sábado, 7 de agosto de 2010

QUISSANGE, SAUDADE BRANCA

Aquela melopeia triste de quissange
na noite negra angolana e doce
parou numa nota repentina.

Não sei se parou a mão que tange
sei que parou e fosse como fosse
parou numa nota repentina.

Ficou-me a angústia de um sonho inacabado
há muito, muito tempo na memória.
Hoje a história traz-me o mesmo sentimento,
melodia interrompida de repente…

Mas foi um toque desafinado de clarim
que veio anunciar o fim.

O pendão cansado de tantas batalhas
murchou como um trapo desbotado
e com ele se fizeram as mortalhas
dos sonhos frustres que tínhamos sonhado

(Poesia de Neves e Sousa, 1976)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Outubro de 1957



O Henrique inicia a Licenciatura em Direito na Universidade clássica de Lisboa.
Difícil foi a sua integração. Ficava para trás a fácil camaradagem dos tempos de liceu, os espaços abertos da sua Angola, a maneira de estar livre, fraterna e aberta tão característica da vida africana.

«Está a volver um ano que arribei a estas terras do continente. Em boa verdade eu não me acostumei ao ambiente e ao modo de ser da vida metropolitana. »

O 1º ano termina com um «chumbo» na cadeira de Introdução ao Estudo do Direito.
Um pouco perdido num meio que, ele sente que lhe é hostil, agarra-se de novo à escrita.

Procura um meio de publicar aquilo que escreve.
Concorre:
Aos torneios literários organizados pelo Ministério de Educação (1958- 1959).
Ao concurso literário da queima das fitas.
Ao concurso de reportagens do Diário Popular.






É colaborador regular do Diário da Manhã.

E ganha:
Em 1958 o 1º premio de ensaio e o 2º de conto do Ministério da Educação e uma menção honrosa no concurso de reportagens do Diário Popular,
Em 1959 o 2º premio de ensaio e o 2º de conto também do Ministério da Educação.
Em 1959 publica vários ensaios sobre política ultramarina no Diário da Manhã.

Em 25 de Dezembro de 1959 publica num jornal diário: Natal do Meu Sertão
Em 2 de Maio de 1963 o Diário Popular publicado o conto «Vida» ( menção honrosa do concurso de contos).

Um apontamento curioso: do regulamento do concurso de reportagens do Diário Popular constava:

O nosso jornal poderá convidar o autor ou autores das melhores reportagens a ingressar no seu quadro redactorial.

O Henrique era o mais novo dos mais de 520 concorrentes. Tinha 17 anos e foi convidado.
Não aceitou.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Setenta Anos




Faz hoje 70 anos que nasceu o Ouvidor do Kimbo. Embora tenha sido concebido nos longes de Angola, em Cangamba, Luchases, foi no Luena ( antiga Vila Luso) capital do Moxico que veio ao Mundo. E Luena o Henrique ficou.
Os 70 anos que hoje faz foram anos de uma vida cujo valor é publicamente reconhecido.
Para nós, que o conhecemos na intimidade da família, surpreende-nos a descoberta do Homem total que, o rever dos seus textos, dos seus contos, das suas estórias, das palavras dos amigos, nos revelou.
Se nasceu como Ouvidor da sua Terra morreu como Ouvidor da sua Pátria.
A história do Pai não está feita. Continuam as suas memórias, as estórias as saudades.
Muito há ainda por saber do homem que, embora de uma rigidez aparente, tinha um fino humor, era alegre, e tinha um imenso prazer pelas pequeninas coisas da vida.
Por esse motivo não dizemos: ele faria 70 anos. Dizemos ele faz 70 anos, mas é um jovem pleno de energia, de dádivas, de vontade de viver e de amor.

