, em Congresso, a Mota Pinto.


Após eleições, das quais não saiu nenhum partido com maioria absoluta, o partido entrava em negociações com o Partido Socialista com vista à formação do chamado Bloco Central. Viviam-se tempos conturbados no plano financeiro (e não só), pelo que urgia que os dois maiores partidos políticos conciliassem esforços. Logo de seguida, temos em Portugal a intervenção do FMI (Fundo Monetário Internacional), sem a qual as nossas contas públicas dificilmente teriam sido corrigidas. Na imagem, vemos a Troika do partido sentada à mesa com Mário Soares:
Em 20 de Maio de 1983, é assinado um acordo de incidência laboral entre ambos os partidos. Os delegados do lado do PSD foram Nascimento Rodrigues e Luís Moralles, do lado do PS foram delegados Walter Rosa e Maldonado Gonelha. Nesse acordo, mencionava-se ter-se «(...) concluído haver uma margem de convergência muito larga e acordado o seguinte:
1- Haver necessidade de ser institucionalizada uma Política de Concertação Social;
2- Consequentemente, criar uma instância superior de representação plural de interesses colectivos (...); e
3- Haver necessidade de serem tomadas algumas medidas legislativas (...) com audição dos parceiros sociais, tendo em vista a consecussão de objectivos de segurança e promoção do emprego (...)».
Queremos também recordar Setembro de 1981, por altura de uma homenagem organizada pela Tesiresd ao nosso Pai, após a sua saída do Governo de Pinto Balsemão. Na altura, dizia Pinto Balsemão, «É cada vez mais necessário, relançar o programa social-democrata». Acrescentava Ângelo Correia que se sentia «saudoso do PPD» e que «um partido que se quer grande não pode ser particionista», tendo de «admitir alas em torno do ideal social-democrata». In Diário de Lisboa, 11 de Setembro de 1981.
Neste dia em que Pedro Passos Coelho lança a revisão do programa do Partido Social Democrata, sob a presidência de Aguiar Branco, e no contexto económico e financeiro em que vivemos, sob o risco de sermos de novo alvo de intervenção do FMI, quisemos aqui relembrar alguns episódios dos anos idos de 1981 a 1983.
Tal como naquele tempo, também hoje, vivemos momentos extremamente difíceis, nos planos económico, financeiro e social. As palavras de Ângelo Correia, proferidas em 1981, podiam hoje ser replicadas novamente que estariam, porventura, perfeitamente enquadradas com a situação do País e do Partido.
Ontem, como hoje, Pedro Passos Coelho procura acordos com o PS em áreas e temas importantes para o País. Naquela altura, o Bloco Central durou pouco tempo e, de certa forma, originou o surgimento de um Líder que tanto marcou - e ainda marca - o nosso País, Aníbal Cavaco Silva.
Será que a história se repete?...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um Líder

1955 Lubango Liceu Nacional de Diogo Cão

Reunião das turmas do 6º Ano para preparar o pic-nic que assinalava o início do ano lectivo.
Foi assim que conheci o Henrique.
Ele, de capa e batina, buço incipiente, encarava de pé, atrás de uma secretária, toda a assistência.
Eu, acabada de chegar do Continente, sentada na fila da frente, perguntei à colega do lado:
Quem é este? Resposta: É o Henrique!

Em 14 de Janeiro de 1962 dizia num poema que terminava assim:

Desde então - vê só, Amor!-
No registo do Céu
ficou escrito, meu nome
junto ao teu.

E ficou, com os nossos 5 filhos e os treze netos.
Sempre o conheci como um «sedutor», um homem de «enamoramentos», um líder natural -
De causas, de projectos, de pessoas, em momentos muito especiais da vida em sociedade.
Muitas vezes me disse com determinação – quem está com o meu projecto está comigo, quem não está, pode sair.
Disse-lhe outras tantas vezes – és um homem de sementeiras – quando chegará o teu momento de colheita?
Mas a colheita nunca o motivou. Gostava de «arar o campo», «desbravar terreno», fazer crescer algo novo. Depois, partia para outras causas, outros projectos, quantas vezes com os mesmos colaboradores.
Nunca gostou de misturar a sua vida profissional com a vida familiar.
Dizia-me – a família é o meu bem mais precioso, é o meu suporte, a minha retaguarda, o meu porto de abrigo, tenho que a preservar.
Foi sempre assim.
Desde que o conheci até ao momento da sua morte.
O Henrique foi de facto um Homem de excepção.
Com mais homens como ele o Mundo ficaria certamente melhor.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Quadro

