segunda-feira, 30 de maio de 2011

NOTAS POLÍTICAS (73)

É incontroverso. O mundo do trabalho mudou, porque mudaram as estruturas produtivas, os comportamentos sociais, a própria estrutura familiar. Nem tudo muda ao mesmo tempo e da mesma maneira, como é evidente.

Mas é preciso perceber que não é possível recuar no tempo. Tal como é imperioso avaliar se o tempo do futuro é um tempo de evolução sem roturas na coesão económica e social nuclear do país, sem a qual arriscamos convulsões cujo desfecho seria imprevisível

Funchal 1996

NOTAS POLÍTICAS (72)

O diálogo social pode impulsionar, apoiar e sustentar o desenvolvimento da economia e a melhoria das condições de trabalho, numa palavra, a modernização da sociedade e o aprofundamento da coesão social.

Em Portugal, a concertação social despontou sob um governo de coligação dos dois maiores partidos portugueses (PS e PSD) e num péssimo enquadramento macroeconómico e financeiro. Iniciou-se com o claro intuito de associar à estabilidade governativa (potenciada pela grande coligação governamental) a estabilidade induzível pelo reequilíbrio das contas externas, então fortemente degradadas, e pela normalização gradual de uma inflação elevadíssima.

Cada país tem, portanto, que encontrar as suas próprias soluções, na evolução intemporal que vem do passado, passa pelo presente e se abre ao futuro, num contexto que nunca mais será de isolamento – porque um país isolado é um país morto. Neste turbilhão da globalização cada país tem de conquistar um espaço e afirmar a sua identidade própria.

Não o conseguirá, julgo, sem que cada um e todos os seus agentes – políticos, económicos e sociais – percebam e decidam, de preferência em concerto de opiniões e de actuações, por onde andam e para onde vão na sua “casa” e na “aldeia global” em que vivemos.

Março 2000 Praia (Cabo Verde)

sábado, 28 de maio de 2011

EU ESCOLHI O BALÃO VERMELHO

É na altura em que se deixa de ser moço para se ser homem, que escolhemos os caminhos da encruzilhada: ou se quer ser adulto – jovem, ou adulto sem ser jovem.

Toda a gente tem o seu “Balão Vermelho”.

Ao chegarem à tal encruzilhada, uns largam-no – e o balão arrebenta – outros preferem continuar com ele. Destes últimos, ainda há contudo duas categorias a referir: aqueles que, levando-o consigo, são alvos de risota, de desdém e desprezo; e os que também, sem o largarem, conseguem contudo que o mundo os olhe com admiração respeito e carinho.

Dois grupos que partem do mesmo princípio, que seguem o único caminho possível para quem tem força e fé, mas que o trilham de maneiras diferentes. Os que preferem continuar com o balão, podem fazê-lo por dois motivos: porque o balão é algo de muito querido, que sempre os acompanhou e que eles não querem abandonar; e os que também preferem o balão, porque estão convencidos de que mais do que querido, é algo de valor.

O descomunal balão, pode ser um símbolo mágico de sonho e fantasia; mas pode - e deve – ser, além disso, uma coisa de valor que seja digna de ser passeada porque é forte e é dela que depende a nossa vida. Não interessa andar só com o balão porque ele é o nosso sonho de “menino e moço”, o nosso companheiro de todas as horas; interessa mostrar ao mundo que o balão da juventude foi sonho quando o devia ser; é uma força, agora, dotada da poesia da mocidade e do valor da maturidade.

O que eu quero dizer, afinal, é que o balão que nos acompanha, representa algo de valioso que desejamos obter. A sociedade rirá, dos que andam com o balão numa euforia de fantasia e sonho; essa mesma sociedade fechará o sorriso e olhará com respeito aquele que lhe mostrar o seu balão, cheio de sonho e quimera, mas repleto de vitalidade e de provas concretas de que esses sonhos não são só lindos por serem sonhos, mas porque são sonhos que alcançaremos a lutar.

Eu escolhi o balão; simplesmente, eu não tenho medo de o mostrar e de passear com ele; o meu balão não é só cheio de sonhos e quimeras: quimeras e sonhos não são para mim só símbolos – são valores que eu transformarei, der por onde der, em realidades, para que a sociedade admire e respeite o meu balão.

Lisboa 1958

EM ÁFRICA


"Em África, o Tempo inda cheira e ressoa àquele momento inicial e singular como se fosse o abrir da primeira página do Génesis logo imediatamente e depois da primeira queimada.

Em África, o Tempo, é como o vento não se mede, não se conta, o Tempo, vive-se no riso, gorjeio de cada dia dádiva de chuva caindo mansa fartura de lavras massangos poemas e cantigas."

Namibiano Ferreira (poeta Angolano) in Tombwanamibilis

sexta-feira, 27 de maio de 2011

NUNCA TOMBAREI LUTANDO

Eu irei contra tudo e contra todos os que me quiserem pôr ou me puserem obstáculos, até alcançar o que quero; o que eu tenho que ver, e com muito cuidado, são os meios para alcançar o meu fim.

