sábado, 13 de agosto de 2011

ANGOLA É NOSSA

LUBANGO- SENHORA DO MONTE

Fui com a minha mãe à procissão. Fomos a pé até à Senhora do Monte. Estava bastante calor e era um grande estirão, não obstante só nos termos incorporado em frente da nossa casa, ou seja, ao pé da Pousada Turismo. Gostei imenso da procissão, sobretudo pelo significado que revestia, e que era o de se pedir à Virgem a paz para Angola. Quando chegamos lá acima à capelinha, tocaram a marcha “ Angola é Nossa”; vieram-me as lágrimas aos olhos, porque na procissão íamos pretos e brancos e mestiços e tudo em redor em paz; lembrei-me do Norte… lembrei-me do futuro… e senti tanto como o mundo por vezes é ruim. Porquê em Angola toda não havia a mesma paz? Não, não há.

Pelo contrário, as perspectivas, são más. Outro dia foi assassinada na Humpata uma senhora branca; ontem foi morto um contínuo preto das O.P. e que nos era fiel. Serão indícios? Na Rodésia do Norte, com já deves ter ouvido nos noticiários, eclodiu também uma onda de terrorismo e nós temos fronteiras com ela… No dia em que essa fronteira for violada não sei o que poderá suceder. Por seu turno a Niassalandia quer separar-se da Federação das Rodésias e constituir-se em país de negros exclusivamente. Ora a Niassalandia entra como uma flecha pelo território de Moçambique. Seja como for, cada um tem de empregar todas as suas forças no seu trabalho. Nós no estudo, os soldados na luta os operários no trabalho – todos têm que cumprir.

Sá da Bandeira 13 de Agosto 1961

Imagem- Lubango, Raparigas com flores

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

SETE CHAVES GUARDADAS

8h40minutos. São 16 meses hoje. Meses, dias, horas sempre iguais. Incredulidade e surpresa em cada nascer do dia. Espanto em cada momento, saudade, que se concretiza em permanência com o correr do tempo. Ausência, neste enorme hiato entre o passado e o presente. Hoje, e, há 16 meses, a espera do reencontro!

Procuro-te;

Estou sozinha neste caos instalado à minha volta.

Caos de alma,

de sentidos, emoções, recordações, doutro tempo,

doutro espaço.

Vivido, sentido, sonhado, lembrado

e guardado,

como um tesouro, que fechei a sete chaves lançadas

no infinito

do meu ser, do meu querer, e, do meu crer.

Sinto-te;

Agora, só me acompanha a saudade das gaivotas

ao por do sol.

Da lua cheia e das estrelas que brilham nesta varanda onde vivias

teus sonhos.

Por mim sentidos, vividos, sonhados, guardados, contigo.

Podes vir.

Retomaremos a nossa infância e adolescência, o nosso amor

Vivido.

Lembrado, sentido, sonhado, mantido, transmitido,

Legado.

E as sete chaves guardadas, lançadas

na eternidade.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

HUMPATA, TCHIVINGUIRO E BRUCO.

Fui passar o fim de semana a uma fazenda que uns amigos têm a cerca de 80 km daqui, no sopé da Chela, mas do lado de lá. Saímos à tarde e lá fomos pela Humpata, Tchivinguiro e Bruco. O Bruco é das coisas mais espantosas que tenho visto em Angola. Não há palavras para descrever aqueles precipícios, aquelas serras, aquela vegetação toda! Muitíssimo superior à Tundavala. Mas sem comparação! É qualquer coisa de primitivo, de bruto mas ao mesmo tempo portentoso. Basta dizer que atravessar o Bruco só de jipe e com reforço. De outro modo é impossível. Vale a pena o sacrifício e o perigo daquele caminho cavado positivamente na rocha para ver uma das paisagens mais deslumbrantes que se pode olhar. O Bruco merecia ser conhecido por todo o mundo e não ficaria nada a dever aos “Canyons” dos E.U.A. Tanto à ida como à volta não pude filmar bem, pois já era ao entardecer, mas talvez lá voltemos um destes fins de semana e então filmarei melhor. Passado que foi o Bruco andamos mais uns km até chegarmos à fazenda. Também gostei mais deste tipo de fazenda do que das fazenda do Norte. Talvez porque agora se dá mais valor à terra e aos seus recantos de paz e tranquilidade; talvez porque a paisagem seja de facto mais bonita do que a do Norte – o certo é que me senti imensamente feliz por me proporcionarem este passeio. Assim que chegamos fomos para a varanda da casa, estiraçamo-nos em cadeiras de baloiço e, com uma cerveja na mão e o rádio a tocar baixinho, ali ficamos a apreciar as serras que circundam a fazenda e a ver o luar a despontar. É lindíssimo.

