quinta-feira, 10 de março de 2011

Sindicatos e Partidos Políticos (2)

Se os partidos políticos são organizações que visam conquistar o poder com vista a gerir uma sociedade de uma certa forma – forma esta que tem a ver com o interesse dos trabalhadores -parece ser inviável ao sindicalismo alhear-se da existência de partidos políticos.
Ora isto coloca o problema do relacionamento entre sindicatos e partidos.
Que forma de relacionamento é a que melhor garante a autonomia sindical? Esta questão tem a ver com a questão do modelo de sociedade.
Se o sindicalismo aceita, basicamente, as estruturas actuais do sistema, então a sua função não é a de agente principal de transformação social.
O sindicalismo limitar-se-á à pura defesa dos direitos laborais, melhorando nos limites do próprio sistema as condições de vida e de trabalho. Creio que esta é, no fundo a situação do sindicalismo americano. Mas convêm frisar que isto não tem nada a ver com a questão da “dureza” ou da “moleza” do sindicalismo, da sua força organizatória e dos êxitos da sua acção reivindicativa.
Eu penso que a questão do papel do sindicalismo na sociedade está no centro, é a essência do problema da autonomia.
No fundo trata-se de saber se o sindicato se atribui a si próprio um papel de contestação - reivindicação, de “poder compensador ou contrapoder”, de rectificador das injustiças e desigualdades; ou se, ao invés quer ir mais longe e portanto atribuir-se igualmente um papel de agente essencial de transformação social, lado a lado com os partidos e outras forças sociais.


Manuscrito 1981

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sindicatos e Partidos Políticos (1)

O problema da autonomia sindical supõe uma relação. Não se é autónomo sem o ser em relação a algo. No fundo, a autonomia coloca-se em relação ao condicionalismo total envolvente, económico, político, social, cultural, confessional, etc.

Trata-se, por conseguinte, de apurar apenas em que medida se concepciona e se pratica essa autonomia.
Existe um certo entendimento da relação entre defesa dos interesses dos trabalhadores e o sistema social presente, entendimento que se articula, lógica e necessariamente ainda, com um projecto de futuro.
O sindicalismo, não pode consequentemente ignorar a política.

Mas esta situação recoloca o problema, velho, das relações entre as organizações sindicais e os partidos políticos, e o problema da intervenção sindical na política, ou seja, na concepção concreta da sociedade existente e futura.
Isto dito, importa fazer um esforço para se dilucidar qual deve ser o tipo de intervenção do sindicalismo na política. Ou seja: até onde pode e deve ir o tipo de intervenção do sindicalismo no processo de tomada de posição a nível nacional ou a nível sectorial, de forma a não perder a sua identidade de organização de defesa dos interesses dos trabalhadores, face aos governos e aos partidos políticos?

Manuscrito, 1981

terça-feira, 8 de março de 2011

SÓ, COM OS MEUS SONHOS.

No sábado, o meu tio “deu-me” a carrinha e sozinho, (sozinho, hein?!), fui para a estrada ver se caçava alguma coisa. Também foi maravilhoso. Foi a primeira vez que me passaram um carro (aliás, carrinha) para as mãos, sem ninguém a meu lado. Claro que não tinha interesse nenhum em caçar!!! O que eu quis foi sentir-me sozinho, no meio do mato, com uma estrada esburacada e uma carrinha a guiar! O que eu fiz e o que eu sonhei! Senti-me tão criança e tão homem ao mesmo tempo, que não fazes ideia. Em primeiro lugar, fartei-me de dar curvas e fazer manobra. Ri-me sozinho. Ri-me porque senti que a vida na Metrópole, por mais desgostos que nos traga ainda, é uma simples etapa; ri-me porque senti-me feliz e sei que o hei-de ser quando regressar a Angola. Para quê preocuparmo-nos em Lisboa ? Naquele momento era feliz. Que me importa que ainda venham dias maus? Sabê-los-emos vencer. Depois há-de voltar sempre o tempo bom. Andei mais de três horas a guiar e gastei quase meio depósito de gasolina! Quis experimentar a velocidade, e sabes a quanto cheguei? – A 110. Dou-te a minha sincera palavra de honra! Em estradas de Angola é difícil conseguir-se atingir essa velocidade, mas as estradas estão em bom estado e a carrinha desenvolve bem. Quando regressei ninguém acreditou em mim. Voltamos de novo à estrada e de novo 110. O meu tio ficou parvo…e cheio de medo, claro! Houve um momento em que a carrinha apanhou um bocado de areia e quase derrapou. Àquela velocidade, se não a aguento, era morte certa. Mas, felizmente, agarrei-me ao volante com calma e mantive-a dentro da estrada. É uma sensação formidável dar 110! Só se ouve o vento a assobiar forte nas janelas e só se vê o mostrador das velocidades. Eu senti, que naquele momento tinha a minha vida nas mãos. Bastava um simples imponderável para tudo se perder num ápice. É uma sensação de terror e de felicidade ao mesmo tempo! Tenho a impressão de que não volto a repetir o que fiz, embora o tivesse feito conscientemente.

