quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA

Com Manuel Alegre, (Vice-Presidente da Assembleia da Republica), Sala do Senado, 18.11.2002

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA

A casa está cheia de ti
Não apenas os retratos os recantos
Os quadros
Não apenas os objectos onde
Roça ao de leve
A suave mão da tua ausência
Mas aquela luz que trazias dentro
E deixavas de passagem
Nos seres e nas coisas.
Talvez agora mores entre as estrelas
Mas brilhas
Intensamente brilhas dentro de casa

Manuel Alegre in Poesia Volume II D. Quixote 2009

VISÃO HUMANISTA DA DEMOCRACIA

" Passamos por um momento da nossa vida nacional em que se torna importante reafirmarmos a nossa concepção de democracia.

Os direitos económicos e sociais têm um ponto de partida, que são os inalienáveis direitos políticos e cívicos fundamentais; e têm um ponto de destino, que é a democracia plena e a libertação do Homem. Estes dois vectores são inseparáveis.

Mas democracia plena, na minha perspectiva de social-democrata, é enquadrada para além e sobre uma visão parcelar de subordinação do poder económico, que deve ser, de facto, um instrumento ao serviço do Homem: ela significa, fundamentalmente, a progressiva porque porventura nunca terminada libertação do Homem, o seu combate secular pela conquista total da eminente dignidade que lhe é inerente.

As constrições económicas e as discriminações sociais constituem, sem dúvida, grilhetas a quebrar. Mas não se conseguirá, seguramente, quebrá-las à margem de um quadro de plena democracia representativa.

As reformas sociais não se atingem nunca à custa da liberdade."

Vimeiro, 25 de Outubro 1981 (Excerto de um discurso proferido no “Primeiro Encontro Nacional dos Sociais- Democratas nas Comissões de Trabalhadores”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

JUNHO 1981

Dias Felizes na companhia de amigos

SÓ A VOZ

O tempo passa veloz
e só a voz
da saudade que mata
teima em ficar
dentro de nós

Jorge Arrimar ( poeta Angolano)

domingo, 27 de novembro de 2011

POR UMA NOVA ORDEM ECONÓMICA INTERNACIONAL

A 11 de Junho de 1981 o “Correio da Manhã” noticiava o seguinte: “ O Ministro do Trabalho, Nascimento Rodrigues, parte hoje para Genebra, a fim de participar na 67ª sessão da Conferência Internacional do Trabalho, a decorrer naquela cidade até ao dia 24 do corrente.O titular da pasta do Trabalho, discursará na sessão Plenária de amanhã, prevendo-se que regresse a Lisboa dia 13.”É um excerto desse discurso que editamos a seguir.

"Toda a estratégia de desenvolvimento integra uma dimensão social.
A política de cada país tem sempre repercussões além fronteiras. Ora quando essas repercussões agudizam as desigualdades económicas e sociais; quando suscitam penurias inaceitáveis do ponto de vista de dignidade humana; quando alargam o flagelo do desemprego; quando aumentam o fosso entre homens de diferentes nações e entre nações de todos os continentes; quando desencadeiam o afrontamento entre possuidores e não possuidores de bens e de conhecimentos que são indispensáveis à promoção do bem estar de toda a comunidade internacional - quando isto acontece, temos a obrigação de realizar todos os esforços para assegurar as condições de realização de justiça económica e social, quer no campo internacional, quer no campo interno.
Temos, felizmente, condições de estabilidade política, decorrentes de uma vivência democrática que cada vez mais se consolida em Portugal, para tentar esse esforço visando a melhoria das condições de vida e de trabalho da nossa população.
Estamos conscientes do desequilíbrio gerado a nível mundial pelas desigualdades de riqueza e de oportunidades.
Essa consciencialização advêm-nos de três ordens principais de factores
Somos, por um lado, um pequeno País, com uma economia extremamente vulnerável às flutuações e à instabilidade que se vêem observando na ordem económica internacional.
Somos, por outro lado, um Povo que, por razões ligadas à sua história, tem actualmente mais de três milhões de cidadãos seus que vivem em praticamente todos os continentes.
E isto não só redobra a nossa sensibilidade para a compreensão da interdependência à luz da qual temos de encarar e resolver problemas que a todos, afinal, afectam, como reforça o nosso entendimento de que só com acções de estreita cooperação, baseadas num quadro global de solidariedade, será possível afastar os riscos emergentes das clivagens económicas, sociais e culturais que teceram uma divisão angustiante no nosso mundo.
Enfim a nossa consciencialização, ganha, ainda, suporte na circunstância de Portugal se encontrar numa situação de desenvolvimento intermédio e de deter um posicionamento claro na região europeia – mediterrânica, do mesmo passo que, criámos condições para entender o significado das aspirações legítimas a uma maior justiça económica e social por parte dos povos de regiões mais afectadas pela pobreza.
Isto leva-nos a encarar a exigência de solidariedade, pressuposta pela estratégia internacional de desenvolvimento, quer no sentido de uma cooperação mais sólida entre os próprios países da Europa democrática - como demonstração palpável de que são capazes de uma convergência de interesses e de uma ultrapassagem das desigualdades existentes no seu próprio seio – quer a um nível mais alargado, como prova de que estamos conscientes do carácter verdadeiramente imperativo de uma nova ordem económica internacional.
Genebra 12 de Junho 1981

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A MAIOR VITÓRIA

“A maior vitória de um grande homem público, não está tanto em recordá-lo sob a saudade do passado mas, sobretudo, em manter dignificado, vivo e operante o projecto de sociedade por que lutou.”

Lisboa 1981 (referindo-se a Francisco Sá Carneiro)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

SURTO GREVISTA

"Sempre defendi a concepção de que o ponto de vista sindical é, à partida, diferente do ponto de vista governamental.

Por isso mesmo é que o sindicalismo só o é enquanto livre, e, portanto, independente dos partidos, dos governos e dos empresários.

Nesta medida, compreendo que as reivindicações dos sindicalistas possam contrastar com as posições do governo.

Os sindicalistas devem defender os interesses dos trabalhadores que representam, o Governo tem o dever de defender os interesses mais globais de todas as camadas da população. Podem, assim, sobrevir divergências e até conflitos. Mas em democracia os conflitos são tão normais como o são os consensos ou, ao menos, a compreensão recíproca das posições respectivas.

É bem verdade, no entanto, que a situação actual do nosso País exigiria uma certa trégua social, voluntária e responsavelmente assumida. Para tanto, será legítimo que o movimento sindical exija da política governamental o máximo que esta possa dispensar em favor dos mais desprotegidos, no âmbito das disponibilidades que são limitadas.

E, em contrapartida será também legítimo que o Governo espere do movimento sindical a demonstração prática, e não meramente afirmativa, do princípio de solidariedade nacional.

Este é que me parece ser o caminho da redução das margens de conflitualidade social numa óptica de consenso democrático e patriótico.

Em relação às greves, a questão está em discernir, as que são fomentadas pelas forças sindicais com aproveitamento de reivindicações de base salarial, das outras em que reivindicações e objectivos são marcadamente profissionais, mesmo que, do ponto de vista do Governo, tais reivindicações sejam consideradas como inviáveis, tendo em atenção a situação económica das empresas, dos sectores e do próprio país.

A resposta para essas situações, que não sejam as do legítimo confronto e divergência democrática tem de ser firme. Firme, neste duplo sentido: usar a autoridade democrática ao mesmo tempo que se faz prova de que se aplica uma política de gradual eliminação das injustiças sociais."

In “ O Tempo” 28 de Fevereiro de 1980