domingo, 16 de outubro de 2011

SAUDADES DO PAI (1)

Publicado no Jornal "A Capital" em 23 de Fevereiro de 1983

BUBAQUE – ARQUIPELAGO DOS BIJAGÓS

Fui a Bubaque este fim de semana. É uma ilha paradisíaca, mas onde só se pode tomar banho, pois não há mais nada. O mar é um verdadeiro “caldo”, mais quente do que cá fora. A ilha é luxuriante, mas faz muito calor e não há ar condicionado.

Agora estou instalado numa moradia muito boa, tem ar condicionado e frigorífico, mas é enorme para uma pessoa só. Vem cá a mulher da limpeza quando saio para o Ministério e estão a ver se me arranjam uma lavadeira

Continuam a ser muito simpáticos e correctos e sinto-me bem. O pior são as “horas mortas”, ou seja, depois das 6h da tarde. Não se pode trabalhar a seguir ao almoço de modo que durmo um pouco e à noite só consigo adormecer depois da meia-noite. Não me tem apetecido ler ou estudar e, por isso, estas horas têm sido aborrecidas. A falta de companhia é o pior.

Aqui como calculas falta tudo o que é mais elementar. Do que mais sinto falta é do café, não há em sítio algum. Hoje nem nescafé havia como tem acontecido a maior parte dos dias. O almoço e o jantar comem-se razoavelmente, mas não como hortaliças ( aliás, praticamente só servem pepino, de que eu não gosto) o pequeno almoço é péssimo.

Sinto-me óptimo de saúde e não tenho apanhado sol, enfim é uma vida tranquila. Demasiadamente tranquila para os meus hábitos. Às vezes vou dar uma volta pelas “tabancas” com o Mário ( o meu “oficial de diligencias do protocolo”), outras, como hoje, procuro os mercadores de marfim da Côte d’Ivoire. O artesanato local é paupérrimo, as únicas coisas de jeito vêm do Senegal ou da Costa do Marfim. A única coisa que até agora decidi comprar foram quadros a óleo de um pintor local.

Bissau 3 de Outubro 1983

O quadro é de Gui Tavares -1983 Republica da Guiné Bissau

sábado, 15 de outubro de 2011

FARIM, 24 DE SETEMBRO

Hoje tive um dia muito cheio (sobretudo, entrevistas) até á hora de jantar. Depois houve uma destas habituais interrupções de energia eléctrica, que só foi retomada agora, 11.30.

Tudo tem excedido as minhas expectativas. A maneira como tenho sido recebido e me têm tratado é extraordinária. Continuo com o Mercedes e motorista sempre às ordens bem como o “oficial do protocolo”. Mas, para além de tudo sensibilizou-me muito o que se passou no dia 24, Dia da Independência. Fui até Farim e, aí assisti a um comício do PAIGC comemorativo da data. Era o único branco presente… e ainda por cima português.

Anunciaram ao povo quem eu era (fiquei na mesa de honra) e aplaudiram. Houve ataques à guerra colonial ao colonialismo, mas distinguiram sempre o Povo Português. Não há ódio nem feridas e o português é querido.

Isto é extraordinário e para mim, nesse dia, no contexto concreto que vivi, devo dizer que foi dos momentos que recordarei para toda a vida.

Mas houve mais. Regressamos a Bissau por volta das 16.30 e às 18 estava convidado para o Cocktail que o Presidente da República oferecia.

No Salão, protocolo rigoroso: o PR recebia cumprimentos em 1º lugar dos membros do governo e Comité Central do PAIGC, depois os Embaixadores Estrangeiros, depois os representantes das diferentes organizações internacionais, depois os representantes das organizações de massas (mulheres, juventude etc…).

Qual não é o meu espanto quando me “obrigam” a integrar-me no 1º grupo - ou seja, membros do Comité Central do PAIGC e também do governo – à frente dos embaixadores, do representante da OIT etc.. Só te digo que sentia as orelhas quentes dos olhares de surpresa e de inveja (visível) da assistência.