A fotografia que publicamos foi-nos oferecida pela jornalista Rosa Pedroso de Lima do Jornal Expresso e é propriedade de Rui Ochôa

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

LUENA



Mulher Luena (Neves e Sousa)

Luena,
Que tens o andar da onça no sertão
E o gesto bamboleante da palmeira,
Ao cálido soprar da viração;

Luena,
Que tens nos olhos vagos, sensuais,
Essa miragem feiticeira
Das luarentas noites tropicais;

Luena,
Que tens na voz lamentos de abandono,
Como ave da floresta,
Que à noite canta p’ra espalhar o sono…

Luena,
Exótica flor negra e solitária,
Porque és, assim, uma estátua de treva,
Chorando a dor duma viuvez lendária?
-Olha, Tchindele,
A sombra negra desta cor estranha,
Que me envolve a carne e a alma,
Herdei-a das cavernas da montanha.
Embalou-me o feitiço da desgraça:
Desde esse dia…há já mil anos,
Que ando de luto pela minha raça…




(Poesia de J. Galvão Balsa, in “Oiro e cinza do sertão”)

domingo, 1 de agosto de 2010

O Maneta

A passos lentos o homem subiu a escadaria de mármore branco, e abriu a pesada porta de carvalho, que chiou tristemente nos gonzos enferrujados. Na penumbra álgida da grande sala cheirava a bafio, e as poltronas estavam cobertas por lençóis brancos; do tecto despontavam, triunfantes miríades de teias de aranha, e ao centro erguia-se uma mesa rectangular coroada de cinzeiros a abarrotarem de beatas esmigalhadas. Apático, o homem deu meia volta nas botas cardadas, e fechou a porta com lentidão.
Cá fora caíam os primeiros pingos de uma chuva miudinha e irritante, que o obrigaram a aconchegar-se melhor na gola felpuda do dólmen de oficial; e mirando as luzes que se acendiam repentinamente, na rua erma, sentou-se cansado, no parapeito da varanda, riscando um fósforo que lhe iluminou o rosto másculo. Foi então que a medalha de ouro, pendurada ao lado esquerdo do peito, cintilou estranhamente sobre o bolso largo e lhe arreganhou as faces num sorriso de desprezo. Indeciso tacteou-a a medo, com a única mão que lhe restava da aventura de uma guerra, e desprendeu-a do tecido grosso da farda, espalmando-a sobre a pele rugosa. O ouro, faiscando na semi-escuridão em cintilações deslumbrantes, contrastava singularmente com a mão calejada, onde as unhas, sujas e roídas, se assemelhavam a borrões de tinta em papel pardo! E o homem quedou-se a fitar apalermadamente, o estranho conjunto dos cinco dedos da mão, disformes e papudos, com as cinco pontas em estrela, da condecoração. Esquisito contraste de reminiscências, unido indissoluvelmente no destino escabroso da sua vida! Pensativo, franziu as sobrancelhas numa curva harmoniosa, e fez saltitar a medalha pausadamente… Mas raivoso, comprimiu-a, depois, na mão fechada, com uma terrível gana de a esborrachar lá dentro, como se fosse pasta de chocolate!
Dos campos de batalha voltara aureolado de uma onda de glória, no peito ostentando com orgulho desmedido, a maior distinção jamais conferida a um soldado: uma insígnia de cinco pontas doiradas! Mas do lado esquerdo do corpo do homem faltava qualquer coisa: um braço de carne! Desfeito por uma granada, voara num ápice de um minuto, restando-lhe agora um coto monstruoso e grosseirão que o fazia corar até à medula dos cabelos.
Maneta… Um horrível maneta que os outros apontavam chocarreiramente, comparando-o a um espantalho desarticulado que apenas servia para amedrontar pardais; um abjecto manequim, impossibilitado de se apresentar condignamente na sociedade, com aquele vulto esbelto e elegante que outrora passeara como rei, pelos salões engalanados! Tristemente, mordendo os lábios que já tremiam, o homem fitou a outra mão, irmã gémea da despedaçada: cinco unhas porcas e mal cuidadas! Teve nojo e cuspiu saliva para o chão! Tinha sido um herói por perder a mão em combate de bravura, e o mundo em peso aplaudira-o com fanatismo: mas ficara maneta para toda a vida, e a noiva troçara dele sarcasticamente, trocando-o por um boémio de vida airosa. Coisas da guerra afinal… decerto que ela, apesar de ele ser um valente e ter uma medalha de oiro, não o queria assim feio, com uma mão única parecida com a de um carroceiro. Azar! Estúpido azar o seu!
O cigarro lançado com fúria de besta para o ladrilho da varanda, apagou-se lentamente…Na rua continuava a mesma chuva impertinente e irritadiça pingo a gota gota a pingo…
E o homem sentiu as lágrimas correrem-lhe quentes e saudosas, pelo rosto enegrecido ao sol…
Teria valido a pena ser herói? Olhou de novo para o lado esquerdo. aquele pedaço de carne cicatrizada parecia-lhe uma bola de trapos cozida, daquelas que os garotos se servem para dar pontapés ao domingo! E teve ganas de saltar o muro e correr desvairadamente, para perguntar ao mundo se a ilusão de uma noiva e de um braço rasgado, se pagava com um enorme medalhão de honra. Mas impotente, calcando bem fundo a tragédia do seu destino o homem entreabriu os lábios num sorriso de ironia e assobiou com menosprezo absoluto. Ele o herói que não conhecia o sabor amargo da derrota, seria superior até ao fim… E talvez que pudesse vender aquela medalha de cinco pontas, e comprar um novo membro: um fino braço de galante aristocrata, com unhas polidas e maravilhosamente pintadas!

