quarta-feira, 13 de abril de 2011

AVÔ

Olharei para as estrelas hoje para te tentar encontrar nelas. Encontrar os teus olhos brilhantes que, espero, pousem em mim nos anos vindouros. Passou um ano desde que seguiste outro caminho, um que não podemos seguir contigo, e, passado esse mesmo ano escrevo-te e conto-te aquilo que, por pena minha, não pudeste presenciar. Gostava que cá pudesses estar para me veres fazer dezoito anos, de te fazer orgulhoso, tão orgulhoso quão orgulhosa sou em ser tua neta, por te ter tido na minha vida. Não há dúvidas que sinto a tua falta, do cheiro do tabaco na tua roupa, do teu rosto enrugado de sabedoria e conhecimento que gostaria de ter partilhado contigo. Sinto saudades desses olhos cansados de batalhar pelo bem - estar dos outros, e se há algo de que mais sinta saudades é do teu toque, do teu suave toque que me acalma e aquece. Quero poder reencontrar o teu colo e aninhar-me nele, adormecer nele, quero ser embalada até sentir o conforto e a segurança que sempre me transmitiste, a sensação familiar que só tu és capaz de me transmitir. Hoje quando vir as estrelas, vou reencontrar essa sensação familiar e guardá-la mesmo aqui, no meu coração




Lisboa 12 de Abril de 2011 Catarina

terça-feira, 12 de abril de 2011

H. NASCIMENTO RODRIGUES



Fez hoje um ano que regressou à ‘Casa do Pai’ um Homem Bom: Henrique, para uns, Nascimento Rodrigues, para outros, sempre com uma palavra positiva, de encorajamento e de apreço para toda a gente. Um exemplo para os políticos de hoje Face aos tempos de austeridade e à grave crise que o país hoje atravessa, quero aqui referir o seu exemplo de homem íntegro. Sou testemunha que, quando ele foi Ministro do Trabalho, em 1981, se levantava cedo, saía de casa, ao volante do seu Citroen “Diane”, levando a mulher ao trabalho e os filhos à escola, após o que regressava à porta de casa, onde o esperava o carro do Estado, cujo motorista o conduzia então ao Ministério, onde chegava sempre pontualmente às 9H da manhã. Como ele ainda hoje poderia ser útil ao país! Os que com ele privaram jamais o esquecerão. Espero que, pelo menos, sirva de exemplo para o “seu” PSD, nestes tempos difíceis.


Jorge da Paz Rodrigues Publicado terça-feira, 12 de Abril de 2011 22:45

PALAVRAS NO AR

NÃO!!!

Nesse segundo antes do outro segundo o telemóvel tocou. Sempre pensei que ia saber como seria esse segundo antes do segundo seguinte. “Nuno, querido é o pai… O pai morreu, Nuno."

NÃO!!!

Voou a minha vida naquele grito pelo meio das árvores. “Nuno, querido.” Nos segundos antes do dia anterior nada fazia prever. Telefonei à mãe, talvez fosse lá jantar, mas tu tinhas-te sentido mal. Estavas a vomitar, foste internado. Nos segundos antes desse dia, a mãe telefonou a dizer que te ia ver, para não me preocupar. Só uns segundos antes do telefone tocar.

NÃO!!!

Tu não tinhas parado como era o nosso medo. Tu estavas a conseguir pai. Como é incrível a volta que deste à tua vida. Tu que não sabias trabalhar com o telemóvel, o que para alguém que trabalhou a vida toda como tu era intrigante. Para alguém como tu em que trabalho é esforço, trabalho é dedicação, trabalho é nunca desistir, trabalho é sermos mais e melhores, esse pequeno e simples objecto não fazia o sentido de uma caneta. Tu deste outra vez a volta. Escreveste com a caneta os teus apontamentos de informática que só agora vi. Não percebi o que escreveste. Não me explicaste enquanto podias. Como sempre. As meias palavras escritas ou ditas eram afinal a nossa especialidade. Parece que quando flutuam no ar depois de sair da nossa alma elas perdem sentido. As palavras ditas nunca são as mesmas que as sentidas no coração. Deve ser por isso que não as sabia dizer-te. Parece que ainda agora não as sei colocar aqui. Não sei. Mas sei que tu as conhecias melhor que ninguém. Entre o “sim fui a Espanha esta semana” e o “não lutes com o teu irmão” estavam as outras palavras. Aquelas que o teu olhar profundo não sabia esconder. Eu sei que eram essas palavras que o ar devia ter trazido e ficaram aí. Mas a Mãe sabia trazê-las de um coração para o outro. E a vida fazia questão todos os dias de me as mostrar na intensidade de cada momento. Mas escreveste-as no teu blogue. As palavras. Não aquelas que ambos sabemos existirem mas as outras da tua vida. De África. Da política. Essa tua vida que nós conhecemos pelas palavras dos outros. De África muito pouco. Da política demasiado. Mas o teu blogue permanece. E com ele as tuas palavras para quem as quiser escutar. As outras escrevo-as para garantir que o ar não as leva nunca:


