sexta-feira, 22 de julho de 2011

FÉRIAS DE VERÃO

Ao longo deste ano fomos dando a conhecer passos da adolescência, e início da vida adulta do nosso Ouvidor do Kimbo.

Nessa altura, era o Henrique, cheio de ambições, de vontade de agarrar a vida com as mãos, de ter um futuro brilhante. Saiu de Angola em 1957, rumo a Lisboa, rumo à faculdade de Direito.

Já vimos que, as dificuldades de adaptação foram muitas, e imensas as saudades da sua terra Natal.

Voltou a Angola em 1959, 1960, 1961, para passar as férias de Verão, mas sempre com o problema dos exames em Outubro. Havia a necessidade de conciliar estudo e lazer, o que não era fácil.

Em 1962 passa férias em Valença do Minho, como já tivemos ocasião de dizer, mas em 1963 vai, durante o Verão, para Cabo Verde.

Voltámos a Angola em Agosto 1966 para umas curtas férias. De novo, juntos, quarenta anos depois em Setembro 2006.

São algumas lembranças, pequenas estórias, desabafos desses momentos de reencontro com a sua Mãe África, que neste Verão, da sua casa da Takula, deixaremos escritos no Blogue que criou

quinta-feira, 21 de julho de 2011

NOTAS POLÍTICAS (87)

Enganam-se aqueles que encaram a função consultiva como pouco relevante ou potenciadora de fracos resultados.

Pelo contrário, penso e defendo que a existência de órgãos consultivos, em que têm assento representantes dos mais diversos sectores da vida económica e social, é uma demonstração palpável de que a democracia representativa e pluralista se enriquece e aprofunda através da participação institucional dos agentes colectivos da sociedade civil.

A função consultiva implica, também, que o Governo, mais do que ouvir, escute; para além de consultar, pondere; ademais de estar, compartilhe. Se assim não fosse a função consultiva poderia esvair-se num ritual vazio e formalista e, seria então, transfiguradora da ética da participação

terça-feira, 19 de julho de 2011

FOI HÁ UM ANO

Foi há um ano que confessamos, que, o processo de adopção deste blogue tinha sido longo, doloroso e difícil. Desde então, tentamos transmitir, através das palavras do Henrique, as memórias de um passado pessoal onde se evidência, a persistente construção de um ideal de vida; de uma lenta, progressiva e trabalhosa conquista do um lugar ao sol; de uma vida feliz, onde todos os seus sonhos fossem concretizados. O único sonho de que abdicou foi o de viver em Angola. E dele abdicou em função da família que queria constituir, da estabilidade que pretendia proporcionar-lhe, e, do amor que tinha a Portugal. Nunca se arrependeu. Ficaram as saudades dos tempos, em que “menino e moço” sonhava com um Portugal maior, com uma Angola independente onde todos os Angolanos tivessem o mesmo direito de dizer: esta é a minha terra, foi aqui que eu nasci, foi aqui que os meus pais construíram a sua casa. É aqui que estão as minhas raízes. Quero trabalhar aqui. Quero contribuir para o engrandecimento desta Angola, minha terra!

O sonho da família foi superior ao outro sonho. Dele abdicou sem mágoas. Ficou a saudade. Expressa em todas as páginas deste Blogue.

Durante este ano, ficou evidente que, o Homem que todos conhecemos, tinha uma personalidade de firmeza, fé, atitude, princípios e coerência invulgares. Mais, que tudo isso tinha sido caldeado numa infância, adolescência e juventude também particularmente invulgares.

Mesmo os seus textos profissionais estão marcados pelo ideal de uma vida sonhada desde a infância.

Que os netos retenham a imagem real deste Homem, que foi o Avô, de quem todos têm imensas saudades, mas cujo exemplo será o farol das suas vidas

De novo, na casa da TaKula, a família vive a sua memória.

domingo, 17 de julho de 2011

NOITE NO CHINGUE (5)

Depois molhando os lábios acrescentou:

- Compadeceu-se então Líbua, a filha do soba, e em voz baixa fez-lhe um convite:

-“Vem comigo, oh mâma, que eu te oferecerei de comer e te darei de beber. Anda vem!”- e pegou-lhe na mão e conduziu-a à sua cubata. Aí, Nha Caçola – ouvis! - encheu a barriga até se fartar e bebeu de “meia” que ficou como uma bola. Saciada assim, acocorou-se a pensar, a pensar, a sua fala roufenha acabou por encher o silêncio em que estavam as duas.

-“Ouve, Líbua- começou a velha – antes que um novo sol tenha nascido no céu, será esta terra coberta por tanta água, tanta água que não haverá feitiço capaz de bebê-la. Ficará aqui um lago, Líbua, um lago belo, cuja história os negros hão - de contar quando os anos forem velhas. Mas tu foge, Líbua, foge antes que a ira dos deuses desça à terra.”

