
Já vimos que, após a licenciatura, e, até 1974, o Henrique exerce funções de técnico do FDMO primeiro, e, depois de Director de Serviços do Trabalho no Ministério das Corporações e Previdência Social.
Qual a sua visão política deste período da nossa vida colectiva? Em 23 de Fevereiro de 1983 em entrevista ao jornal “A Capital” diz o seguinte:
“ Eu tinha, nessa altura, 28 anos e, portanto uma grande capacidade interior, própria da idade. para sonhar e idealizar um mundo mais livre e uma sociedade mais fraterna. Foi a essa luz que encarei a ida de Marcelo Caetano para o Governo como a possibilidade de uma abertura progressiva para um regime de partidos, de tipo ocidental, e para uma sociedade mais igualitária.
Foi ainda a essa luz que os acontecimentos de Maio de 68, em França, me surgiram como um grito colectivo de regeneração profunda de uma sociedade de injustiças, em que já não se acreditava.
E à mesma luz, uma vez mais, a repressão na Checoslováquia foi, para mim, o esmagamento de ideais de liberdade e de dignidade humana, que a experiência então tentada nesse país corporizava por uma via especificamente nacional.
Há, nestes três acontecimentos tão diferentes, dois traços de certo modo comuns: por um lado, a tentativa de criação de uma diferente conformação político-social em liberdade; por outro o falhanço dessa esperança. A França não perdeu é certo, o seu quadro de liberdades públicas e cívicas. A Checoslováquia foi espezinhada pelas botas soviéticas e Portugal teve de encontrar no 25 de Abril a saída oportuna e realista do problema colonial, e da consequente democratização do regime.
Julgo que, na fase inicial da governação de Marcelo Caetano, a maioria dos meus amigos e companheiros acreditava que “as coisas iam mudar” e empenhavam-se nessa mudança. O sentido essencial da mudança apontava para um regime democrático, de liberdade de partidos e associações, de liberdade de reunião e expressão, de liberdade de imprensa e de legalidade do Estado, enfim, como disse para um regime de tipo europeu.
Mas havia evidentemente, diferenças quanto à prefiguração do rosto económico e social adveniente da evolução. Uns colocariam mais o acento no controlo do poder económico, na reforma estrutural da economia e no aprofundamento dos direitos sociais. Outros dariam mais atenção a uma tónica de liberalização económica e social em liberdade. E, é claro, havia também os que não acreditavam ser viável a mudança do regime por forma pacífica e evolutiva.
Mais tarde, quando se verificou que Marcelo Caetano estava capturado pelos que sempre se tinham oposto à mudança, grande parte dos que, na fase inicial, tinham acreditado com esperança e empenho, passou para a oposição declarada ou para a resignação resistente.”
A 23 de Fevereiro, de 1983, vésperas do Congresso do PSD, no Hotel Montechoro, o Henrique é entrevistado pelo jornal “A Capital”. Quando se refere à sua falta de tempo para o convívio familiar, diz esperar que os filhos compreendam que não anda na política por ambição.
"Estou à espera do momento em que possa ser dispensado da actividade partidária que hoje exerço como vice-presidente do PSD, embora tenha a intenção e o desejo de exercer qualquer tipo de funções em que sinta ser viável o aproveitamento efectivo daquilo que aprendi ao longo destes anos e que não quero, eu próprio, desbaratar. Julgo que nenhum homem tem o direito de se recusar a dar aos outros, e a si mesmo, o contributo da sua especificidade individual e o património da sua experiência humana e profissional. Se isto é assim em qualquer período, por maioria de razão o deve ser na fase conturbada que o nosso País atravessa. E continua:
“ Julgo que a minha família, onde pontificam cinco filhos cujas idades vão dos 9 aos 16 anos, é quem mais tem pago com a indisponibilidade de tempo que obsta à obrigação de viver e conviver com ela mais assiduamente. Talvez os meus filhos venham a não compreender e não aceitar isto, e essa é uma probabilidade que me apoquenta. Se isto vier a suceder, creio que a única compreensão que lhes pedirei será a de reconhecerem que não tenho andado neste turbilhão de vida por motivos de ambição material nem por ambição de cargos.
Eu acredito que não são as soluções radicalizantes e messiânicas as que farão sair Portugal do seu estado de atraso.
Mas espero bem que não se repita o erro de não haver coragem, firmeza e convicção para mudar na tolerância e regenerar na solidariedade”
Em 23 de Fevereiro de 1983 ( ano de grande crise política económica e financeira, do X Congresso do PSD, da Troika saída de Montechoro, do Governo do Bloco Central, do FMI,) o Jornal “A Capital” referia-se ao Henrique desta maneira:
“Nascimento Rodrigues é um homem que tem subido a pulso os degraus da carreira política. Foi ministro do Trabalho, e ao abandonar essas funções, a seu pedido, passou a dedicar-se de corpo e alma ao PSD, cujos destinos liderou substituindo Pinto Balsemão quando este estava muito sobrecarregado com os problemas da Chefia do Governo. Confessa-se uma pessoa diferente, hoje, do Nascimento Rodrigues de há 10 anos atrás. Homem preocupado em estar sempre disponível para acreditar nos outros e para estar sempre ao seu dispor, Nascimento Rodrigues lamenta que, ao invés seja a família e em especial os seus cinco filhos de idades entre os 9 e os 16 anos quem tem pago a factura da sua indisponibilidade de tempo para um maior convívio.”
"A minha vida continua a ser muito pacata. Aqui é preciso andar-se em cima das coisas, senão não se obtêm nada.
Quase nem tenho pensado na vida política daí. Apetecia-me que tivéssemos dinheiro para comprar uma boa vivenda, montá-la com conforto e aí passarmos umas férias agradáveis com os filhos.
A vida futura vai ser muito difícil para eles e gostaria que a sua juventude fosse feliz embora sem facilidades demasiadas porque não podem habituar-se a elas."
Este foi o primeiro passo para a nossa casa da Takula, para os encontros da família, para as férias que ninguém esquece.
Nasceu por vontade do pai que lamentou sempre o pouco tempo que lhe sobrava para dedicar à família.