domingo, 4 de dezembro de 2011

EQUIDADE NA REPARTIÇÃO DE SACRIFÍCIOS


Não tenho qualquer pejo em afirmar, e sempre o fiz, que muitos empresários têm fundadas razões de queixa contra a improdutividade no trabalho, acerca da falta de qualificação e pundonor profissionais de muitos trabalhadores, contra o abuso nas faltas, etc.
Mas sejamos claros: o que se verifica também é que os empresários dinâmicos e competentes são os que menos se queixam das relações laborais.
Em contrapartida, quantas razões legítimas não têm os trabalhadores e os sindicatos democráticos? É aceitável que uma empresa invoque dificuldades insuperáveis para recusar melhores salários, e depois se verifique que os gestores andem em carros de luxo e façam despesas descabidas?
O português é muito sensível à lisura e à coerência de atitudes. É um dos valores culturais do nosso Povo e ainda bem que a generalidade dos trabalhadores preserva esse vector da identidade nacional.
Temos que fazer sacrifícios, porque o futuro do país assim o exige.
Mas se os sacrifícios forem exigíveis a uns e não a todos, de acordo com uma repartição equitativa, então não se estará face a uma política de rigor e autenticidade democráticas mas, sim, face a uma política de capitulação classista.
Um social-democrata tem de lutar contra isso. Compreender realidades económicas inultrapassáveis, sim – abdicar, não.
Excerto de uma entrevista ao Semanário “Expresso”, em 5 de Setembro de 1981

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

NÃO!!!

Começou o mês de Dezembro. Em família, Dezembro representa, a pausa, o aconchego, a solidariedade, a amizade, o amor, a dádiva, todos os sentimentos guardados cá dentro e que, ao longo do ano, vão ficando fechados no turbilhão da vida de todos os dias. Dezembro, na nossa casa, é um mês de Paz, de alegria, de reencontro, de harmonia. Há que acumular todas as energias que nos permitam enfrentar mais uns meses, até Agosto. Para o Henrique, o Natal concentrava todos esses valores. O Natal permitia-lhe vivê-los, senti-los e, o mais importante, exprimi-los. Com ele, aprendemos a viver o mês que agora começa. Sem ele, cabe-nos unir a família e transmitir às gerações mais novas o sentido dos valores, dos ideais, das convicções, que nos legou. O Henrique é a Família. Dentro de nós, ainda está aquele grito de dor, de incredulidade, de desespero, que a sua morte totalmente inesperada nos provocou, e que o Nuno tão bem escreveu.

NÃO!!!

O grito vem do fundo de tudo

NÃO!!!

Voaram os pássaros para longe, para onde já nada era.

NÃO!!!

O mundo roda à minha volta e agora não estou em mim

NÃO!!!

Mas cá estamos. Na incerteza do mundo de amanhã, tudo o que ele nos legou constitui um cimento, que mantém sólidos os pilares que nos permitem viver no meio da tormenta, das angústias, da incerteza. Somos Família, somos o Henrique, ausente das nossas vidas, mas presente nas nossas almas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA

Com Manuel Alegre, (Vice-Presidente da Assembleia da Republica), Sala do Senado, 18.11.2002

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA

A casa está cheia de ti
Não apenas os retratos os recantos
Os quadros
Não apenas os objectos onde
Roça ao de leve
A suave mão da tua ausência
Mas aquela luz que trazias dentro
E deixavas de passagem
Nos seres e nas coisas.
Talvez agora mores entre as estrelas
Mas brilhas
Intensamente brilhas dentro de casa

Manuel Alegre in Poesia Volume II D. Quixote 2009

VISÃO HUMANISTA DA DEMOCRACIA

" Passamos por um momento da nossa vida nacional em que se torna importante reafirmarmos a nossa concepção de democracia.

Os direitos económicos e sociais têm um ponto de partida, que são os inalienáveis direitos políticos e cívicos fundamentais; e têm um ponto de destino, que é a democracia plena e a libertação do Homem. Estes dois vectores são inseparáveis.