- e dito isto em tom rápido, Nha Caçola despediu-se e desandou.

-E depois, oh Buala, e depois?

-Esperai, gentes, que eu já vos digo.

Ficaram quietos, aguardando. Leve, porém, a voz do contador se elevou acima da canção do quissanje:

- Veio a noite sobre a banza de Iunculo- Mbebe. Os homens, cansados, estenderam-se sobre as esteiras, junto aos tchingilos, e ficaram-se, sonolentos, a mirar os longes sem viração da terra. Nem um sopro de vento açoitava o ar, oh gentes, e na châna rasa não bulia ruído. Tudo quieto – percebeis - quando num repente, - seria o Cazumbir, oh gentes?

Os homens ergueram-se de um salto, as mulheres pararam de mexer a comida e as crianças correram a agarrar-se às pernas das mães. Uma voz mais retumbante que o rugir do dumba pusera o povo de corpo tremente.

- Mais forte que a voz do dumba, Buala Nambuco?

-Sim, sim, gentes, muito mais forte.

E de quem era?

-De Nha Caçola, a chamar por Calunga – e Buala Nambuco pôs-se de pé, agitou os braços e imitou:

-Calunga! Calunga! Tu, senhor dos céus e deus sobre os deuses, manda teu feitiço infernal para castigar o povo de Iunculo- Mbebe . Um povo rico, oh grande Calunga, que nem me apresentou uma mão de funge, nem um resto de água. Calunga! Calunga! Arrasa esta terra farta e sepulta os seus homens maus – e o quissange do velho Nambuco gemeu, logo, sob os dedos ágeis que o apalpavam. Notas vigorosas rebentaram. E o povo, de olhos abertos, escutou ainda:

Foi uma grande desgraça, oh gentes. Líbua salvou-se, mas nenhum homem mais escapou à ira dos deuses. Nenhum homem. Os ares encheram-se de fogo e a terra chupou água, chupou água, tanta chupou que a terra se ficou em água. Alagaram-se os campos e morreram as gingubas. Caíram as árvores e as pedras sumiram-se afundadas. Pôs-se o céu escuro de dia e de noite vermelho. Até que quando os trovões já iam longe, um lago grande, de águas azuis surgiu no lugar da antiga libata de Iunculo- Mbebe.

- O Lago do Feitiço!

Sim gentes, o Lago do Feitiço!

- Aiué, tatué!

- Aiué…é…é…é…

Enche-se o ar da cubata de um rumor de palmas e gargalhadas. Ninguém pensa já na volta de Tala Mutebe, nem nas angústias do povo. Agora os rostos luzem e os olhos estão abertos, mais abertos a cada vez que o marufo se espicha pelas goelas. Lá fora, um cão furou o profundo silencio da noite. A lua, da cor do milho assado, espreitou pela janela de uma nuvem e cobriu a banza de um manto prateado. Depois, outra nuvem veio, que tapou a lua. Na cubata de Buala Nambuco, os pretos sonham. E o vento do mato anda por ali a macaquear, enchendo a alma do negro de medos e fantasias, fantasias e medos que hão-de passar de geração em geração, porque pobre é o povo sem histórias que contar e que sonhar…

FIM

sábado, 16 de julho de 2011

NOITE NO CHINGUE (4)

- Nha Caçola - atentai, pois – palmilhava a terra há tanto tempo, que seus pés estavam gretados de tanto andamento. Descera ao mundo num raio de sol, trazendo de Calunga, senhor dos Deuses, os estranhos feitiços e as suas ordens. “Nha Caçola – disse-lhe decerto o grande Calunga-; vai lá abaixo e cruza as anharas. Entra nos bosques e sobe os riachos, fareja as senzalas e dormita nos chingues. Hás-de ver, por minha conta, quais os homens que são bons e os que são maus. Os primeiros – eu te ordeno, oh Nha Caçola cobre-os de honra e dá-lhes venturas; aos outros – nunca te esqueças – manda-lhes o vento e o trovão, a chuva e a lama, todos os males que tu entenderes”. Assim, gentes deve ter conversado Calunga com a mensageira do céu – e Buala Nambuco dedilha umas notas mais do seu quissange. Mal respirando, os negros fitam-no sem pestanejo, grossas argolas de fumo a fugirem da mutopa para o tecto.

- Deambulou Nha Caçola pela terra anos a fio. De libata a libata, de povo em povo, conheceu as coisas do mundo e de tudo tomou nota. Até que uma tarde, longo caminho deixado às costas, chegou ela à chana mais vasta que seus olhos já tinham topado. Ih, gentes, que terra tão farta! Sabeis do gado de Samba Muquilo, que enche as planícies de todo o Cunene?

