sábado, 16 de outubro de 2010

SER OU NÃO SER EIS A QUESTÃO

A dimensão social da Europa é uma questão medularmente política. Não se trata tanto de saber quais os programas mais adequados, os projectos mais inovatórios, as acções mais eficazes: trata-se de saber que tipo de sociedade desejamos para o alvor do novo século, porque é em função dessa matriz que se escolhem as políticas, se definem os programas e se trilham os caminhos da construção do futuro.
Não imagino a evolução da União Europeia sem uma indispensável dimensão social do seu corpo constitutivo. Pela minha parte, não desejo uma sociedade de «ideologia da individualização», se a entendermos com um sentido egoísta, de confronto humano e de ferocidade social.
Talvez seja avisado não nos deixarmos encandear pelos faróis de um livre mercado desregulado, de uma competição sem freios e de uma competitividade que seja sinónimo de destruição dos outros a todo o custo.
Àqueles que defendem o ideal de que «o meu carro é a minha liberdade», eu responderia que sim.
Mas perguntaria, de que vale essa liberdade se as «selvas das barracas» decidirem, um dia, invadir as nossas cidades asfaltadas e as nossas urbanizações climatizadas? A liberdade não pode ser dissociada da solidariedade e da cidadania plena. Esta implica e exige de cada um de nós não apenas a reclamação crescente de mais direitos políticos, económicos ou sociais – obriga, também, à assunção de mais deveres.
Deveres de cidadania e de solidariedade, pois, como exigências decorrentes de mais liberdade e melhor progresso. Mas uma solidariedade activa, que passe pelo Estado mas não se fique por aí – que passe também pela solidariedade familiar, de vizinhança, de comunidade de vida, reconstituída sob valores humanitários que forjam civilizações e não assente, apenas, em fundamentos monetaristas que só criam sociedades perecíveis. E também uma cidadania que seja efectiva e quotidiana e não se limite quase à veste de eleitor periódico; antes seja permanentemente exercível enquanto expressão concreta do Direito e manifestação natural da Justiça.


Lisboa 1994

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (40)

A democracia não é, e nunca foi, senão um sistema de lenta, penosa e difícil construção de uma ordem política, económica e social mais livre e mais justa.

Democracia não significa apenas ausência de ditadura. As liberdades que ela postula só são reais, e não meras caricaturas, quando exercidas num Estado de Direito, o que pressupõe o império da lei e o primado da Justiça.

A democracia não é um «bem de luxo», próprio para consumo dos países ricos. Cada homem e todos os homens têm direito à liberdade e à justiça social. Onde elas existirem, haverá paz na consciência dos homens

Não está nunca definitivamente conquistada, senão através da tolerância, do diálogo, do esforço permanente de compreensão e de busca de soluções comuns.

Nenhuma «varinha mágica» está ao nosso alcance para nos fazer ultrapassar milagrosamente as imensas barreiras que se levantam, ou mantêm, ao aprofundamento das liberdades, ao crescimento saudável das economias de mercado, à generalização da justiça social.

Porém se não acreditarmos na capacidade do Homem, em que devemos acreditar? Falo do homem concreto, cuja dignidade essencial é igual em todo o lado, seja pobre ou rico, culto ou analfabeto, religioso ou ateu, homem ou mulher.

Essa dignidade só é atingível no respeito integral pelos direitos do homem.


Lisboa 1992

MÃE ÁFRICA

E depois,
Não mais foi como antes…
Roubaram minha alegria de viver.
Foi só a dor que nos restou
Na despedida.
E tu,
Mãe África,
Ficaste na distância…
O grito secou na garganta,
A liberdade perdeu-se no gesto,
A vida ceifou-se no ato
A terra semeou-se com sangue!
O mar te sepultou o corpo
E exangue respiras
Na negra solidão de tuas noites,
Mais terríveis…
Mais escuras…
Mais negras…

(Poesia do blogue “Muhuil´as”)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

HÁ SEIS MESES - O NUNO ESCREVEU

NÃO!
«Não chutes com tanta força, pai». Estou no meio da relva. À baliza eu que gosto de ser importante e por isso de marcar golos. Mas com o pai tanto faz. Só quero fazer alguma coisa com ele.

Não. Não chutes com tanta força. «Zuuuuca» dizes tu a quem o futebol nunca disse muito. Um chuto com o pé esquerdo no meio da relva no Ferrel e eu defendo e tu sabes que eu defendo. Pé esquerdo como o João Miguel. Tenho pena disso. De tu não estares para lhes mostrares como se chuta. Não os chutos na bola mas os outros. Os chutos na vida.

Queria tanto que eles aprendessem contigo. Tu sabias bem o que era importante, as regras que não se podiam quebrar, as linhas que não se podiam pisar. Hoje em dia só ouvimos dizer: «Não há problema. Toda a gente faz e o árbitro não apita». Mas tu sabias as regras. E elas estavam-te tatuadas no corpo. E assim o árbitro apita sempre. Vê tudo. Está lá sempre.

