domingo, 12 de dezembro de 2010

Somos como escrevemos

NÃO!

Não consigo escrever mais….

A minha caneta é empurrada pelo amor mas já estou cansado de tanta dor. E a caneta não avança.

Somos como escrevemos muito mais do que somos o que escrevemos.
Eu sou assim. Como a minha escrita. Desorganizado no caminho mas intenso na direcção. Curto. Rápido, que a chegada está já ali e eu não consigo esperar.
Tu não és nada assim (no presente porque a escrita permanece). Eu brinco com as palavras pois o riso cura-me a alma. Ou esconde a dor.

Tu não és assim. Tu és detalhe e sereno na construção, exigente também com as palavras como com as pessoas, de uma ironia sublime porque a inteligência é o tempo na espera que vai do dizer à descoberta do sentido.
Agora a caneta começa a correr pois a tua memória já a alimenta. Mas este texto tem de ser assim. Aos soluços de vida, para trás e para a frente, sem direcção clara. Mas com sentido. Porque é o meu texto. As minhas palavras. Logo eu sei ser melhor nas linhas desenhadas do que nas linhas escritas.

Mas agora não quero desenhar. Não quero que fique no ar vago do entendimento dos meus traços surrealistas. Não me quero esquecer de ti e de ti comigo e por isso não desenho ( aparte aquelas linhas que estão no princípio de tudo o que sou)

Escrevo. Para mim. À minha maneira. Por ti. Em nós.

Nuno, 12 de Abril de 2010

Circulo

Todo o caminho é belo se cumprido.
Ficar no meio é que é perder o sonho.
É deixá-lo apodrecer, no resumido
círculo, da angústia e do abandono.

É ir de mãos abertas, mas vazias,
de coração completo, mas chagado.
É ter o sol a arder dentro de nós,
cercado,
por grades infinitas…

Culpa de quem se fiz o que podia,
na hora dos descantes
e das lidas?

Ah! ninguém diga que foi minha!
Ah! ninguém diga…

Minha, a culpa,
de ter dentro do peito,
tantas vidas!...

Poema de Alda Lara

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MÃE NEGRA

Preludio

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela…

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas tuas mão apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe_negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro…

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada…
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe –Negra não sabe nada…

Mas ai de quem sabe tudo,
com eu sei tudo Mãe-Negra

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar…

Muitos partiram para longe,
Quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando
mãos cruzadas no regaço
bem quieta bem calada.

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…

Poemas de Alda Lara Lisboa 1951

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Flexibilidade e Relações Laborais

O termo “flexibilidade, ” entrou, decididamente, no vocabulário político, económico e social.
Claro que também se fala de flexibilidade laboral. À subida galopante do desemprego procurou-se reagir através de várias políticas. E a política do trabalho foi chamada a dar o seu contributo. Infelizmente, os factos encarregaram-se de evidenciar que a crise era mais persistente e os anos tornaram mais visível que se tinha iniciado e estava em curso uma mudança estrutural nas sociedades, cujo desfecho ignoramos.
A flexibilidade impor-se-ia, portanto, como uma exigência para a imperiosa eficiência do mercado de trabalho. A isto subjaz, claro, uma questão de fundo: a quem serve a flexibilidade laboral? Não negaria sob pena de dogmatismo, que ela é globalmente favorável às empresas e provavelmente à economia no seu todo.
Os adversários da flexibilidade encontram, porém, na persistência (quando não no próprio agravamento) dos níveis de emprego um argumento poderoso para a combaterem. E juntam-lhe o do alastramento de situações de precariedade e de degradação das condições de trabalho que, em casos crescentes estão à vista.
Creio que não poderá recusar-se a virtual evidência empírica de que os sucessivos “pacotes” de medidas legislativas, adoptados no domínio da legislação do trabalho e do emprego, não conduziram à regressão do desemprego como pretendiam.
Os ajustamentos estruturais que, sem dúvida, são necessários no tecido económico e as modificações organizacionais e tecno-produtivas que se impõem às empresas dependem muito mais de outros factores do que da flexibilidade do mercado de trabalho.
Neste sentido, sublinharia quão importante é para as empresas poderem desfrutar de um clima macro-económico saudável e consistente. Políticas orçamentais, financeiras e fiscais que não oscilem ao ritmo dos ciclos eleitorais, nem denunciem ziguezagues de cedências perante meros grupos de interesses e em desfavor do conjunto da comunidade, são seguramente muito mais importantes para estratégias empresariais de investimento, de inovação, de qualificação de recursos humanos e ou melhoria nos produtos e serviços que prestam, desejavelmente para mercados mais vastos, do que só a flexibilidade do mercado de trabalho.
Enfim, políticas educativas e formativas com mais qualidade e eficiência, políticas de desenvolvimento regional e de criação ou de ampliação de infra-estruturas básicas, de fomento de redes acessíveis de informação tecnológica são indispensáveis, mais do que um mercado de trabalho desagregado, para que se alcancem níveis de qualidade de vida que ninguém deseja ver regredir
.

Extracto do texto da intervenção em Seminário do Conselho Económico e Social Lisboa 1997

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A importância do diálogo nas relações laborais

Atribuo uma importância decisiva à concertação e ao diálogo entre parceiros sociais e entre estes e o Estado, para que os desafios do presente e do futuro sejam assumidos com consciência e responsabilidade e sejam vencidos em comum, já que comum é hoje o inimigo, que se chama desemprego, injustiça e exclusão social.
O desafio não passa apenas pela flexibilização do mercado de trabalho.
Erigir esta como a “questão das questões”afigura-se-me extremamente incorrecto e redutor.
Estou profundamente convicto de que ir só por aí é ir erradamente.
Avançar para uma democracia plena tem de passar pela participação de empresários e trabalhadores e pelas suas organizações de representação de interesses, não já como inimigos que permanentemente se degladiam e visionam a destruição do outro, antes como interlocutores que se aceitam e respeitam reciprocamente, divergem mas também acordam, discutem mas não se renegam, em suma, perfilam-se como parceiros que descobrem que o futuro colectivo a todos diz respeito.
Mas este é, do meu ponto de vista, um dos desafios nacionais.

Funchal, Maio de 1996

Notas Políticas (52)

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Não é curial, por exemplo, discutir-se a política salarial sem a enquadrar e relacionar com a política orçamental, … e fiscal, e sem a visionar no ecrã da comparabilidade com as situações dos nossos principais parceiros económicos europeus sob pena de se ignorar um potencial efeito de perda de competitividade e de mercados (reflexos negativos no nível de emprego).

Do mesmo modo, ao pretender-se combater melhor o desemprego, objectivo em si consensual, não será necessário, por exemplo, agilizar o mercado de emprego, melhorar a qualidade de ensino e da formação profissional, explorar novas fileiras de iniciativas de desenvolvimento local, diminuir os custos indirectos do trabalho sem, todavia, desencadear o ciclo vicioso de quebra de receitas e da consequente menor oferta de prestações sociais, elas próprias crescentemente mais necessárias perante a amplitude das exclusões sociais?

As medidas pontuais, as soluções parcelares, as decisões inarticuladas, não são, já, o caminho mais acertado

Excertos de um artigo publicado no jornal “Expresso” em 18 de Junho 1994