Se um dia tiver uma desilusão acerca das minhas capacidades, eu não ponho limites ao que posso fazer; gastarei o que valho (e sei que algo valho!) até mais não poder, até ou rebentar comigo… ou rebentar com os outros. Tenho plena consciência do ponto até onde posso, e sou capaz de ir; quero lá chegar calmamente, sem deixar de ser o que sou, leve ou não muito tempo.

Lutarei, tombando; mas ponho de parte a hipótese de tombar, lutando, porque parto do princípio que, se eu tombar, me erguerei de tal forma que nunca mais tombarei – antes farei os outros tombar diante de mim!

Eu sei o que quero de mim próprio e dos outros; só não posso conceber que me ataquem no meu orgulho. Sou demasiadamente cioso da minha personalidade para o admitir a quem quer que seja. Neste ponto nem sequer meço a consequência dos meus actos.

Eu teria vergonha se me deixasse vencer; deixaria de ser eu, pura e simplesmente.

Não há nada que custe mais do que os ideais prosseguirem… e nós ficarmos pelo caminho.

Tenho em mim uma força que é superior a mim próprio. Mas, se com quase 18 anos eu não pensasse assim, que me sucederia no amadurecer da vida? É melhor ser como sou; quando as desilusões vierem em massa, a minha força de vontade ficará abalada, mas sobreviverá; se, hoje, ela não fosse tão grande, nessa altura desapareceria!

Lisboa 1958

quinta-feira, 26 de maio de 2011

CAMINHOS DO DIÁLOGO TRIPARTIDO EM PERÍODOS DE CRISE (2)

Os factores de natureza económica de que ressumam as características de uma crise nacional são, como já disse, de grande peso. Desde a fraqueza do mercado de emprego à retracção do investimento, ao volume do crédito, etc., tudo são vectores que podem conduzir, de acordo com a avaliação feita por cada parceiro, aos caminhos da negociação e do consenso ou, pelo contrário do confronto permanente.

Repare-se, por exemplo, no aspecto referente ao mercado de emprego: a situação concreta pode impelir uma estratégia mais voltada para a aceitação de plataformas de entendimento, designadamente, por hipótese, no campo da política salarial global; ou pode conduzir, ao inverso, ao agravamento da situação e a uma estratégia consequente de confronto.

Mas se, no conjunto, os factores de crise económica acentuam talvez uma propensão para a “interiorização” de que é necessário um mínimo esforço colectivo e para uma “exteriorização”dessa convicção eles próprios também podem provocar fenómeno contrário. O descontentamento popular pode crescer e alastrar poderosamente nesse contexto, e estaremos colocados perante o cenário de os parceiros sindicais, e por vezes os parceiros empresariais, decidirem optar por caminhos de luta aberta, pela via do não diálogo, quer com o Governo quer com a outra parte - ou seja , haverá maiores perspectivas de confronto que de consensualização.

Março 1981

quarta-feira, 25 de maio de 2011

CAMINHOS DO DIÁLOGO TRIPARTIDO EM PERÍODOS DE CRISE (1)

A ocorrência do diálogo tripartido para efeitos de definição dos programas sócio - económicos do país, é mais ou menos fácil consoante a estrutura e a representatividade do movimento sindical e da parte empresarial.

Se os parceiros sociais, reconhecendo-se ambos como representativos de interesses opostos, não se aceitam reciprocamente enquanto autores possíveis – e até mutuamente desejáveis de um processo de concertação na tomada de decisões socioeconómicas de carácter global, os caminhos para um entendimento mínimo estarão muito mais bloqueados.

Quando a outra parte é “assumida” ou encarada como um inimigo a abater custe o que custar, e não como um adversário com quem se lute pela negociação, creio ser avisado pensar que a estratégia surgirá nesse caso com um peso prevalente sobre a estratégia do diálogo.

As forças sindicais podem apostar numa estratégia de confronto mais ou menos acentuado, se entenderem e concluírem que esse papel contribuirá para uma alteração da situação política que elas próprias reputem como favorável aos seus interesses e aos objectivos.

Se a avaliação do contexto político levar as forças sindicais a concluir, por exemplo, que existem perigos de “direitização autoritária do regime, isto pode conduzi-las a uma estratégia de negociação e de procura de entendimentos, mais do que à opção por uma estratégia de confronto.

O mesmo, também pode acontecer do lado empresarial. O “liberalismo” que é clássico ser defendido pelas confederações patronais pode escamotear, no fundo, objectivos muito diferentes. Por um lado pode escamotear uma verdadeira “delegação” no Governo da tomada unilateral de medidas que sejam de orientação favorável ao empresariado, logo, pode esconder o papel real de não assumpção de um protagonismo social, o que conduz potencialmente a uma estratégia, pelo menos inicial, mais de confronto do que de diálogo.

Por outro lado, no entanto, uma filosofia empresarial liberal mais real ou autêntica conduzirá, eventualmente, à aceitação do ponto de vista basilar de que a sociedade evolui necessariamente e que não podem deixar de ser adoptadas reformas, logo, o lado empresarial estará então mais disposto a assumir um protagonismo efectivo, e consequentemente a adoptar uma estratégia que não recusará, em princípio, o contacto e a negociação social.

Março 1981