sexta-feira, 18 de novembro de 2011

NOTAS POLÍTICAS (90)

É um absurdo provocar-se a corrosão democrática para salvação da democracia. O menos que se poderá dizer disso é que se trataria de masoquismo político

Que não se destrua, seja por deliberado excesso de zelo abusivo, seja, ao contrário, por propositada falta de empenhamento firme e leal, o que tanto e a tantos custou a construir.

A existência, em partidos democráticos de minorias vanguardistas e revolucionárias, são a ponta de lança da sua transmutação em partidos não democráticos ou, na melhor das hipóteses, de democracia nebulosa.

IN “O Tempo” 13/8/ 1981

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O GRANDE DESAFIO

"O socialismo, mesmo o socialismo democrático, nos países da Europa do Sul, continua muito amarrado ao marxismo tradicional.

Nesse sentido, qualquer perspectiva está ultrapassada na sociedade actual e é, nessa medida que afirmamos a social-democracia como o caminho que aponta para uma sociedade democrática, humanista e se distingue do socialismo democrático clássico.

As dificuldades económicas que atravessamos, não nos permite fazer uma distribuição da riqueza que é parca.

Cabe-nos lutar contra o agravamento das injustiças sociais, o alastrar do mercado negro, as estruturas económicas paralelas, a fuga ao fisco. E isso não é fácil de fazer.

Aliás penso que o grande desafio da Social - democracia, é, precisamente, apresentar propostas para a resolução da crise e dignificação do Estado. A nossa economia é extraordinariamente dependente de factores externos e internos e, por outro lado os nossos vícios estruturais são de tal modo pesados e antigos que não se consegue vencê-los sem dificuldades.

Esta é uma razão suplementar para que tenhamos de efectuar reformas de estruturas na nossa sociedade.

É preciso a compreensão do povo. É preciso que a população possua toda a informação sobre a crise. É essencial que o Governo, a ter de tomar medidas impopulares marque um “timing” e um sentido para essas medidas de superação da crise. Isto não foi feito com total e completa clareza, porque o Governo só agora aprovou o OGE e vai, agora, começar a discussão."

Lisboa, 3 de Dezembro de 1981 (Nascimento Rodrigues em entrevista ao Diário de Lisboa)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SOCIAIS-DEMOCRATAS

"Os princípios e prática da social-democracia diferenciam-se nitidamente quer do conservadorismo, ainda que disfarçado agora de nacionalismo liberal, quer do socialismo colectivista estatista amarrado a complexos marxizantes, mesmo quando este promete à ultima hora “social-democratizar-se.”

Para nós sociais-democratas, a consecução destes objectivos LIBERDADE, JUSTIÇA, SOLIDARIEDADE exige medidas correctivas por parte do Estado. Estas medidas devem visar a criação (ou reposição) de condições da igualdade, o fomento ou, mesmo, se e quando necessário, a realização de reformas estruturais, a garantia dos direitos de cada um e de todos.

Mas isto deve ser feito sempre à luz do princípio de que a intervenção do Estado se destina a assegurar uma sociedade livre. E por isso mesmo rejeitamos firmemente a estatização da sociedade, com a consequente captura por elites privilegiadas, de perfil burocrata ou de vestimenta militar.

Uma política social – democrata tem como destino concreto os homens, as mulheres e os jovens do nosso País. É com eles e para eles que devemos trabalhar. Podemos errar ou podemos não alcançar tudo quanto desejaríamos programaticamente – o que não podemos, nunca, é deixar de defender os valores e princípios da Social Democracia e actuar em estrita conformidade com eles.

Honestidade democrática nos processos de actuação e transparência cristalina nos objectivos que perseguimos.

Não devemos nunca abdicar, renunciar ou esmorecer nas exigências ético - políticas que inspiram os nossos ideais; mas talvez seja necessário reflectir sobre os meios ao nosso dispor, selecciona-los com vista á consecução de medidas mais urgentes de progresso económico e social, e estabelecer com transparência e rigor as metas sociais que progressivamente devem ser alcançadas no contexto das possibilidades financeiras e económicas em cada momento disponíveis.

Em suma, talvez seja necessário pôr frontalmente a questão de saber como é que a social-democracia, na irrenunciabilidade dos seus princípios, pode dar solução aos velhos e aos novos problemas de desenvolvimento económico e social que tão agudamente nos afligem."

Coimbra, 8 Novembro 1981


terça-feira, 15 de novembro de 2011

DEMOCRACIA E PARTIDOS POLÍTICOS

"Para mim, a estabilidade e reforço da democracia, nos seus aspectos político, económico, social e cultural, passa fundamentalmente pela acção concreta dos partidos democráticos.

