segunda-feira, 13 de junho de 2011

ANGOLA INÍCIO DA GUERRA COLONIAL

1961 foi um ano péssimo para o Ouvidor do Kimbo. Já no 3º ano da Faculdade, ele vê, subitamente, caírem por terra os sonhos de, após concluído o curso, regressar a Angola, e, contribuir para o engrandecimento da sua terra, sem abdicar da sua Pátria.

Acabamos de resolver enviar ao Governador Geral de Angola um telegrama: “ Estudantes Universitários Angola, residindo provisoriamente na metrópole, pedem V Exª seja interprete população Angola, nossa incondicional solidariedade, firme decisão defesa integridade essa sagrada terra, desejo ninguém abandone Angola”.

Temos recolhido mais assinaturas para a nossa carta, mas só esta noite nos reuniremos a fim de decidir se a publicamos ou não. Vou defender o princípio da sua publicação, pois acho que é preciso “abrir fogo” contra o “M.P.L.A”.

Não tenhas receio, eu terei as devidas cautelas.

A situação tende a normalizar-se.

Nova – Lisboa é um grande baluarte, o maior depois de Luanda. Se um dia Luanda e Nova Lisboa caíssem, Angola estava perdida. Os meus Pais continuam em Luanda, pois têm em casa a minha tia e os meus primos. Por enquanto eles não regressam ao Quitexe e, por isso, os meus pais têm de ficar ao pé deles. O Ministro do Ultramar já tomou várias medidas, mas não me parece que elas sejam suficientes. Creio até que estão muito aquém disso. O irmão e a cunhada do “Alfafa” morreram assassinados! Ainda eram meus primos em 3º grau.

Correm alguns boatos sobre o Adriano Moreira, segundo os quais ele estaria furibundo com o “califa”. Em que medida isso é uma verdade ou uma mentira com intuitos, eu não sei e em boa verdade também não interessa grandemente saber. Naturalmente, eu continuo a pensar que ele é um homem muito inteligente e que provavelmente continua a ser a pessoa mais indicada para o Ultramar. Mas não acredito em mais do que isso, pois infelizmente, tem-se visto demais sobre os homens públicos para se poder concluir que eles se interessam exclusivamente pelos seus pares. Daí que a inteligência quase nunca ande, neles, ligada à honestidade. Mas, verdade, também não sei em que medida e com que intensidade é que isso é, ou não, consequência inevitável das funções políticas.

domingo, 12 de junho de 2011

12 DE ABRIL 2010


NÃO!!
Não pode ser meu Deus. Não pode ser.
NÃO!!
Grito para ver se me ouves. Não pode ser verdade. Grito e não vejo nada.
Não pode ser meu Deus. Dele nunca falamos. Engraçado pensar nisso agora. Nunca tinha reparado. Eu que acredito Nele, que estudei sempre com Ele por perto e tu nunca me falaste Dele. Foi outra vez o ar que O trouxe à minha beira. O ar que tu sopraste para cobrir o meu ser da fé do amor. Porque Deus é amor.
E tu nunca me falaste Dele. Mas estavas na minha 1ª comunhão. Lembro-me bem. Eu de branco. Tu ao meu lado. Sem falar mas ao meu lado.
“Acredita se quiseres. Eu nunca vos vou dizer que sim. Ou que não. Não vale a pena. Têm que descobrir por vós. Só assim vão aprender. Têm que dar as vossas ‘turras’. Só assim vão aprender”
“E depois temos sempre o amor. O nosso amor”. Têm sempre Deus.
Engraçado que nunca falámos Nele.
São 14 meses de ausência, de falta, de saudade. Todos juntos. Hoje.

sábado, 11 de junho de 2011

NGONGO

é por ti que o sol morre de paixão
por ti é que a marimba e o quissange
vibram, e o negro poeta canta e tange
as fibras do seu próprio coração



por ti suspira a brisa, o vento range,
e a noite veste luto – cerração…
por ti é que há luas a solidão,
e o coqueiro da ilha geme e plange.



é por ti que o mar canta no seu pranto,
por ti é que o mar chora no seu canto.
e as ondas são batuques a cantar



e a chorar tua morte, ó ngongo, ngongo,
vítima heróica do primeiro dongo
que andou no mar e naufragou no mar!...


Geraldo da Bessa Victor, Poeta Angolano



sexta-feira, 10 de junho de 2011

CONCERTAÇÃO SOCIAL- UM POUCO DE HISTÓRIA (3)

Deve recordar-se que a criação de um Conselho de Concertação Social, fora oportunamente reivindicado pela UGT e que os dois partidos constituintes da coligação do Bloco Central, tinham igualmente, nos respectivos programas eleitorais de 1983, apresentado ao eleitorado o objectivo de institucionalizar um Conselho desta natureza.

Das eleições de 83 veio a resultar o chamado governo do bloco central, de coligação PS, PSD. Nas negociações políticas que precederam a constituição do Governo Mário Soares – Mota Pinto, chegou a subscrever-se um protocolo sectorial, chamado “documento Gonelha – Nascimento Rodrigues”, em que se firmava o compromisso de institucionalizar o Conselho de Concertação Social, no âmbito do qual se discutiria a indispensável revisão da legislação laboral.

E é com este governo (Março de 1984) que vem a ser criado pela primeira vez em Portugal, o Conselho Permanente de Concertação Social (CPCS).

Com a criação deste órgão consuma-se como que uma”revisão constitucional” do subsistema sindical, na medida em que pode ver-se nele uma opção pelo paradigma da concertação social contra a prática de antagonismo ideológico do modelo de “pluralismo conflitual”, sem dúvida preferido pela CGTP-IN. A crítica desta central à ideia de concertação social, e a sua recusa primitiva em tomar o seu lugar no Conselho Permanente da Concertação Social, como que contraprova o significado da criação deste órgão.

O chamado governo de bloco central veio a dissolver-se, e no âmbito do seu mandato governativo não chegou a celebrar-se um verdadeiro acordo social. Mas foi muito importante a discussão concertada sobre as linhas de fundo da recuperação económico-financeira do País e sobre alguns outros temas secundários. Estava aberta, assim, a via da macro-concertação social.

Brasil, Novembro de 1993

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CONCERTAÇÃO SOCIAL – UM POUCO DE HISTÓRIA (2)

O fenómeno da concertação social vai marcar, de uma forma decisiva, a segunda metade da década de 80 e vai mudar o paradigma do sub- sistema de relações industriais e, de certo modo, o próprio modelo político global português, não na sua expressão jurídico - institucional, mas na sua funcionalidade concreta.

As circunstâncias dessa época eram particularmente penosas, do ponto de vista económico, financeiro e social. No dealbar de 80, Portugal defrontava-se com uma situação de alarme, que exigia medidas de austeridade e saneamento económico-financeiro.

Para ilustrar a situação à data existente, recordo, que a taxa de inflação superava a barreira dos 30% ao ano, que o desemprego atingia níveis há muito não vistos no País (8,8%), que o fenómeno dos salários em atraso se generalizava em dezenas de empresas, sobretudo nos pólos industriais, e que, enfim, Portugal se via obrigado a negociar com o FMI um programa de saneamento e de estabilização económica.

Daí a necessidade sentida pelos partidos políticos da área governativa quanto a um entendimento com os sindicatos, e com as organizações patronais, por forma a garantir-se uma solidariedade que permitisse a eficácia política na governação e a estabilidade social.

Este objectivo só pode obter-se por negociações, nas quais os sindicatos que não se orientam por estratégias de mera oposição política também estão interessados, desde que se assegurem de que os sacrifícios aceites podem ser por si controlados e são socialmente preferíveis a outras alternativas.

Brasil, Novembro1993

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CONCERTAÇÃO SOCIAL- UM POUCO DE HISTÓRIA (1)

Só entenderemos o momento presente, se, soubermos um pouco de história. A concertação social faz parte da matriz ideológica e política do nosso Pai. Achamos, mais uma vez, que a leitura de alguns dos seus textos podem ajudar-nos a compreender, e, a aceitar os tempos que aí vêm.


"As relações de trabalho em Portugal têm passado por significativas alterações. A conquista e a gradual consolidação do regime democrático comportaram alterações radicais relativamente à situação anterior – desde logo e, marcadamente, nos planos da liberdade sindical e do direito à greve, na livre negociação colectiva e na participação dos trabalhadores e das suas estruturas representativas (isto é, as associações sindicais e as comissões de trabalhadores) na vida das empresas, dos sectores de actividade e no sistema económico e social em geral.

Imediatamente após a Revolução de Abril de 1974, a CGTP usurpou as estruturas sindicais criadas pelo regime anterior e exigiu e obteve do poder político a imposição legal da unicidade sindical.

No dobrar para a década de 80 tinha-se consumado o facto histórico da criação da União Geral dos Trabalhadores (UGT), central sindical fundamentalmente sustentada pelas correntes político – sindicais, socialista e social-democrata, mas igualmente apoiada por sindicalistas democrata -cristãos, e outros, de perfil independente.

Com isto terminava o período do monopólio sindical de facto da CGTP- Intersindical Nacional, Foi a célebre querela política e doutrinária da “unidade sindical” versus “unicidade sindical”, que constituiu um dos momentos históricos mais agudos do combate político cerrado que em Portugal se travou pela instauração da democracia.

No terreno, este monopólio foi sendo combatido pelos sindicalistas que não aceitavam a matriz ideológica e politico -sindical da CGTP-IN; e esse combate fez-se e foi ganho quer por eleições livres em sindicatos cujas direcções eram afectas à corrente intersindicalista, quer pela criação de novos sindicatos.

Este primeiro ciclo político sindical culmina, portanto, como já disse com a criação da confederação sindical democrática UGT.

A década de 80 abre, assim, com uma importante alternativa de programas e estratégias sindicais, a partir das quais se vai desenrolar um direito à diferença entre as duas centrais sindicais.

E daqui vão derivar fundas consequências para a matriz do sistema social português."

Brasil, Novembro de 1993