- Oh, sim, sabemos! - responderam-lhe os outros.

-Pois havia lá mais bois que os bois juntos de Samba Muquilo! - estica os braços o velho, como a abarcar com eles a imensidão. E prossegue:

-Do cimo de uma lombada, ficou-lhe Nha Caçola contente por ver o povo em faina aturada.

Mas, com tão pesado caminhar nas pernas, vá de sentir pelas entranhas uma fome glutona e na boca a secura da sede. “Me hão-de dar um naco de funge para matar o bicho e uma cabaça de água para molhar a saliva”- e pensando assim, foi costa abaixo, rumo à banca de Iunculo-Mbebe, o soba da terra. Andrajosa e cansada, chegou-se então Nha Caçola ao meio das gentes e pediu agasalho, por caridade:

- “Oh boa gente desta terra rica, quem dá um pouquinho de funge a uma velha faminta?” – Mas os homens - quereis ver – encolheram os ombros, de altivos. Cuspiram no chão e tornaram ao trabalho sem se deterem. Nha Caçola ficou confusa. Lhe repetiu:

- “Oh boa gente desta terra rica, quem dá um resto de água a uma velha sedenta?”- Por sua vez, pararam as mulheres de sachar as lavras e olharam a mendiga da carapinha aos pés.

Então um chorrilho de risadas estoirou, pelo burlesco da figura dela. “ Que feia! Que velha! Tão rota!”- e as mulheres voltaram a semear os valados.

- Foi repelida assim – ficai sabendo, oh gentes – a velha Nha Caçola, serva de Calunga – e pediu Buala Nambuco uma golada de marufo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

POR ISSO ESCREVO


Tenho que respirar

para viver.

Por isso choro,

A mágoa deste amor

perdido.

Tenho que lembrar

para viver.

Por isso choro,

o sonho deste amor

esquecido.

Tenho que amar

para viver.

Por isso choro

esta enorme, imensa dor

que não faz

sentido.

Tenho que chorar

para viver.

Por isso escrevo.


NOITE NO CHINGUE (3)

A nudez dos rostos acentua-se. Há caras marcadas por um ricto de angústia. E expressões de tristeza, de cansaço, conformadas, sem revolta. Sombras esgueiram-se de encontro às paredes do Chingue. Então Buala Nambuco gagueja comovido:

- Mâma… não chore assim. Nossa terra é nossa terra, você não sabe? E nossa terra é boa, mãma Nhirica. Tala Mutebe há-de vir amanhã com nhâma para todos. Olhe sô mâma Nhirica:

não vê a lua escondida e o mato quieto? O vento sem asas e a noite escura? Anda caça no capim verde dos carreiros. E Tala Mutebe, quando chegar, ouvirá as gomas e os tchingufos anunciarem a festa do nosso batuque. Ai, mâma Nhirica, a nossa terra é boa ainda - sorri melancólico, enquanto a velha se fica enxugando o pranto ao sêbo da tanga.

- Tala Mutebe muala aquindoluque… - repetem os outros a voz sumindo-se, não vão os espíritos entender o desejo das gentes e o grande Zambi desfazer de um sopro a esperança ao povo. - Tala Mutebe há-de voltar… - como que a rezar, cabeça baixa, olho espantado, beiçana estendida…

-Ei gentes, querem saber uma história? Uma história velha, velha como a manha do coelho? – Buala Nambuco pula a custo do chão espalmado da cubata, vai ao fundo do chingue e, em passadinha de pardal, de lá torna, acariciando na mão escura o quissange com que acompanha as arengas longas das noites maduras. Pernas cruzadas, seus dedos esguios percorrem com vagar as tiras metálicas do instrumento. Formando círculo, os pretos chegam-se uns aos outros mais e mais. Mãe Nhirica parou de chorar e ficou agachada ao pé das panelas, enquanto as mãos chocando-se, começam o ritmo triste. Depois, tudo fica em silêncio.

-Foi na lua mais velha – escutai então, oh gentes – quando um povo vivia, rico e farto, nas terras que ficam agora sob o Lago do Feitiço. Farto e rico – ouvi bem – como outro não houve dez tiros de canhangulo à roda – as notas do quissange sobem, envergonhadas, primeiro, rápidas e fortes com o avolumar das palmas. Buala Nambuco ergue o rosto. E volta à baila, atento o povo:

- É uma história de barbas, oh homens! Veio da barriga dos séculos, tantas chuvas já caidas sobre ela que o mundo seria um grande mar se lhe quisesse saber os anos. Contou-me R’hicuje, o andarilho do quissange mágico; e a boca dos batedores dos matos carregou-a pelas veredas da selva e as canções dos dongueiros deixaram-na correr ao longo dos rios. Vou contá-la também, vós o quereis?

Heuá, heuá, velho Nambuco conta lá.