Carmona Verão de 1959

domingo, 6 de março de 2011

Quedas do Duque de Bragança (Kalandula) (1)

Quedas do Duque de Bragança (Kalandula)

Roteiro de Viagens

Vamos por partes: Ao fim e ao cabo, acabei por sair de Luanda na 6ª feira de manhã. Só sábado - por volta das seis da tarde, cheguei a Carmona.
A viagem, pode-se considerar razoável. Apanhámos, ainda, um mau pedaço de estrada, mas foi pequeno.
Almocei às quatro da tarde, num vilarejo de nome Vista Alegre e às 7 chegamos ao posto do Quitexe onde pernoitamos. O Quitexe já é uma vilazita engraçada, praticamente encravado entre montanhas, sem ruas asfaltadas (mas onde paira um ar de paz e de indefinível tranquilidade), com alguma luz eléctrica que, se não abrange toda a povoação, tem alguns sítios com lâmpadas fluorescentes. A casa do chefe do posto pode considerar-se uma maravilha para o meio e não envergonharia Luanda. Pois foi ali, que resolvemos pernoitar. Deitei-me cedo, já pouco acostumado a estas andanças. Dormi maravilhosamente e, no outro dia, às 6 da manhã já estava a pé.
Abri a janela, e não calculas o entrechocar de emoções que eu senti. Nem te saberei explicar.
Senti uma alegria como há muito tempo não tinha. Que saudades de poder escutar um pouco de silêncio e de paz.
Campos em fora o sol inundava tudo e vinha até mim um cheiro muito meu conhecido e, sobre tudo, – muito querido, o cheiro do mato. Foi maravilhoso voltar a sentir aquela emoção de felicidade, aquele cheiro peculiar a terra, a capim, a campo, voltar a respirar aquela atmosfera de Paz e poder olhar em redor sem ver gente nem casas.
O grande prazer desta minha viagem é o facto de sentir de novo pesar sobre mim a paz destes campos de Angola, ver este sol tão cheio e tão vermelho, sentir o cheiro do mato, enfim, tudo quanto diz respeito à terra propriamente dita. Tenho tempo para pensar, sobretudo.
No domingo, fomos ao posto do Songo. Almoçamos numa fazenda de café e passamos um dia formidável. Quando regressamos eram já 10h da noite. Deitamo-nos cedo e na 2ª feira fomos almoçar ao Negage, que é uma vila já bastante engraçada. Do Negage ao Alto-Caríale fui eu a guiar! Chegamos ao anoitecer e pronto! O Alto-Cariale nem sequer luz eléctrica possui!
Terça - feira foi dia de descanso. Aproveitei-o para…não fazer nada! Sim, compreendes o que quero dizer? – Não fazer nada nesta imensa paz de Angola é fazer tudo afinal! Ficar sentado à varanda, com um enorme silêncio sobre a terra e sentir tudo o que se sente nessas alturas. O Alto - Caríale não chega a ter uma dúzia de casas! Imaginas o que é uma terra assim? Sem dúvida, eu acredito que a solidão seja para essas pessoas um mal que as põe neurasténicas.
Mas, para mim, farto até aos olhos do movimento de Lisboa, nada mais agradável do que estar sozinho no meio do campo, olhando a vastidão dos horizontes, sentindo o ar puro, encantando-me com a tranquilidade e o silêncio que reinam. E, à noite, que dizer-te da escuridão, do silêncio, da paz que se sente e não se sabe contar?
Quinta feira, um grande dia! Fomos visitar as Quedas do Duque de Bragança, que ficam, ida e volta a 500km do Alto Caríale. Passámos um dia inteiro na viagem e lá nas quedas mas asseguro-te que nunca vi espectáculo tão imponente na minha vida. Maravilhoso! Não há nada no género em Angola, decerto, a não ser as do M’Bridge, mas essas se superiores em altura, não o são em imponência. As Quedas do Duque fazem uma pessoa sentir que o homem é mesquinho perante a natureza