Gostava que soubesses mostrar as regras ao João e à Mariana. É que às vezes não percebo como é que para ti era tão claro. É tudo tão rápido que muitas vezes não percebemos se estamos fora de jogo ou não. Mas para ti parecia que as jogadas da ética são sempre claras. As regras acima de tudo. E nós queremos ganhar, sorrir, festejar e às vezes não percebíamos.

«Entrou. Foi golo» - digo eu

«Não filho, não passou a linha. A linha é clara. Um lado e o outro. Continuamos a jogar, ainda com mais empenho e amanhã…Zuuuuca».
Chuta com força pai. Não há problema. A linha está lá. Nós estamos sempre aqui a jogar um com o outro. E isso é o mais importante no final do jogo.
Vou dizer isso ao João quando ele chutar com o pé esquerdo.

domingo, 10 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (39) - LIBERTAR A SOCIEDADE CIVIL

«Ao alargamento desmesurado das despesas do Estado, a que se assistiu nos últimos anos, há que opor a contenção rigorosa dos gastos supérfluos e dos não essenciais. À burocratização do Estado há que opor a desburocratização do País. À descoordenação administrativa e à duplicação funcional e delapidação consequente dos recursos há que opor eficácia e produtividade.
É decisivo que os cidadãos e as organizações legítimas de representação dos interesses colectivos mais diversificados assumam o protagonismo que lhes cabe na modelação da nossa sociedade. E para isso também é preciso que não se continue a dar prova quotidiana de que tudo esperamos do Estado, no subconsciente assumido, afinal, como a mezinha para as nossas próprias incapacidades.
A Constituição deve ser um traço de união e não uma fonte de desunião, deve ser a estrada onde caibam todos os portugueses, com o trajecto que a vontade colectiva democrática apontar nas urnas. »
23 de Novembro de 1981
Referindo-se ao PSD

«A democracia não existe sem partidos políticos bem identificados, com projectos e propostas bem diferenciados. Não se serve a Democracia quando se pretende meter no mesmo bojo partidário visões ideológicas, programáticas e políticas opostas.
Sabemos que o Futuro já começou. Temos que o ganhar fazendo do presente o rio impetuoso que desagua no mar desse Futuro.
Cada um de nós é uma gota desse rio. Se nos perdermos do leito a que pertencemos, o rio será riacho, o riacho pode transformar-se em fio de água. É indispensável portanto, que saibamos estar unidos sob a identidade que faz de nós o mesmo rio. Porque é essa identidade que timbra as nossas propostas políticas, que nos diferencia. E ao diferenciar-nos, seremos fieis ás origens e dignos dos que em nós têm confiado. »
15 de Maio de 1985

terça-feira, 5 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (38)

O ouvidor do Kimbo já não pode escrever as suas notas políticas. Todos, os que o conheciam e respeitavam, sentem a falta das suas opiniões, da sua honestidade, da sua isenção e do seu rigor.
Deixamos hoje algumas palavras, frases, que em 1982- 83 escreveu a propósito da crise que o País atravessava.

Em Democracia os conflitos são tão normais como os consensos.
O conservadorismo, mesmo que pincelado de modernismos, não terá futuro. Mas este também não se constrói, sem uma resposta de mudança concreta que concilie a liberdade individual com a solidariedade social, a firmeza dos objectivos com o pragmatismo dos caminhos, o sentido de justiça com o valor do comando democrático.
Ao fim e ao cabo, mais uma vez, a iniciativa e a responsabilidade maior das modificações giram em torno do PSD. Que melhor prova se pretende daquilo que continuamos a ser no país e a representar para Portugal? (Dezembro de 1982)

A justiça social exige combate ao desemprego, que temo, possa aumentar gravemente.
A crise, é também de todo um povo que ainda não conseguiu afirmar-se colectivamente. Não há curas nem soluções milagrosas. É preciso que haja consciencialização patriótica nomeadamente quanto aos problemas económicos. Não se deve esperar do Estado o que não é viável que o Estado conceda. Na actual situação de crise interna e externa não parece que seja avisado encarar o conteúdo das compensações sociais pela mesma forma por que era encarado há uns anos. (Março de 1983)

sábado, 2 de outubro de 2010

TODA A VIDA


São José, Santa Maria,
Santa Marta, Todos os Santos.
Hospitais.
Sempre lá estive.
Toda a vida.

Quando Tu morreste,
eu não estava lá.

Fins de semana, dias, noites, feriados.
Bancos, tantos anos!!
Hospitais.
Sempre lá estive.
Toda a vida.

Naquela manhã, daquele dia,
Tu morreste,
e eu não estava lá.

Hospitais.
Trabalho, estudo, concursos.
Exames, investigação.
Saber!
E depois?

Meu amor!
Quando tu morreste,
eu não estava lá.