Havia paz, silêncio, beleza. Há muito tempo que não sentia esta Angola, há muito tempo que não encontrava nada de parecido. Nem nos mexemos das cadeiras! Para quê? Momentos assim são raros. Uma grande varanda, um silêncio quase absoluto, um luar deslumbrante e as montanhas ao longe! Sobre tudo a tranquilidade, o cantar dos grilos, os pequenos ruídos do mato. Enfim, acabamos por ter de ir jantar e foi lautamente – o velho churrasco com batatas fritas! Depois, demos uma batida pelo mato à procura de caça. Não atirei. Também não tive pena, porque com aquele luar enorme, a caça avistava-nos de longe e fugia.

Sá da Bandeira 27 de Agosto 1961

Imagem -Mulher da Humpata

terça-feira, 9 de agosto de 2011

UM DOMINGO IGUAL AOS OUTROS

Hoje é Domingo e foi aqui um Domingo igual aos outros. Acabei de dar a crónica voltinha de carro. Subimos a rampa até quase à capela da Nossa Senhora do Monte. É a primeira vez que vejo Sá da Bandeira à noite iluminada. É realmente bonita, vista assim. Parece maior e deve ser uma das cidades mais bem iluminadas de Angola. Quando rebentaram os acontecimentos no Norte, o Governador decidiu iluminar os arredores da cidade. Ficou assim beneficiada a terra, quer sob o ponto de vista estratégico, quer estético. Como vês as notícias são poucas. Passo o dia a estudar e a ler. Assisti a um colóquio sobre problemas ultramarinos e também a uma conferência do Paulo Cunha.

Ao ouvi-lo tive vergonha de saber tão pouco sobre os assuntos que dizem respeito a Angola, tive vergonha de estudar tão pouco, não só Direito, mas tudo, tudo, porque se Deus nos deu qualidades, é um crime desaproveitá-las.

Gostava de ser mais estudioso, mais culto, mais… sei lá, o que sei é que tenho de trabalhar, imenso para ser alguém.

Comecei a trabalhar num ensaio. A minha tese é provar com argumentos sérios e não apenas sentimentais, que os negros não são autóctones de África, mas, sim, invasores, tal como os brancos, portanto. Nesta medida, não é legítimo que a África seja só para os negros.

Falei com o nosso antigo professor de História sobre isto e ele concordou inteiramente comigo e ficou todo entusiasmado com a ideia. Emprestou-me uma série de livros, (em francês), sobre a pré – história de África, que me vão dar muito trabalho para os ler, mas eu gostava de fazer um trabalho bem documentado. Não achas que a tese é aliciante?

Sá da Bandeira 23 de Agosto 1961

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VALORIZAÇÃO DOS RECURSOS HUMANOS

A valorização dos recursos humanos não se “decreta”, embora os decretos tenham uma função importante na definição das políticas e dos programas de acção da Administração Pública, enquanto estimulantes de uma iniciativa privada sadia.

A valorização dos recursos humanos não se “compra”, embora o dinheiro tenha uma função capacitadora e organizadora dos meios necessários à execução dos programas de acção.

A valorização dos recursos humanos não se respira, não se ingere, não se injecta, embora o ambiente, as condições em que é vivida, sejam determinantes dos seus resultados e da extensão social que a envolve.

Ainda por cima, este ambiente, estas condições favoráveis, não são geriveis tecnocraticamente, como se se tratasse de um fenómeno físico-químico.

A valorização dos recursos humanos compromete cada cidadão em função do futuro que quer para si e para o País. Todos somos chamados a melhorar o nosso saber, saber - fazer e estar, para participarmos na sociedade com a qualidade que nós próprios devemos exigir e nos é também exigível.

Lisboa, 15 de Março de 1995

domingo, 7 de agosto de 2011

METÁFORA DE SOLIDÃO


Minha saudade
infinita,
Minha dor
sem solução,
abraça teu corpo
inteiro,
envolve-o
na multidão.
O vento
sopra baixinho,
mas parece
um vendaval.
trás um perfume
de sombras,
e, lança-o no areal.
A lua,
em quarto crescente,
ao olhar-me
com pudor,
pergunta a todo o instante
onde está
o teu amor?
Resposta,
essa,
não sei;
Lubango?
Quitexe?
Benguela ?
Luanda?
ou talvez não!
Pergunto à estrela que passa,
Onde?
meu corpo de sombras?
E a brisa
que o vento trás
diz à minha solidão:
Eu transporto o seu perfume;
vais rever
seu coração.!