quarta-feira, 20 de outubro de 2010

FALAS DE EXÍLIO


Aqui de onde me estou
vos reconheço.


Nem eu bem sei
que outra razão me move
e a vós é estranha.
À pedra aqui me exponho...
Dela me faço e sei...
E do que dela sou vos dou notícia
no exílio que padeço...

Poesia de Ruy Duarte de Carvalho in«Lavra»

NOTAS POLÍTICAS (41)

Numa sociedade civilizada é de esperar a procura empenhada de formas eficazes e correctas de negociação, e de regulação dos conflitos.


Numa sociedade pluralista, nenhum grupo pode arrogar-se o direito de confiscar as propostas e as acções de transformação sócio – económica.


As melhorias económicas e sociais que o País carece só são possíveis de atingir em liberdade política e com estabilidade de acção governativa.


A liberdade política será sempre imperfeita e incompleta se não for acompanhada de um esforço constante de progresso social e económico.


O desenvolvimento económico e a justiça social não se atingem sem uma partilha de direitos e de responsabilidades entre todos os agentes cujas iniciativas podem contribuir para o progresso social.
Não há liberdades sindicais e direitos e garantias laborais sem um quadro institucional democrático.
Essas mesmas liberdades, direitos e garantias concorrem para o fortalecimento da democracia e impulsionam o progresso sócio - económico, desde que exercidas sempre sob formas legítimas ou seja no quadro do ordenamento democrático e nunca contra ele.





Excerto do discurso proferido no debate do programa do governo em 21.01.1981

domingo, 17 de outubro de 2010

A CHUVA

A chuva cai, e cai muito forte nesta Lisboa de cinzento – escuro. Ela vai em turbilhão por estas ruas entupidas, invade as casas de rés-do-chão, fustiga as paredes dos arranha-céus, traz lama e desperdícios de arrastão, torna tudo isto uma «desqualidade de vida». Ninguém se sente feliz com esta chuva.
Mas a chuva não é isso. A chuva na minha terra, também bate forte, de vendaval, cai pingo grosso, trovão de voz grossa, relâmpago de estarrecer. Mata gente, mata gado, revolteia a terra, põe-lhe os intestinos à mostra. Também podíamos dizer - esta chuva é muito má.
Não ligo. Não sei porquê, a chuva de cá é diferente da chuva de lá. Cadê a diferença? Ah meu irmão, diferença muito grande.
Quando a chuva começa a despejar, aqui, ouço os carros dos bombeiros, mais os carros da polícia, mais as gentes que se ajustam e falam e falam, mais as rádios e as televisões, mais diz que diz p’ra todo o mundo ouvir.
Mas, na nossa terra, meu irmão, quando a chuva passou e já não quer zangar-se connosco, a gente fica parado. Cadê dela? Nunca se sabe se ela volta. Às vezes volta. Furiosa. Mil vezes a despejar litros de água, riscos de fogo no céu, arvores tombadas, cubatas levadas no ar, a chuva diz que está zangada. Mas, depois da chuva, aí está a diferença, meu irmão: na nossa terra, a gente abre a porta e sente o cheiro da terra: é um cheiro penetrante, que enche de vida e de futuro, vem das «chanas» sem fim, dos guelengues que saltam, dos pirilampos que piripilam, das hienas que uivam horrível, dos sapos que coacham nos pântanos, das estrelas que estão lá no horizonte, luzidias.
E, depois da chuva da nossa terra, há esse silêncio: o silêncio da vida e do futuro.
Aqui, nesta Lisboa cinzento - pardacenta, o que existe? Sinto que estou a morrer entre os carros de bombeiros, a protecção civil, todo um governo que me quer proteger.
Meu irmão: vamos fugir, deixem-me morrer como eu sou! Deixem-me morrer na minha terra, sem tubos, sem antibióticos, sem análises bacteriológicas.
Docemente, a olhar para a minha terra de África, deitado no chão. A dizer o que sou, não sou nada: amo-te a ti, amo a minha África.
A fotografia foi tirada em Sá da Bandeira, há 4 anos, em frente à casa onde viveu nos tempos do liceu.
Texto sem data