Carmona 25de Julho de 1959

sábado, 5 de março de 2011

A História de Muculo Nambuco

Vou concorrer, - aos jogos florais da Sociedade Cultural de Angola - com um conto, que, inicialmente, tem o nome de “ A História de Muculo Nambuco.” De princípio, é a história de uma tribo antiga, do tempo dos reinados negros, e sobre a qual cai a desgraça. Então Muculo Nambuco, que é o príncipe do seu povo, é obrigado a sair do seu reino em busca de um mundo melhor. Em longes terras encontra outro povo, de raça diferente, o qual é governado por uma rainha. Decerto se hão-de casar mas Muculo Nambuco, que é “luíva”, há-de voltar à terra natal e deixa a rainha negra. Isto é um esboço muito rápido e sem que eu te possa dar a certeza de que a história vai ser mesmo assim Às vezes, de um momento para o outro, posso-lhe modificar a contextura. Já a comecei e vou reproduzir-te o pouco que já escrevi:

“ Viera de longe – das bandas em que as chanas e as anharas se dão as mãos de passo a passo e se espreguiçam infinito a dentro numa caminhada de que não logra topar o termo. Porque Muculo Nambuco é caçador de profissão. Botado terras em fora de cambulhada, correm luas sobre luas sem que alguém lhe ponha olho no corpo ou boca alviçareira se abra para lhe apontar o paradeiro. Na “banza” de Nha-Caritina, ao rés do rio, as mulheres cantam agora, no amanho das lavras, tristes melopeias de saudade pelos abraços fortes do negro caçador e os velhos da tribo arengam-lhe os feitos de andarilho dos grandes matos, quando a “mutopa”corre de boca em boca, nas longas noites tombadas sobre os “h’rimbos” dos luivas. Mas Muculo Nambuco tão cedo não há-de voltar. Junho cacimbeiro andava ainda espalhando as primeiras névoas pardas e já Nha-Caritina, rei da terra Luiva e dos negros dela, perdera a conta das pragas à socapa cuspinhadas contra Zambi-ià-Meia, o deus das águas. Nas palhotas do sobado, “tchinguilos” abertos para Nordeste, de onde sopram os ventos de Caçone, os velhos da tribo têm os olhos parados de tanto mirarem os longes sem viração da terra cansada. Campos além até tão longe quanto costumam ir os batedores luivas apanhar a caça fugida, um pesado silêncio se espicha sobre o mundo em que Nha-Caritina dita a sua lei de senhor dos povos. Os negros das chotas cravadas ao longo do Luíva, o grande rio de torrentes caudalosas que à raça dera o nome, já não sabem que mais caminhos palmilhar em busca de carne para o povo faminto. E os velhos conselheiros dos povoléus tão dextros na lenga-lenga das histórias da gente luíva, meneiam a cabeça de cansaço e perdem a memória na narração das luas passadas desde que o mau tempo da desgraça caiu de espicho sobre as planícies ermas e rasas. Nha- Caritina anda de cabeça tombada sobre o peito. Está mais velho que a podre “mulemba” erguida no centro do terreiro da sua “banza” e as pernas magras já não têm músculos para passarem além da última palhota do povoado”-
A descrição, como vês, não se pode comparar aos tempos de Sá da Bandeira…É provável que este conto deva ser o mais longo de quantos fiz até hoje, mas vou abalançar-me a produzir a primeira obra de… Fundo! Não achas que, para começo, já não vai mal?

Carmona 24 de Julho 1959