sexta-feira, 19 de novembro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (46)

O investimento exige estabilidade política e equilíbrio social.

Equilíbrio social no sentido de que, importa promover e conseguir um esforço colectivo e mais consensualizado para a consecução dos grandes objectivos do nosso País.
O desenvolvimento económico e a justiça social não se alcançam sem uma partilha equitativa de direitos e responsabilidades entre todos os agentes cuja acção possa contribuir para o processo de transformação social e económica.
A partilha não pode ser feita, porém, autoritariamente, e, não deve ser conquistada fora de um quadro de solidariedade nacional.
É necessário, pois, que as atitudes concretas dos sujeitos institucionais - nomeadamente, o Estado, o empresariado e os sindicatos – se inspirem numa clarificação do papel de protagonistas do progresso económico e social que lhes cabe.
E que essa clarificação tenha em conta a necessidade absoluta de uma concertação de esforços e de medidas sem prejuízo da autonomia de cada parte. Não se antevê via mais democrática, civilizada e apropriada para se responder colectivamente à crise e se gerar um futuro de facto mais livre e mais justo para todos os cidadãos.

Lisboa 14 de Julho 1981

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (45)

Somos um muito antigo País da Europa, com uma identidade nacional secular, forjada no encontro com outras civilizações e caldeada pelo diálogo com outras culturas, cujos valores em grande parte os portugueses acolheram e fizeram seus.
Saberei eu, nesta hora, transmitir-vos a mensagem da unidade essencial do Homem, falar-vos a linguagem do entendimento, expressar-vos as minhas preocupações e, ao mesmo tempo, as minhas esperanças quanto a um futuro melhor?

Neste velho continente, despontam manifestações de xenofobismo, reacções de intolerância, impulsos de egoísmos concentracionistas, como a prenunciar mais convulsões.

Não são, estes, sinais iniludíveis de fundos e sérios desequilíbrios em muitas das nossas sociedades? Não sou pessimista, pelo contrário. Ser livre está impresso na alma dos homens.

Genebra 3 de Junho de 1992

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Aviso do PSD

Há várias formas de se deixar perder ou desgastar a democracia.
Nunca fomos, não somos e não seremos, nem coveiros, sequer inconscientes, nem carpideiras de inútil choro tardio.
Quando está em causa a conquista de uma estabilidade democrática, impõe-se, mais do que nunca, não recear as acções de intimidação, e justifica-se, não permitir que o silêncio, ou as meias palavras envergonhadas, sejam interpretadas como cedência ao plano de inversão da democracia porque lutamos.
Nós, PSD, assumimos a nossa responsabilidade.
Assumimo-la com toda a transparência, com toda a isenção, com toda a tranquilidade.
A nossa resposta, a resposta de todos os democratas, não pode e não vai ser nem temerosa nem equívoca.
Os sociais - democratas não têm dúvidas sobre a sua resposta que vai exprimir-se sem medos que não se justificam, sem exaltações que nunca são timbre de democratas firmes e por isso serenos, sem hesitações ingénuas que misturem o essencial com o acessório e que confundam os planos, diferenciados, da defesa do regime democrático e da oposição legítima à actuação governativa.
Portugal será democrático, o caminho da estabilidade, da paz, da recuperação económica e da justiça social não será arredado.

Lisboa Fevereiro de 1982

sábado, 13 de novembro de 2010

QUISSANGE-SAUDADE NEGRA

Não sei, por estas noites tropicais,
o que me encanta…
se é o luar que canta
ou a floresta aos ais…

Não sei, não sei, aqui neste sertão
de música dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração…

Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!

Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente…

Dolente, a tua voz “luena”,
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena…

Que é o destino selvagem
duma canção que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso “Quissange”.

Quissange, fatalidade
deste meu triste destino…
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.

Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.

Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.

Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito.

-Se és tu, oh morte, morre!

Mas deixa a vida que tange
exaltando as amarguras
e as mais tristes desventuras,
do meu amado Quissange!

(Poema de Thomaz Vieira da Cruz, in “Quissange Saudade Negra”)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Permanece em mim

NÃO!!!

Não consigo deixar de gritar.
A dor é tanta que parece que nos sufoca, nos engole.
Já são tantos segundos depois do segundo antes que não sei quantos mais segundos vou aguentar.
“Permanece em mim. Permanece em mim. Permanece em mim.”
A música ecoa pelas paredes frias da Igreja e o meu grito de dor ecoa pelo meu ser sem fim à vista.

NÃO!