“Amo-te Pai”

segunda-feira, 11 de abril de 2011

MANHÃ

Em 12 de Abril do ano 2010 a vida revirou-se. Diria mesmo, re-vidou-se. Numa manhã igual a mil outras o anúncio caiu-me no colo e deixou-me perdida, “ o pai, minha querida, o pai morreu”. Sem mais. As palavras mais assustadoras e incríveis, (mesmo de não crer nelas..), que me foram ditas até hoje. Já estivera antes perto desse medo fundo que é o de perder alguém que nos é querido. Mas nesse dia, as palavras não tinham esperança, e, não tinha motivo para ir em frente e lutar. E então restou-me ficar ali. Sem reacção. A princípio, a perguntar-me mil vezes se tinha ouvido bem, a perguntar porquê e como. A gritar bem fundo a pergunta de que nada serve, “porquê”? Depois faltou-me o ar, pensei em correr e em fugir. E senti-me fugir de mim mesma, pois não havia para onde ir. E o ar a rarear e a garganta a fechar-se num nó cego. E a pergunta injusta: “porquê”? Há momentos em que nos perdemos no mundo. Claramente. E a sensação de perda é tão intensa e tão evidente que só do fundo de algo – que me pareceu ser a consciência, a razão evidente da necessidade – veio a reacção fria e cortante: “Respira, precisas de respirar…” por favor, deixa-me respirar. Não chores, não digas mais, não repitas e não me acarinhes. Deixa-me só respirar. E depois de conseguir que o ar me deixe viva, a queda. Como que um peso invisível nos ombros e a necessidade imperiosa de me sentar no chão e chorar. Não foi tristeza, foi um sentimento sem nome que me deixou mais que vazia. Um sentir assim de impossibilidade que me deixou perto da terra e da segurança de que não iria voar. E o tempo a voar nos momentos de ir despertando. Num torpor de reagir, porque sim. Nas mãos de segurar os outros. Na certeza de que assim me seguraria. E as palavras que têm que ser ditas vezes sem conta. E as respostas, sempre iguais e incrédulas como a minha própria incredulidade. E o olhar em volta à procura de espaço para existir. À procura de ser útil, para me sentir viva. E o nó a apertar, e eu, a tirá-lo para longe de mim.




Ana Nascimento Rodrigues




Um ano - Amanhã

domingo, 10 de abril de 2011

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer

não me dêem rosas

mas ventos.

Quero as ânsias do mar,

quero beber a espuma branca

duma onda a quebrar

e vogar.

Ah, a rosa dos ventos

a correrem na ponta dos meus dedos

a correrem, a correrem sem parar.

Onda sobre onda infinita como o mar

como o mar inquieto

num jeitode nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.

Morrer, ficar quieto,

não.

Oh, sentir sempre no peito

o tumulto do mundo

da vida e de mim.

E eu e o mundo.

E a vida.

Oh mar,

o meu coraçãofica para ti.

Para ter a ilusão

de nunca mais parar.


(Poesias, 1961)


Alexandre Dáskalos, (Poeta Angolano)

sábado, 9 de abril de 2011

ANGOLANO




Muxima [Carlos Aniceto Vieira Dias]
Muxima ue ue, muxima ue ue, muxima
Muxima ue ue, muxima ue ue, muxima
Se uamgambé uamga uami
Gaungui beke muá santana
Kuato dilagi mugibê
Kuato dilagi mugibê
Kuato dilagi mugibê
Lagi ni lagi kazókaua
Kuato dilagi mugibê
Kuato dilagi mugibê
Kuato dilagi mugibê
Lagi ni lagi kazókaua



A palavra "muxima" quer dizer coração em Kimbundo. Essa música fala da Nossa Senhora do Coração dos Angolanos, também chamada Mama Muximaue; é um verdadeiro hino em Angola
Muxima (Duo Ouro Negro), foi o último post colocado pelo Ouvidor do Kimbo, dia 09 de Abril de 2010 às 16.10.
"Angolano", poema de Albano Neves e Sousa, foi editado, neste blogue, pelo Henrique em 4 de Março de 2010






sexta-feira, 8 de abril de 2011

SEM IDEAIS, E SEM ENTUSIASMO, o trabalho não presta.

É certo que eu tenho sonhos e ideais muito diferentes dos da maioria; mas também sei que eles serão praticamente irrealizáveis.Só um rapaz que fosse verdadeiramente excepcional os poderia concretizar, mas eu sei positivamente que não sou. É que, conseguir concretizar o que sonho vai-me custar muito, só o poderei fazer à custa de imensos sacrifícios. Talvez mesmo, mais do que isso – à custa, até, à custa de um sonho para ver realizado o outro. Sei que é impossível as duas coisas ao mesmo tempo.

Por isso mesmo eu vou deixar perder estes sonhos que a mocidade sempre acalenta, para poder concretizar o outro: a minha carreira e o meu futuro.

Creio que me vai custar imenso, mas, com a ajuda de Deus, eu hei-de vencer! Talvez um dia mais tarde eu me venha a arrepender do passo que tomei, e só então reconheça que, a ambição e o desejo de vir a ser alguém muito grande nesta vida, não me puderam fazer esquecer outros sonhos que poderia ver realizados à custa destes.

Mas paciência, o futuro o dirá. Já comecei a trabalhar, com cuidado e com afinco, no meu livro. Tem-me dado imenso trabalho, e há momentos em que me chego a convencer de que não vale a pena o sacrifício. Eu sei que estou ainda muito “cru” muito “verde” em Literatura, mas, com força de vontade, hei-de ver o meu livro publicado, dentro de 2 a 3 anos, se Deus quiser. Antes não pode ser, porque ainda preciso de aprender muito. Creio que mais vale esperar um pouco e “andar com calma” a precipitar-me e ter um fracasso. Mas tenho fé! E hei-de ver este pequeno sonho, que há tanto acalento, realizar-se! Às vezes creio que sonho demais e que também sou demasiadamente entusiasta. Mas, palavra, sem ideais e sem entusiasmo o trabalho não presta. Ora! Deixa andar!


Lisboa 27 de Dezembro 1957