domingo, 25 de dezembro de 2011

DIA DE NATAL


"Foi esta a primeira vez que passei o Natal sozinho. Ontem à noite custou-me um pouco, mas hoje, 25, passei o dia bastante distraído. No meio de tudo, não é talvez, a falta determinada disto ou daquilo que eu mais profundamente sinto; é, antes, a certeza, que se avoluma, de estarem ficando para trás, eternamente, os meus tempos de criança, os meus encantos  pelo Natal, as minhas reacções e tudo isso que faz a maravilha da petizada nesta época. Tenho um medo tamanho de deixar de ser sensível a mil pequenos nadas, de passar a ser inteiramente Homem, de deixar de sonhar e de sentir o que só um coração jovem pode sentir e sonhar. Porque isso é maravilhoso! É maravilhoso sentirmo-nos crianças e vermo-nos acarinhados, abrir os olhos deslumbrados e sonhar com uma infinidade de centelhas mágicas. