quarta-feira, 13 de julho de 2011

CONTO ANGOLANO (NOITE NO CHINGUE)

Em 1959 o Henrique levou este conto ao Concurso Literário da Queima das Fitas da Universidade do Porto. Utilizou um pseudónimo: “N’Gola”. Nunca foi publicado. Associamos um glossário para melhor compreensão do texto.O conto é longo. Por isso vamos editá-lo em dias diferentes, à semelhança do que fizemos em outras ocasiões. Boa leitura.

Glossário:

Aiué Tatué……….…………..interjeição que exprime alegria, contentamento; também dor,

espanto

Banza…………………………… povoação, aldeola.

Chingue………………………… cubata de teto afunilado

Châna……………………………. planície

Calcinha………………………… nome por que é conhecido o indígena destribalizado, com pretensões a civilizado

Canhangulo …………………..espingarda velha

Cazumbir………………………..alma do outro mundo; espírito dos mortos.

Dumba…………………………….Leão

Funge………………………………pirão de mandioca

Goma………………………………instrumento musical gentílico

Ginguba…………………………. amendoim

Libata……………………………..pequena povoação

Maboque………………………. laranja do mato

Matabicho………………………gratificação, gorjeta.

Marufo…………………….…………vinho de palmeira

Mutopa........................................cabaça de água, fornilho de barro, tubo de madeira onde se coloca tabaco ( ver imagem em cima)

Muâna……………………… ……….criança

Milonga…………………………….. questão sarilho

Monandongue…………………. filho menor, criança

Muxoxo…………………………… sinal de desprezo feito com os lábios

Meia ……………………………….. água

Mangonha……………………….preguiça

Muia Aquidonluque………… vai voltar

Muito esperto no cabeça… esperto, fino, sagaz.

Nhâma……………………………. carne

Ôbê…………………………………homem

Puto………………………………..Portugal, ( a Metrópole)

Quissange……………………… Instrumento musical para dedilhar. Quando sente tristeza ou solidão, o camponês angolano pega no seu quissange e dedilha-o cantando baixinho (imagem ao lado)

Tchigilo………………………….. porta

Tchingufo……………………… espécie de tambor

Tuqueia………………………… peixe miudo

Xingar…………………………… insultar, injuriar, arreliar

NOITE NO CHINGUE (1) - CONTO ANGOLANO

Buala Nambuco era o velho mais velho da senzala. Já tinha mesmo, perdido a conta das luas corridas desde o dia em que, muâna, fora com seus irmãos de raça cumprir o rito da circuncisão. Ficara homem. E, de então até quando topara caruncho nos vimes das pernas, Buala Nambuco – ora pois! – vivera coisas invulgares e carreara aventuras de arrepiar .

Era do tempo em que os bichos comiam os homens e os pretos andavam em guerra com os brancos vindos de longe. Ah, sim! Buala Nambuco era um velho que tinha “muito esperto mesmo no cabeça”. Uma vez, ainda seus braços eram tão fortes que podiam suster-se noites a fio de azagaia tensa, ele lobrigara sozinho, na quebra da picada, com dois foliões, useiros na roubalheira das peças caçadas. Viu-lhes, num lance, os olhos a piscarem de cobiça para o corpo da gazela que lhe bamboleava aos ombros.

Fizeram-lhe alto, os outros, a três passos de distância. Mas Buala Nambuco nem pinga de medo. Rápido, parou. E, num berro sonoro, virou-se para trás a chamar: “ Ei, gente, porrinho em cima destes”- e chamou e chamou sempre a rir até que os foliões, zás-trás pernas para que vos quero! Buala- Nambuco ficou-se a dançar de tamanho gozo. E sempre assim foi, tão esperto como o coelho das hortas que papa as couves sob as pernas dos granjeiros.

Agora – que pena – Buala Nambuco já não pode andar ao cheiro da caça, ou requebrar o corpo ao som da batucada. Cobriu-se-lhe a cara de um manto de rugas e na carapinha rala já se encaracolam pontos brancos ao desafio. Só os olhos, uns olhitos vivos que luzem no negrume da pele, mostram ao povo ter ele ainda “muito esperto no cabeça”.

Na senzala, ele vive sob a chota mais chegada à riba esquerda. É uma palhota igual às outras, talvez mais acanhado o tchigilo que leva ao centro do braseiro, onde aquece, solitário a ferrugem dos seus membros. Aí pela nortada das noites frias, Buala Nambuco desafia, ao correr das horas, o ror de histórias aprendidas no curso de seus anos velhos. Mal mãe Nhirica lhe vem entregar o último naco de funge, atirado com os dedos garganta abaixo, Buala Nambuco – laripó! – dá um estalinho com a língua e arreia um muxoxo de prazer à velha amiga que lhe embala o pirão. “ Mâma Nhirica, não me dá ainda minha mutopa”- e barriga farta o riso alargando os beiços, Buala Nambuco cruza as pernas mesmo ao viés do fogaréu e assim se deixa modorrento, até sentir o soprar da ventania ao derredor. Na banza luena já o povo gastou o dia. Um a um vêm então chegando-se à cubata do velho Nambuco, que a noitada treme de frio e corta aos homens o gosto das lengalengas a pingar sob os negrumes cálidos. “Como estás, oh Buala Nambuco”;” Boa Noite mãe Nhirica” e torno aos brasidos cada um fura seu poiso, enquanto o cachimbo de água, glu-glu chiando vai de boca em boca e anda de mão em mão. Em Buala Nambuco espreita um risinho de velho sabido. Que ele já sabe ao que o povo vem. Ai sabe, sabe! Mas gosta de desentender, indagando daqui e dali, primeiro, as novas do mundo que lhe fica além da sua cubata. Por isso a conversa arrasta-se, descontínua.

terça-feira, 12 de julho de 2011

ESPECIALISTA EM MARCAS

Faz hoje 15 meses que ele partiu. O texto que o nosso filho Nuno escreveu nesse dia diz tudo. As marcas que deixou na sua família são tão fundas, que o pai continua presente em todos os momentos da nossa vida. Não há distância nem esquecimento. Só memoria viva.

“ Não… Desculpe mas não me lembro de si”.

“Trabalhei com o seu pai”. “Era amigo do seu pai”. “Estive na Provedoria com o seu pai”. “Sou um cidadão anónimo e não conhecia o seu pai…”

A fila de pessoas vai para lá das paredes frias e eu sorrio. Como tu farias certamente. Com a sedução de quem não está. Sorrio mas o meu coração chora. Sorrio pelas marcas que deixaste em tanta gente. Os que fazem fila aqui na igreja e os que nem fazem ideia de que foram marcados por ti.

Pelas marcas que deixaste no País. Marcas à esquerda e à direita. Como se as marcas tivessem direcção que não as de apontar o caminho certo. E como tu sabias que o caminho pode ter várias direcções. Mas só um sentido.

O da Justiça e do amor.

O do trabalho e da família.

Sabes que eu digo que trabalho em “Marcas”. As outras. Mas tu é que eras um especialista. A fila ao longo das paredes frias sabe bem o que são as tuas marcas

As marcas estão cá. A dor que sinto no meu coração é o sentir dessas marcas. Afinal o sentido é só um: marcar o teu próximo. Com amor. Com verdade. Com dedicação.

Deixa marca. Nesta fila. E nas outras que desembocam dela.

Deixa marca. Sonha muito e vive ainda mais. Deixa marca. Eu sei que deixa. Cravada no mais fundo do meu ser. Deixa marca. E por isso dói. Deixa marca. E por isso vivo.

domingo, 10 de julho de 2011

FÉRIAS EM SÁ DA BANDEIRA (1961)

Cheguei hoje. A minha viagem não teve história – foi banal e normal. Apenas não avisei os meus pais da data certa em que chegaria e, por isso, fiz-lhes a surpresa de aparecer repentinamente em casa!

É terrivelmente estranho, mas não me sinto feliz. Pelo contrário, é uma grande tristeza e uma grande saudade o que me vai cá dentro. A nossa Angola está ferida. E eu também é como se tivesse sido ferido com ela. Sou extremamente sensível para encarar as coisas de frente, com objectividade.

Não. Eu não nasci para matar, eu não nasci para ver o mundo em guerra, eu não nasci para uma época como a que atravessamos. Eu não posso pensar que este sossego de Sá da Bandeira pode ser o prenúncio de tempestade; eu não posso saber que estas ruas desertas representam o medo dos homens brancos; eu nunca sonhei que tivesse de dormir com as janelas e as portas fechadas e que à minha mesa de cabeceira estivesse uma pistola para o que desse e viesse. Tudo isto me entristece profundamente.

Que mal teríamos feito nós, os homens brancos, para sofrermos este castigo? O medo, a ânsia, a dúvida, são os piores sentimentos que podem pairar no coração dos homens. E nós, por muito que se diga o contrário, vivemos hoje dentro do medo e da expectativa pelo futuro. O futuro… nunca ele foi uma incógnita tão grande.

Sinto dentro de mim a imensidão de Angola e a pequenez do homem branco e a desconfiança com que nos olha o negro. E é isto modo de viver? Onde está a nossa Angola? Onde está a nossa querida terra, aquela que nos habituamos a ver na paz e no amor? Procuro-a e não a encontro. Porque o silêncio que outrora era paz, agora é expectativa; porque a paz que outrora era tranquilidade agora é medo; porque as portas já não estão abertas, as ruas estão desertas e nunca se sabe o que se esconde na periferia da cidade.

Nós confiamos num futuro melhor. Nós temos esperança em dias melhores. O que me custa, o que me dói, é não ter encontrado a minha Angola. Não acredito que tenham sido os homens da nossa terra que a fizeram sangrar assim. Não pode ser. A coisa vem de fora, vem da luta que o mundo trava. Ninguém sabe para onde vai o mundo, e porque não há paz, nem felicidade, nem alegria é que eu sinto toda esta tristeza imensa.

Sá da Bandeira 4 de Agosto de 1961

sábado, 9 de julho de 2011

FÉRIAS EM SÁ DA BANDEIRA (1960)

Hoje choveu. Não calculas a satisfação que tive em olhar a chuva. É das coisas mais belas a que se pode assistir. Primeiro, a chuva a cair e, depois, aquele odor profundo que se desprende da terra. É um cheiro de vida, qualquer coisa de forte, de formidável, que os homens nunca conseguirão destruir. Enche-nos o corpo, dá-nos vitalidade, faz-nos sentir homens.

Não sei que estranho sortilégio a Terra exerce sobre mim desde pequeno. A verdade é que não me consigo ver com uma enxada nas mãos ou a dirigir uma herdade – mas eu amo a terra como se ela fizesse parte de mim próprio.

Não sei explicar, mas não posso desligar o meu futuro, a minha vida, desta terra. Mas não quero pensar, porque se começo a pensar vêm-me à ideia as dezenas de problemas que Angola atravessa. Somos 200.000 brancos, cerca de 4,5 milhões de pretos, temos a opinião mundial contra nós, a população metropolitana está contra o Governo e é o Governo que apoia o Ultramar – logo, não podemos contar com ela; aqui reina o desemprego em muito sítio, a situação económica é má, nós próprios Angolanos, não estamos unidos na maneira de pensar – que milagre nos salvará? Que milagre nos fará atravessar esta tormenta toda? Não sei é preciso não sonhar, estar atento às realidades e, sobretudo, ser implacável, inflexível, na luta que houver de travar. Não podemos ter um momento de fraqueza ou de desânimo, pois cada fraqueza, cada desânimo, pagá-la-emos bem cara.

Como queres que eu não receie ter de dormir com uma arma ao lado, como no Quénia, ter de escoltar os meus filhos à escola como na Argélia? Será isto que os homens procuram? Será isto o Mundo? Felizes os que não pensam, os que não lêem, os que não meditam! Felizes deles porque, se a hora chegar, não terão tempo sequer de saber que ela chegou! Fico a pensar que, com 20 anos, não há direito que Deus me ponha a cabeça cheia de preocupações. Que ele me perdoe, mas também tenho direito a gozar a bem aventurança dos burgueses!

Queria não pensar em tudo isto, pensar que a vida se resume a tirar um curso e singrar, casar, ter filhos… E a terra, depois? E a chuva? Poderemos nós, daqui a anos, ver cair a chuva da varanda da nossa casa? Ou estaremos então a ser escorraçados da nossa própria terra, em nome da emancipação dos povos? O mundo anda doido, de certeza! Pois vê só: para o Congo se tornar independente, os homens proclamaram solenemente o “sagrado direito à emancipação”; mas quando Katanga, quando a Hungria ou a Roménia, querem o mesmo – ah, não, aí já não há nenhum sagrado direito!... É contra a loucura deste mundo que temos que lutar – pobre destino o nosso!

Sá da Bandeira 20 de Setembro 1960

quinta-feira, 7 de julho de 2011

GENEBRA 1992


1992. Conferencia Internacional do Trabalho, Genebra

NOTAS POLÍTICAS (86)

Temos que compreender que os apoios financeiros da Comunidade, são apenas uma, e só uma, das condições para o Progresso e para a Justiça no nosso País.

Disse (e sublinho) uma das condições. Jamais os fundos comunitários serão uma solução. Porque a solução para o nosso desenvolvimento tem de ser essencialmente, endógena.

Este enorme desafio não impende apenas sobre o Governo e as forças políticas do nosso País. É preciso ir mais além.

É preciso que a nossa sociedade civil seja cada vez mais chamada a discutir opções, cada vez mais envolvida e participante nas estratégias de desenvolvimento, cada vez mais actuante como tecido de irrigação de um progresso em harmonia.

Lisboa 5 de Fevereiro 1993