terça-feira, 22 de novembro de 2011

EM DEMOCRACIA- COM CORAGEM E COM VERDADE


Em democracia, os conflitos de trabalho suscitam-se com relativa frequência, nomeadamente nos países que se defrontam com grandes desigualdades sociais e que não possuem uma economia desenvolvida.

A situação internacional não nos é nada favorável e a nossa economia ressente-se disso.

Neste contexto, o acerbamento de conflitos não irá potenciar condições para que a nossa economia vença as dificuldades que se opõem.

Sem investimento e sem crescimento equilibrado, como podemos criar mais emprego?

E sem um mínimo de estabilidade social, como podemos incentivar a produtividade e repartir com mais justiça a riqueza criada?

Sejam quais forem os nossos pontos de vista, temos que os confrontar e tentar chegar a soluções de consenso, expresso ou tácito. Sinto ser isso o que a generalidade do nosso povo deseja.

É isso o que se impõem tentar com coragem e com verdade.

Em normalidade democrática, não se entende que a rua seja o melhor forum de debate dos problemas e que os “slogans” de propaganda resolvam o que quer que seja.

In “Comércio do Porto” Julho de 1981

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

LIBERTAR A SOCIEDADE CIVIL

"Ao alargamento desmesurado das despesas do Estado, a que se assistiu nos últimos anos, há que opor a contenção rigorosa dos gastos supérfluos e dos não essenciais.

À burocratização do Estado há que opor a desburocratização do País. À descoordenação administrativa e à duplicação funcional e delapidação consequente de recursos há que opor eficácia e produtividade.

E tudo isto, tão sumariamente dito, ajudará muito mais a inverter as tendências de asfixia da sociedade civil do que o corte das amarras de gongorismo ideológico contido na constituição.

Sem embargo, porém, é decisivo que os cidadãos e as organizações legítimas de representação dos interesses colectivos mais diversificados assumam o protagonismo que lhes cabe na modelação da nossa sociedade.

E para isso também é preciso que não se continue a dar prova quotidiana de que tudo esperamos do Estado, no subconsciente assumido, afinal, como mezinha para as nossas próprias incapacidades.

Se o papel selado é mau, o requerimento e o pedido para tudo e para nada não lhe ficam atrás!"

Lisboa 5 de Dezembro 1981 (Nascimento Rodrigues entrevistado por “O DIA”)

domingo, 20 de novembro de 2011

ANGOLA NO CORAÇÃO

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

SERRA DA LEBA



Na minha terra
se come galinha com pirão
"ó milongo ó tchange amé muto"
se come mesmo com a mão
da panela se come
calcinha ou não
o pirão se some
fazendo bola na mão
molha no conduto
rapa na galinha
vai matando a fome
ué!, não tem mais não?
Está onde o pirão então?
Se come só com molho
engorda só com o olho.
Ouvindo o kissange
ainda com fominha
passa os dedos na carapinha
o dente ainda range
na minha terra...

Poesia de Valério Guerra

Fotografias do Henrique. Setembro de 2006

QUEM SEMEIA VENTOS…..

"O projecto que o Governo segue foi votado em eleições livres e consubstancia-se no programa que a Assembleia aprovou.

Um projecto diferente teria de se submeter aos mesmos processos democráticos.

Um governo de propensão conservadora, ainda por cima defrontado, como estamos, com uma crise económica internacional com reflexos internos, virar-se-ia, inevitavelmente, para soluções de confronto.

Isto suscitaria uma fortíssima oposição do movimento sindical no seu conjunto. A instabilidade social alastraria, provocando mecanismos instintivos de repressão. Estariam criadas boas condições para os projectos de poder pessoal e para a intervenção de diversas forças políticas de sinal extremista.

A maioria do nosso povo não quer situações de grave instabilidade política e social. Os empresários sabem bem que uma política de diálogo e distensão sociais é uma condição imprescindível para o desenvolvimento do País.

O que os empresários exigem, e legitimamente, é disporem de condições para a modernização das suas empresas.

Ora sabe-se que isto não se consegue através de confronto institucional ilegítimo, que põem em causa os alicerces da nossa democracia, nem através de uma política de afrontamento cego em relação aos sindicatos e aos trabalhadores.

Uma política de diálogo social alargado exige como condição essencial que o interlocutor dos parceiros sociais, ou seja, O Governo, tenha apoio e seja claramente sustentada pela sua base política e social.

É obvio que não se vai dialogar se o interlocutor foi enfraquecido internamente. Em tais situações não se dialoga: amplia-se a luta, radicaliza-se a reivindicação laboral e procura-se instalar a agitação permanente.

Quem semeia os ventos, e nem sequer os sabe dominar, colherá tempestades. Eu pergunto se é isto a defesa dos interesses do País, da estabilidade social e do progresso económico."

In “A Capital” ( Entrevista a Nascimento Rodrigues) 7 de Agosto de 1981

NOTAS POLÍTICAS (90)

É um absurdo provocar-se a corrosão democrática para salvação da democracia. O menos que se poderá dizer disso é que se trataria de masoquismo político

Que não se destrua, seja por deliberado excesso de zelo abusivo, seja, ao contrário, por propositada falta de empenhamento firme e leal, o que tanto e a tantos custou a construir.

A existência, em partidos democráticos de minorias vanguardistas e revolucionárias, são a ponta de lança da sua transmutação em partidos não democráticos ou, na melhor das hipóteses, de democracia nebulosa.

IN “O Tempo” 13/8/ 1981

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O GRANDE DESAFIO

"O socialismo, mesmo o socialismo democrático, nos países da Europa do Sul, continua muito amarrado ao marxismo tradicional.

Nesse sentido, qualquer perspectiva está ultrapassada na sociedade actual e é, nessa medida que afirmamos a social-democracia como o caminho que aponta para uma sociedade democrática, humanista e se distingue do socialismo democrático clássico.

As dificuldades económicas que atravessamos, não nos permite fazer uma distribuição da riqueza que é parca.

Cabe-nos lutar contra o agravamento das injustiças sociais, o alastrar do mercado negro, as estruturas económicas paralelas, a fuga ao fisco. E isso não é fácil de fazer.

Aliás penso que o grande desafio da Social - democracia, é, precisamente, apresentar propostas para a resolução da crise e dignificação do Estado. A nossa economia é extraordinariamente dependente de factores externos e internos e, por outro lado os nossos vícios estruturais são de tal modo pesados e antigos que não se consegue vencê-los sem dificuldades.

Esta é uma razão suplementar para que tenhamos de efectuar reformas de estruturas na nossa sociedade.

É preciso a compreensão do povo. É preciso que a população possua toda a informação sobre a crise. É essencial que o Governo, a ter de tomar medidas impopulares marque um “timing” e um sentido para essas medidas de superação da crise. Isto não foi feito com total e completa clareza, porque o Governo só agora aprovou o OGE e vai, agora, começar a discussão."

Lisboa, 3 de Dezembro de 1981 (Nascimento Rodrigues em entrevista ao Diário de Lisboa)