Publicado no Jornal «A HUILA» em 27 de Junho 1957

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O blogue

O processo de adopção do blogue foi longo, doloroso, e difícil.
Disse o Henrique:
« Pretende ser um blogue de memórias e de saudades, de poesia, de estórias e comentários políticos. Será também uma forma de deixar aos meus treze netos um rasto meu, porque, pela ordem natural das coisas, sobretudo os mais pequenos é provável que dele nada retenham.»
Adoptar o blogue foi uma necessidade imperiosa. Era o Henrique presente nas suas palavras. Mas como utilizar as memórias, as saudades, a poesia as estórias de alguém que partiu sem avisar? Deixou-as escritas, é certo. Mas não traziam instruções.
O Henrique é hoje, nas páginas deste blogue, o menino do quimbo, o líder do liceu, o brilhante adolescente que escrevia contos, reportagens, fazia discursos e dizia dele próprio:
«Sei perfeitamente que não fui destinado a aumentar a legião dos que andam na vida por andar… Que Deus me ajude e me torne no Homem que sei que sou capaz de ser. Lutarei com o fito ardente e elevado de ser alguém prestável à Humanidade e à sua terra»
É também o Homem que tem África no coração, que se revela, se abre, se torna transparente.
A Liberdade era para o Henrique um bem essencial! Escreveu certo dia:
« Eu quero chegar à janela, ver um saguão, e, para além do saguão, ver a vida viva».
Mas adoptamos o blogue. Assumimos uma responsabilidade partilhada em família.
Se estão lembrados, a nossa filha Ana lançou um repto: «A todos que o conheceram e se houver palavras que queiram entregar-lhe, façam-no e a sua escrita enriquecerá».
Como as estórias, as memórias, as saudades e as poesias são feitas por pessoas e com pessoas, o repto lança-se de novo: este blogue foi adoptado até aqui pela família. As lembranças dos amigos só enriquecerão a sua escrita.

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terça-feira, 27 de julho de 2010

BALUBA

Baluba, a flor gentil da sua raça,
A donairosa dos quadris coleantes,
Dos finos tornozelos de gazela,
Dos seios nus, de perturbante graça,
A que era negra e ardentemente bela,
E que cheirava a ervas odorantes
Da selva tropical
Do seu país natal;

Baluba, a que trazia em seu olhar
Nostálgicos acenos sensuais,
E a tentação de incógnito feitiço;
A que ia o corpo de ébano banhar
Num rio azul, por entre matagais,
E ficava depois, de olhar mortiço,
Mirando-se, enamorada,
Nas águas retratada…

Baluba, a flor das águas sempre absorta
Na ingénua sedução da sua imagem;
Levou-a um jacaré num trago hiante,
Traçando um rasto longo, em tom vermelho,
De sangue rubro, em cristalino espelho.
- Mas diz a lenda que a Baluba morta deixou
no rio azul essa miragem do seu corpo ao luar,
sempre ondulante,
Qual flor negra de veludo,
Num encantamento mudo…

E a rapariga que não é bonita,
Irmã da sua raça,
Vai-se banhar no rio onde dormita
A flor de estranha graça…
E a Baluba, embalada p’las estrelas,
A todas faz ardentemente belas!

(Poesia de J. Galvão Balsa, in “Oiro e Cinza do Sertão)




( Mulher BALUBA Neves e Sousa)