Este conto nunca foi publicado. A imagem que suporta o texto, é um esboço de um rosto de mulher, feito pelo nosso 3º filho, o Nuno, em 1992, conforme se vê pela rubrica no canto inferior esquerdo



Enervado, o homem proferiu uma blasfémia e jogou o pincel de encontro à tela, que se encheu como por milagre, de miríades de borrões coloridos. Lentamente a tinta deslizou pelo papel grosso e, pingo a pingo, tombou no chão, marcando regos estrambólicos no soalho rachado do quarto…
Com uma apatia exasperante, o homem quedou-se ainda um momento frente ao conjunto bizarro; depois, virou costas com um gesto de indiferença desdenhosa e deixou-se cair em cima da cama desfeita, que gemeu ao peso do corpo. Alheio, puxou do maço de cigarros e alisou a madeixa de cabelos negros, expirando, distraidamente, argolas de fumo azul, que se diluíram, aos poucos, no vácuo do ambiente…
Na imensa solidão da noite, ouvia-se o tic-tac, monótono e desesperante, do relógio de cabeceira, batendo, de segundo em segundo, as notas sempre iguais do pendular; e as pulsações enfadonhas do maquinismo contundiram-lhe com os nervos e fizeram-no dar voltas sobre voltas, até ficar deitado de borco, mirando de esguelha o quadro borrado.
Erguida sobre um cavalete de pernas altas, a pintura desconexa pareceu-lhe, à luz mortiça da lâmpada, uma bruxa feia, de guedelhas espalhadas sobre a moldura! Com os olhos semi-cerrados numa modorra tediosa, ele ficou quieto, embrenhando-se nos seus próprios pensamentos, de que apenas se desviava para olhar a tela suja, que o atraía e o arrastava para um mundo diferente daquela realidade de pintor sem glória! E o homem mordeu os lábios ao recordar o seu vulto cabisbaixo percorrendo vielas, no propósito desesperado de vender as suas obras por um preço qualquer! E ele teve garras de gritar a aflição que o torturava por ver a sua arte incompreendida; e bateu com os punhos na borda da cama, ao avistar despontando da moldura o quadro incompleto cheio de traços hesitantes e desarticulados.
Furioso, nem deu conta que o cigarro lhe queimava os dedos. E ao vê-los mexerem-se nervosamente como tentáculos o homem encheu-se de um orgulho momentâneo levantou-se precipitadamente agarrou as bisnagas de tinta e com um entusiasmo febril misturou-as no tampo de ensaio. E aos poucos, enquanto o pintor num ritmo ziguezagueante misturava os pasteis coloridos, avolumava-se no bastidor do panorama a sombra angélica de um rosto de mulher; e no momento de entusiasmo mórbido que o conquistava ele não sentia o badalar das horas ininterruptas e, excitado só fixava a tela que enchia de traços e sulcos suaves, de uma figura serena e correcta. No pequeno tablado do teatro do pintor define-se de pincelada em pincelada a personagem central do acto; hipnotizado rasga-lhe os lábios, pintalga-lhe as faces de um carmesim discreto enruga-lhe a tez num trejeito pensativo, brinca-lhe com as mãos e sombreia-lhe uns olhos tristes e profundos, sonhadoramente enamorados do infinito; e vagamente, num apelo longínquo que lhe fere a alma, experimenta a doce sensação dos olhos acastanhados da mulher retrato a chamá-lo para o amor. No pátio, um galo cantou a alvorada e acordou-o do seu marasmo…Na luz coada e álgida da mansarda sobressaía, sobre o cavalete a sua obra prima de pintor! No pátio de lá de baixo, o canto do galo voltava a soar.


Angola 1957