Permanece em mim.
Não quero esquecer o teu sorriso, a tua cara, as tuas barbas, o teu olhar infinito.
Toco o teu rosto frio e o meu coração gelado aquece.
Será que valeu a pena pai? Ter permanecido? Ter aguentado tudo?
Ninguém percebeu. Não passar a linha, nem à custa da própria vida.
Pelo país, pela causa pública, pelas suas convicções, pela democracia…
Mas que liberdade é esta onde não existe inteligência.
Mas que liberdade é esta onde não existe sentimento de algo maior.

Não!

Ninguém percebeu que mais uma vez não estava a falar de si. Estava a falar de todos nós.
Por algo mais importante que os partidos.
Por algo mais importante que o pai, que os filhos, que os netos, que a própria vida.
Estava a falar pelo futuro de todos. Pelas regras. Pelas linhas. As que definem o campo de jogo.
Não! Ninguém percebeu.
Mas o pai sabia.
E na sua tranquilidade habitual lutou com os actos e as palavras mesmo que soubesse que ninguém ia perceber.
Mas nós percebemos.
Sofremos ao seu lado sem nada dizer. Eu do outro lado da fronteira mas junto de si pelo ar entre nós.
Mas nós percebemos.
E o pai sabia que era assim. Que nos estava a falar com palavras não ditas. Com actos de um amor maior.
Aqueles que nós percebemos.
Aqueles que por isso permanecem em nossos corações.
E esses estão acima de tudo. Esses permanecem em mim.
Para lá das frias paredes da Igreja.
No calor do meu coração
Permanece em mim.

A 12 de Abril de 2010,
Há 7 meses,
O Nuno escreveu.

Permanece em nós.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Que Resposta Social – Democrata?

Nesta hora crucial de uma mudança talvez, de paradigma civilizacional, nesta encruzilhada decisiva em que se joga o futuro da Europa e do nosso País, nós social-democratas, temos o dever de não nos envergonharmos de o ser.
Pelo contrário: temos o dever e o direito de proclamar que continuamos fieis aos valores imutáveis de preservação da dignidade de cada homem e de todos os homens, aos princípios da liberdade e da solidariedade activa, às atitudes de abertura à inovação – o que é diferente de corrida às «modas» conjunturais – de rigor ético, de correcção de comportamentos, de valoração do espírito, de livre empreendimento e de mercado livre, sem prejuízo, nunca, de intervenções correctivas do Estado, quando as regras do mercado tenham como consequência a destruição da coesão económica e social de uma sociedade justa, democrática e progressista.

Estes são princípios e valores de que não devemos abdicar nunca na linha da social-democracia portuguesa.
Uma social-democracia que não é tecnocrática, porque seria desumanizada – mas que é, e tem que ser cada vez mais, reflectida, dialogada, permanentemente posta à prova pelo estudo, pelo trabalho sério, pela dúvida de quem sabe que não sabe tudo e, provavelmente até sabe pouco.

Uma social democracia que, por outro lado, sabe também quanto ilusório e nefasto é pretender dar satisfação populista a anseios dos cidadãos, através do aumento desmesurado dos déficits públicos, da sangria da poupança nacional, da manutenção de privilégios corporativistas – porque essa via, tão típica do socialismo, mesmo «aggiornato», a nada conduz senão ao sacrifício da geração futura, quando não, desde logo, ao sacrifício da nossa própria geração.


Lisboa, 5 de Maio de 1994

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tempos de Crise

Uma economia sã não é apenas uma economia competitiva.
É também, e necessariamente, uma economia de solidariedade humana.
Uma economia do homem e para o homem.
Não é pensável regredir a épocas de escravatura e a tempos de exploração.
Os direitos do homem não são apenas políticos, económicos e culturais.
São também sociais.
Onde não houver direitos sociais, não há verdadeira democracia, não há dignidade humana.
Não se caia no erro grosseiro de se imaginar que a liberdade pode subsistir sem a justiça e a solidariedade social.
É certo que os actuais sistemas de protecção social dão mostras evidentes de derrapagem.
Terão de ser, por isso, repensados e reequacionados, mas não eliminados, sobretudo em relação aos mais desprotegidos.
A democracia exige, cada vez mais, transparência, diálogo, concertação, informação séria, consulta cooperativa e construtiva. Alternativa a isto seria a perda da própria democracia e da liberdade. Teríamos então de recomeçar o combate da luz contra as trevas.
Mas a minha palavra final não aponta nesse sentido de desesperança.

Estou confiante que, nós, Portugueses, saberemos mudar, renovar e progredir, económica e socialmente, política e culturalmente, no espírito humanista e de tolerância que nos individualiza e caracteriza – como um pequeno País, uma grande Nação e um Povo digno.


Luso, 14 de Dezembro de 1993