sábado, 23 de outubro de 2010

PARA SEMPRE


Quando partiste, não compreendi que era para sempre.

Às últimas palavras: «porque é que isto me acontece?», não respondi.
Também não sabia.
Não éramos tu e eu. Éramos um só.
Quando ficamos reduzidos a metade, as nossas palavras, movimentos, atitudes, têm um único desígnio - a procura desesperada da nossa identidade de sempre.
Procurei-te: nos teus amigos, nos teus colaboradores, nos simples conhecidos.
Queria encontrar em cada um deles um bocadinho que tivesse restado do teu convívio.
Queria reconstituir-te peça a peça, numa recusa absoluta da realidade.
Encontrei-te em todo o lado: nos livros lidos, nas peças compradas, nas fotografias tiradas, nas contas das férias, em cada canto da casa, no olhar dos filhos, nas palavras dos netos.
Mas tinhas partido, sem avisar.
Desta vez não havia espera, nem antecipação do regresso. Desta vez era para sempre.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

1966- SAURIMO ANGOLA


1966- António do Nascimento Rodrigues era governador da Lunda.


A 6 de Agosto desse ano o Ouvidor do Kimbo parte para Angola para passar uns dias de férias.
Destino - Henrique de Carvalho (Saurimo) capital da Lunda.
Em casa dos pais, numa sala que a mãe tinha transformado em museu, havia um sem número de peças de arte africana da região.
Fotografou toda a sala.
Fez um pequeno filme e fotografias de Saurimo que vamos ver

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

FALAS DE EXÍLIO


Aqui de onde me estou
vos reconheço.


Nem eu bem sei
que outra razão me move
e a vós é estranha.
À pedra aqui me exponho...
Dela me faço e sei...
E do que dela sou vos dou notícia
no exílio que padeço...

Poesia de Ruy Duarte de Carvalho in«Lavra»

NOTAS POLÍTICAS (41)

Numa sociedade civilizada é de esperar a procura empenhada de formas eficazes e correctas de negociação, e de regulação dos conflitos.


Numa sociedade pluralista, nenhum grupo pode arrogar-se o direito de confiscar as propostas e as acções de transformação sócio – económica.


As melhorias económicas e sociais que o País carece só são possíveis de atingir em liberdade política e com estabilidade de acção governativa.


A liberdade política será sempre imperfeita e incompleta se não for acompanhada de um esforço constante de progresso social e económico.


O desenvolvimento económico e a justiça social não se atingem sem uma partilha de direitos e de responsabilidades entre todos os agentes cujas iniciativas podem contribuir para o progresso social.
Não há liberdades sindicais e direitos e garantias laborais sem um quadro institucional democrático.
Essas mesmas liberdades, direitos e garantias concorrem para o fortalecimento da democracia e impulsionam o progresso sócio - económico, desde que exercidas sempre sob formas legítimas ou seja no quadro do ordenamento democrático e nunca contra ele.





Excerto do discurso proferido no debate do programa do governo em 21.01.1981

domingo, 17 de outubro de 2010

A CHUVA

A chuva cai, e cai muito forte nesta Lisboa de cinzento – escuro. Ela vai em turbilhão por estas ruas entupidas, invade as casas de rés-do-chão, fustiga as paredes dos arranha-céus, traz lama e desperdícios de arrastão, torna tudo isto uma «desqualidade de vida». Ninguém se sente feliz com esta chuva.
Mas a chuva não é isso. A chuva na minha terra, também bate forte, de vendaval, cai pingo grosso, trovão de voz grossa, relâmpago de estarrecer. Mata gente, mata gado, revolteia a terra, põe-lhe os intestinos à mostra. Também podíamos dizer - esta chuva é muito má.
Não ligo. Não sei porquê, a chuva de cá é diferente da chuva de lá. Cadê a diferença? Ah meu irmão, diferença muito grande.
Quando a chuva começa a despejar, aqui, ouço os carros dos bombeiros, mais os carros da polícia, mais as gentes que se ajustam e falam e falam, mais as rádios e as televisões, mais diz que diz p’ra todo o mundo ouvir.
Mas, na nossa terra, meu irmão, quando a chuva passou e já não quer zangar-se connosco, a gente fica parado. Cadê dela? Nunca se sabe se ela volta. Às vezes volta. Furiosa. Mil vezes a despejar litros de água, riscos de fogo no céu, arvores tombadas, cubatas levadas no ar, a chuva diz que está zangada. Mas, depois da chuva, aí está a diferença, meu irmão: na nossa terra, a gente abre a porta e sente o cheiro da terra: é um cheiro penetrante, que enche de vida e de futuro, vem das «chanas» sem fim, dos guelengues que saltam, dos pirilampos que piripilam, das hienas que uivam horrível, dos sapos que coacham nos pântanos, das estrelas que estão lá no horizonte, luzidias.
E, depois da chuva da nossa terra, há esse silêncio: o silêncio da vida e do futuro.
Aqui, nesta Lisboa cinzento - pardacenta, o que existe? Sinto que estou a morrer entre os carros de bombeiros, a protecção civil, todo um governo que me quer proteger.
Meu irmão: vamos fugir, deixem-me morrer como eu sou! Deixem-me morrer na minha terra, sem tubos, sem antibióticos, sem análises bacteriológicas.
Docemente, a olhar para a minha terra de África, deitado no chão. A dizer o que sou, não sou nada: amo-te a ti, amo a minha África.
A fotografia foi tirada em Sá da Bandeira, há 4 anos, em frente à casa onde viveu nos tempos do liceu.
Texto sem data

sábado, 16 de outubro de 2010

SER OU NÃO SER EIS A QUESTÃO

A dimensão social da Europa é uma questão medularmente política. Não se trata tanto de saber quais os programas mais adequados, os projectos mais inovatórios, as acções mais eficazes: trata-se de saber que tipo de sociedade desejamos para o alvor do novo século, porque é em função dessa matriz que se escolhem as políticas, se definem os programas e se trilham os caminhos da construção do futuro.
Não imagino a evolução da União Europeia sem uma indispensável dimensão social do seu corpo constitutivo. Pela minha parte, não desejo uma sociedade de «ideologia da individualização», se a entendermos com um sentido egoísta, de confronto humano e de ferocidade social.
Talvez seja avisado não nos deixarmos encandear pelos faróis de um livre mercado desregulado, de uma competição sem freios e de uma competitividade que seja sinónimo de destruição dos outros a todo o custo.
Àqueles que defendem o ideal de que «o meu carro é a minha liberdade», eu responderia que sim.
Mas perguntaria, de que vale essa liberdade se as «selvas das barracas» decidirem, um dia, invadir as nossas cidades asfaltadas e as nossas urbanizações climatizadas? A liberdade não pode ser dissociada da solidariedade e da cidadania plena. Esta implica e exige de cada um de nós não apenas a reclamação crescente de mais direitos políticos, económicos ou sociais – obriga, também, à assunção de mais deveres.
Deveres de cidadania e de solidariedade, pois, como exigências decorrentes de mais liberdade e melhor progresso. Mas uma solidariedade activa, que passe pelo Estado mas não se fique por aí – que passe também pela solidariedade familiar, de vizinhança, de comunidade de vida, reconstituída sob valores humanitários que forjam civilizações e não assente, apenas, em fundamentos monetaristas que só criam sociedades perecíveis. E também uma cidadania que seja efectiva e quotidiana e não se limite quase à veste de eleitor periódico; antes seja permanentemente exercível enquanto expressão concreta do Direito e manifestação natural da Justiça.


Lisboa 1994