Mas… a surpresa maior estava ainda para vir. Às 20h as pessoas começam a despedir-se e recebo o recado de que o PR quer despedir-se de mim numa sala à parte. Ele sai e fico à espera. Levam-me para a sala ao lado. Aí converso um pouco com alguns dos ministros. O PR começa a sair do palácio, a pé, fazemos “comitiva”. Ele vai-se despedindo, ao longo do caminho, dos seus ministros e a mim e ao ministro do Trabalho não dizia nada. Comecei a pensar que ele dava “gaffe” e se ia embora sem se despedir. Claro que só depois percebi. Conduziu-nos à sua residência particular, onde entrei eu, o 1º Ministro o do Trabalho e Negócios Estrangeiros. Estive lá duas horas, a conversar e a beber champanhe (do melhor claro). Isto só contado de viva voz, mas garanto-te que foi inesquecível.

Bissau 26 de Setembro 1983

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

BISSAU 1983

"A ligação com Angola e com outros dos PALOP veio a surgir novamente no meu caminho de forma muito natural. Em 1981, quando desempenhei funções como ministro do Trabalho, procurei que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) desse apoio aos PALOP nas questões laborais.

Passados dois anos, quando já não estava no Ministério, o director – geral da organização convidou-me a ir para a Guiné – Bissau a fim de servir de auxílio na estruturação da ordem jurídica laboral.

Gostei muito dessa experiência e penso que os resultados foram de tal forma proveitosos que o ministro do Trabalho passou a palavra aos ministros de outras ex-colónias."

Excerto de uma entrevista concedida ao DIREITO EM REVISTA 2001.

BISSAU 1983

A viagem foi óptima, embora um pouco cansativa por causa da “directa” Genève- Bissau e por não conseguir dormir bem no avião. A Guiné, sobrevoada do avião, é espantosamente verdejante e o rio largo e o mar ao fundo e a vastidão foram, um pouco, o reencontro esperado com a África que, porém já não é a minha. A recepção foi simplesmente espantosa, desde o Ministro do Trabalho, ao embaixador de Portugal e outras personalidades. Declarações para a rádio e jornais – sabem quem sou e “pesa” muito a vice – presidência e o Conselho de Administração do BIT. “Pesa”mais do que ser perito internacional. Fiquei instalado numa suite do Hotel 24 de Setembro, um quarto, casa de banho e sala de estar, tudo com ar condicionado. Não é luxuoso, mas é bom, tem frigorífico (com a gentileza de estar cheio!).

Aliás, estou a ficar incomodado com a maneira como me tratam. Tem sido só isto: um Mercedes Benz (melhor que o do nosso Ministro do Trabalho) à minha disposição durante toda a estadia, com motorista só para mim e um funcionário do protocolo permanentemente à minha disposição!!! O Ministro do Trabalho veio almoçar comigo ao Hotel e à tarde recebeu-me no seu gabinete e levou-me a ver o Ministério. Agora voltei ao hotel, dispensei o motorista até amanhã de manhã, mas ficou o funcionário do protocolo, que me disse estar encarregado de me fazer companhia às refeições e de rubricar todas as facturas…

O tempo está abafado e apetece estar na suite, por causa do ar condicionado. De facto estão a receber-me com honras de Ministro e não de perito internacional. Claro que é agradável, sobretudo num meio onde quase tudo falta, mas, com o meu feitio sinto-me incomodado com tanta honraria.

Bissau 21 de Setembro de 1983

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

NÃO CHORE PAI

" Não chore Pai" Afinal amanhã é um dia de alegria. Amanhã vou casar. Não. Não faz mal. Eu sei que é de felicidade. Por saber que cresci, que caminho pelo meu próprio pé. Do infinito da sua altura ( porque para mim o pai sempre foi alto) as lágrimas correm como poucas vezes vi.
Lágrimas de dever cumprido.
Lágrimas de alegria.
Lágrimas de orgulho.
No momento em que escrevo estas palavras a chuva cai com tanta força que parece que veio para me recordar essas lágrimas. Nesse dia antes de casar a chuva era como a de agora, este dia depois do pai morrer.
As suas lágrimas de alegria são as que verto agora no desespero da minha dor. Mas no dia em que o pai morreu fazia sol.
"Morreu em paz". Sem as lágrimas.
Hoje chove torrencialmente mas amanhã o sol brilhará certamente. Porque a sua luz está comigo e o seu calor secará todas as lágrimas. As do sofrimento. Porque as de alegria com que me olhava quando eu disse "Sim aceito", são para permanecer em mim.
E o sol do lado de fora da igreja brilhava também nesse dia do meu casamento.