As pessoas só militam, só se empenham ou só confiam nos partidos se estes lhes trouxerem uma visão coerente perseguida de consonância com o seu modo de pensar e de estar na vida, se lhes prestarem o contributo de um alargar e renovar de perspectivas dentro dessa visão, se se mostrar que a acção politico partidária é tarefa de fazer um pouco do amanhã na prática de cada dia de hoje.

Penso que isto deveria ser assim, não como imagem circunstancial ou palavra de retórica. É nessa medida que sinto e defendo o dever de, tudo fazermos para que não se repitam situações com reflexos potenciais ou efectivos, na estabilidade democrática e no desenvolvimento do País. Impõem-se fazer exactamente o contrário.

Não quero dizer com isto que eu tenha da vivência real dos partidos a visão idílica de casas de santidade! Mas não se pode aceitar também, em particular num País como o nosso e sobretudo numa situação como a que temos, que eles sejam coutadas de sectarismos pessoais ou de grupos, ou arenas de linguarejar de comadres invejosas…"

In “ O Tempo” 1/10/81

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

NOTAS POLÍTICAS (89)

"Quando as leis do trabalho se fazem sem uma participação profunda e efectiva dos parceiros sociais, arriscam-se a ter uma vigência contestada, ora por uns, ora por outros. Isso não serve os interesses do desenvolvimento da nossa economia e da justiça social.

Costuma dizer-se que as pessoas se entendem é a falar. Pois também é discutindo, sem falsos preconceitos, que os parceiros sociais poderão chegar, um dia, a plataformas de entendimento mínimo. Porque o consenso é o caminho maia válido do desenvolvimento. E o desenvolvimento social e económico é o esteio da paz nas sociedades.

É chegado o momento de fazermos prova de que o diálogo social é possível e necessário."

Lisboa, Julho de 1981

RECUSAR - O COLECTIVISMO, O CONSERVADORISMO, O INTERNACIONALISMO, O NACIONALISMO CHAUVINISTA

"Defendemos uma consensualização social coerente, patriótica e democrática. Isto significa procurar associar as organizações sindicais e patronais a uma política concertada de trabalho e de justiça.

Mas não podemos deixar-nos conduzir para caminhos que nunca mais tenham fim, ou para tácticas de penoso arrastamento de soluções. O diálogo social não é sinónimo de “conversa de surdos”, nem pode significar bloqueamento subtil ou aberto a medidas de fundo, que são necessárias para viabilizar o progresso económico e potenciar maior justiça social no futuro.

O poder tem que ser exercido com autoridade democrática, com firmeza e com sentido de equilíbrio e justiça.

Não podemos favorecer uns contra os outros, numa óptica classista e de raiz quer marxista, quer de liberalismo passadista.

É sob uma visão moderna e de reformismo realista que apoiaremos os que trabalham, os que investem criando emprego, os que se dedicam com competência e esforço a criar progresso e a gerar riqueza.

Estamos contra os que especulam com o crédito ou o desviam das suas finalidades, estamos contra os que boicotam o trabalho honesto de quem quer trabalhar.

Somos a favor da liberdade sindical na independência e autonomia dos sindicatos e das organizações patronais.

Somos contra os que transformam certos sindicatos em “câmaras de ressonância” repetitiva da voz de forças partidárias, ou que fazem de certas organizações patronais palco de encapotadas movimentações político – partidárias.

Em regime democrático não se pode permitir a confusão do estatuto institucional das forças partidárias com a dos parceiros sociais.

A legitimidade de um Governo advém-lhe do sufrágio universal.

A legitimidade de direcções sindicais e patronais provém do sufrágio sectorial e de voto circunscrito aos correspondentes associados."

domingo, 13 de novembro de 2011

ESTOU SÓ

Estou só, nos caminhos andados deste mundo em convulsão. Nos sorrisos de espanto. Nos sonhos inventados, vazios de alma. Estou só, na cumplicidade do olhar, na incredulidade dos gestos, nas asas da saudade e da esperança. Secaram as lágrimas. Ficou a dor, e, pior que tudo, ficou a ausência.

Estou só. Neste nebuloso viver, inventei um encontro, e, sonhei contigo uma relação nova, mas não desconhecida. Olhamo-nos. Somos velhos. Reconhecemos, com espanto, um coração que bate apressado, que nos preenche a alma, nos aquece os corpos gelados e me dita a sorte. Agora anseio todos os dias pelo som da tua voz. Não consigo esquecer-te, não consigo olhar-me sem te ver, nem ver-te sem me olhar.

Senta-te a meu lado, fala-me de novo. Dá-me um sinal para eu viver… Estou só!