Mas democracia plena, na minha perspectiva de social-democrata, é enquadrada para além e sobre uma visão parcelar de subordinação do poder económico, que deve ser, de facto, um instrumento ao serviço do Homem: ela significa, fundamentalmente, a progressiva porque porventura nunca terminada libertação do Homem, o seu combate secular pela conquista total da eminente dignidade que lhe é inerente.

As constrições económicas e as discriminações sociais constituem, sem dúvida, grilhetas a quebrar. Mas não se conseguirá, seguramente, quebrá-las à margem de um quadro de plena democracia representativa.

As reformas sociais não se atingem nunca à custa da liberdade."

Vimeiro, 25 de Outubro 1981 (Excerto de um discurso proferido no “Primeiro Encontro Nacional dos Sociais- Democratas nas Comissões de Trabalhadores”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

JUNHO 1981

Dias Felizes na companhia de amigos

SÓ A VOZ

O tempo passa veloz
e só a voz
da saudade que mata
teima em ficar
dentro de nós

Jorge Arrimar ( poeta Angolano)

domingo, 27 de novembro de 2011

POR UMA NOVA ORDEM ECONÓMICA INTERNACIONAL

A 11 de Junho de 1981 o “Correio da Manhã” noticiava o seguinte: “ O Ministro do Trabalho, Nascimento Rodrigues, parte hoje para Genebra, a fim de participar na 67ª sessão da Conferência Internacional do Trabalho, a decorrer naquela cidade até ao dia 24 do corrente.O titular da pasta do Trabalho, discursará na sessão Plenária de amanhã, prevendo-se que regresse a Lisboa dia 13.”É um excerto desse discurso que editamos a seguir.

"Toda a estratégia de desenvolvimento integra uma dimensão social.
A política de cada país tem sempre repercussões além fronteiras. Ora quando essas repercussões agudizam as desigualdades económicas e sociais; quando suscitam penurias inaceitáveis do ponto de vista de dignidade humana; quando alargam o flagelo do desemprego; quando aumentam o fosso entre homens de diferentes nações e entre nações de todos os continentes; quando desencadeiam o afrontamento entre possuidores e não possuidores de bens e de conhecimentos que são indispensáveis à promoção do bem estar de toda a comunidade internacional - quando isto acontece, temos a obrigação de realizar todos os esforços para assegurar as condições de realização de justiça económica e social, quer no campo internacional, quer no campo interno.
Temos, felizmente, condições de estabilidade política, decorrentes de uma vivência democrática que cada vez mais se consolida em Portugal, para tentar esse esforço visando a melhoria das condições de vida e de trabalho da nossa população.
Estamos conscientes do desequilíbrio gerado a nível mundial pelas desigualdades de riqueza e de oportunidades.
Essa consciencialização advêm-nos de três ordens principais de factores
Somos, por um lado, um pequeno País, com uma economia extremamente vulnerável às flutuações e à instabilidade que se vêem observando na ordem económica internacional.
Somos, por outro lado, um Povo que, por razões ligadas à sua história, tem actualmente mais de três milhões de cidadãos seus que vivem em praticamente todos os continentes.
E isto não só redobra a nossa sensibilidade para a compreensão da interdependência à luz da qual temos de encarar e resolver problemas que a todos, afinal, afectam, como reforça o nosso entendimento de que só com acções de estreita cooperação, baseadas num quadro global de solidariedade, será possível afastar os riscos emergentes das clivagens económicas, sociais e culturais que teceram uma divisão angustiante no nosso mundo.
Enfim a nossa consciencialização, ganha, ainda, suporte na circunstância de Portugal se encontrar numa situação de desenvolvimento intermédio e de deter um posicionamento claro na região europeia – mediterrânica, do mesmo passo que, criámos condições para entender o significado das aspirações legítimas a uma maior justiça económica e social por parte dos povos de regiões mais afectadas pela pobreza.
Isto leva-nos a encarar a exigência de solidariedade, pressuposta pela estratégia internacional de desenvolvimento, quer no sentido de uma cooperação mais sólida entre os próprios países da Europa democrática - como demonstração palpável de que são capazes de uma convergência de interesses e de uma ultrapassagem das desigualdades existentes no seu próprio seio – quer a um nível mais alargado, como prova de que estamos conscientes do carácter verdadeiramente imperativo de uma nova ordem económica internacional.
Genebra 12 de Junho 1981