NUNO

DEZOITO MESES

Depois da morte,

Ausência… Até quando?

Falta… E agora?

Tristeza… Espanto!

Lágrimas… esperança?

Nada mais….

Depois da morte,

Vida, fuga luta… para sempre!

Saudades, lágrimas, memória….

Reencontro.

Coração aberto… Alma vazia.

O grande abraço?

Que não se deu…

Aquela conversa….

Que cá ficou!

Nada mais…

Arrependimento… Ansiedade…

Porque não disse? Tudo que sinto …

Porque perdi? O que me falta hoje…

Porque não fiz…. aquela viagem?

Porque não dei…. o que me pedia?

Agora é tarde…

O reencontro? Engano…

Saudades, memoria, recordações…

Nada mais….

Tudo fugiu naquele momento,

Depois da morte.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CARREIRA PROFISSIONAL (1964/1974)

Finalmente a 30 de Janeiro de 1964 termina a Licenciatura em Direito na Universidade de Lisboa.

Em 2001, numa entrevista ao DR, (Direito em Revista), revisita, respondendo ao Jornalista, os anos da Faculdade, e, a difícil adaptação ao Portugal Continental. Vamos ouvi-lo.

" Cheguei a Portugal aos 17 anos, a fim de ingressar no ensino superior. Até essa altura a minha vida fora passada em Angola. Posso adiantar que os meus primeiros anos foram terríveis, pois tive uma péssima adaptação ao clima do País.

Achava mesmo que Portugal era uma verdadeira Sibéria, depois de me ter habituado ao sol e aos grandes espaços Africanos. A minha ligação a Angola é, de facto, muito forte, e a forma de se encarar a vida em Angola ficou-me muito marcada na pele.

A minha dolorosa integração em Portugal influenciou os estudos, e os dois primeiros anos da Faculdade de Direito não foram de grandes classificações. Cheguei mesmo a pedir a meu pai para desistir do curso a fim de regressar a Angola. Esse pedido não foi tido em consideração, e ainda bem.

Fui conseguindo adaptar-me sucessivamente e terminei a Licenciatura em Direito. Apesar de tudo, mantive sempre o desejo de regressar a Angola depois da formatura."


Ainda na entrevista ao DR explica a razão pela qual não regressou a Angola ao terminar o Curso de Direito

"A razão principal prendeu-se com a necessidade de não prejudicar a carreira profissional da minha mulher, que estava a estudar Medicina em Lisboa. Na altura decidi apostar na carreira de Magistrado, tanto que ingressei num estágio para o Ministério Público."

( Inicia o estágio na magistratura do Ministério Público num dos Juízos Criminais do Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, e, nesse período, exerce de facto, interinamente, até Setembro desse mesmo ano, funções de delegado do Ministério Público, - por impedimento do titular do cargo).

"Apercebi-me, no entanto, que a colocação numa comarca longínqua dificultaria o meu casamento. Ou seja, decidira não ir para Angola a fim de não o comprometer , e, estava agora a optar por uma eventual colocação em Bragança ou no Corvo…

Por isso, acabei por ingressar no Estado, como tarefeiro no Fundo de Desenvolvimento da Mão-de-Obra um organismo recém-criado ( 1962) que se dedicava ao Direito do trabalho e da contratação colectiva."

Em Setembro de 1974, e, exclusivamente por se sentir coarctado no exercício independente das suas funções, que nunca tinha sido posto em causa, requer e obtêm licença ilimitada.

"Já praticava o exercício da advocacia em regime de "part-time". Depois do horário de trabalho mantinha um escritório, partilhado com mais colegas, com quem apenas dividia despesas. Depois de 10 anos de exercício de funções públicas, decidi finalmente dedicar à advocacia tempo inteiro. Acabei por ser consultor jurídico de vários sindicatos, mantendo-me intimamente ligado ao direito laboral."

Direito em Revista nº2 Março/Maio 2001