sábado, 16 de outubro de 2010

SER OU NÃO SER EIS A QUESTÃO

A dimensão social da Europa é uma questão medularmente política. Não se trata tanto de saber quais os programas mais adequados, os projectos mais inovatórios, as acções mais eficazes: trata-se de saber que tipo de sociedade desejamos para o alvor do novo século, porque é em função dessa matriz que se escolhem as políticas, se definem os programas e se trilham os caminhos da construção do futuro.
Não imagino a evolução da União Europeia sem uma indispensável dimensão social do seu corpo constitutivo. Pela minha parte, não desejo uma sociedade de «ideologia da individualização», se a entendermos com um sentido egoísta, de confronto humano e de ferocidade social.
Talvez seja avisado não nos deixarmos encandear pelos faróis de um livre mercado desregulado, de uma competição sem freios e de uma competitividade que seja sinónimo de destruição dos outros a todo o custo.
Àqueles que defendem o ideal de que «o meu carro é a minha liberdade», eu responderia que sim.
Mas perguntaria, de que vale essa liberdade se as «selvas das barracas» decidirem, um dia, invadir as nossas cidades asfaltadas e as nossas urbanizações climatizadas? A liberdade não pode ser dissociada da solidariedade e da cidadania plena. Esta implica e exige de cada um de nós não apenas a reclamação crescente de mais direitos políticos, económicos ou sociais – obriga, também, à assunção de mais deveres.
Deveres de cidadania e de solidariedade, pois, como exigências decorrentes de mais liberdade e melhor progresso. Mas uma solidariedade activa, que passe pelo Estado mas não se fique por aí – que passe também pela solidariedade familiar, de vizinhança, de comunidade de vida, reconstituída sob valores humanitários que forjam civilizações e não assente, apenas, em fundamentos monetaristas que só criam sociedades perecíveis. E também uma cidadania que seja efectiva e quotidiana e não se limite quase à veste de eleitor periódico; antes seja permanentemente exercível enquanto expressão concreta do Direito e manifestação natural da Justiça.


Lisboa 1994

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (40)

A democracia não é, e nunca foi, senão um sistema de lenta, penosa e difícil construção de uma ordem política, económica e social mais livre e mais justa.

Democracia não significa apenas ausência de ditadura. As liberdades que ela postula só são reais, e não meras caricaturas, quando exercidas num Estado de Direito, o que pressupõe o império da lei e o primado da Justiça.

A democracia não é um «bem de luxo», próprio para consumo dos países ricos. Cada homem e todos os homens têm direito à liberdade e à justiça social. Onde elas existirem, haverá paz na consciência dos homens

Não está nunca definitivamente conquistada, senão através da tolerância, do diálogo, do esforço permanente de compreensão e de busca de soluções comuns.

Nenhuma «varinha mágica» está ao nosso alcance para nos fazer ultrapassar milagrosamente as imensas barreiras que se levantam, ou mantêm, ao aprofundamento das liberdades, ao crescimento saudável das economias de mercado, à generalização da justiça social.

Porém se não acreditarmos na capacidade do Homem, em que devemos acreditar? Falo do homem concreto, cuja dignidade essencial é igual em todo o lado, seja pobre ou rico, culto ou analfabeto, religioso ou ateu, homem ou mulher.

Essa dignidade só é atingível no respeito integral pelos direitos do homem.


Lisboa 1992

MÃE ÁFRICA

E depois,
Não mais foi como antes…
Roubaram minha alegria de viver.
Foi só a dor que nos restou
Na despedida.
E tu,
Mãe África,
Ficaste na distância…
O grito secou na garganta,
A liberdade perdeu-se no gesto,
A vida ceifou-se no ato
A terra semeou-se com sangue!
O mar te sepultou o corpo
E exangue respiras
Na negra solidão de tuas noites,
Mais terríveis…
Mais escuras…
Mais negras…

(Poesia do blogue “Muhuil´as”)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

HÁ SEIS MESES - O NUNO ESCREVEU

NÃO!
«Não chutes com tanta força, pai». Estou no meio da relva. À baliza eu que gosto de ser importante e por isso de marcar golos. Mas com o pai tanto faz. Só quero fazer alguma coisa com ele.

Não. Não chutes com tanta força. «Zuuuuca» dizes tu a quem o futebol nunca disse muito. Um chuto com o pé esquerdo no meio da relva no Ferrel e eu defendo e tu sabes que eu defendo. Pé esquerdo como o João Miguel. Tenho pena disso. De tu não estares para lhes mostrares como se chuta. Não os chutos na bola mas os outros. Os chutos na vida.

Queria tanto que eles aprendessem contigo. Tu sabias bem o que era importante, as regras que não se podiam quebrar, as linhas que não se podiam pisar. Hoje em dia só ouvimos dizer: «Não há problema. Toda a gente faz e o árbitro não apita». Mas tu sabias as regras. E elas estavam-te tatuadas no corpo. E assim o árbitro apita sempre. Vê tudo. Está lá sempre.

Gostava que soubesses mostrar as regras ao João e à Mariana. É que às vezes não percebo como é que para ti era tão claro. É tudo tão rápido que muitas vezes não percebemos se estamos fora de jogo ou não. Mas para ti parecia que as jogadas da ética são sempre claras. As regras acima de tudo. E nós queremos ganhar, sorrir, festejar e às vezes não percebíamos.

«Entrou. Foi golo» - digo eu

«Não filho, não passou a linha. A linha é clara. Um lado e o outro. Continuamos a jogar, ainda com mais empenho e amanhã…Zuuuuca».
Chuta com força pai. Não há problema. A linha está lá. Nós estamos sempre aqui a jogar um com o outro. E isso é o mais importante no final do jogo.
Vou dizer isso ao João quando ele chutar com o pé esquerdo.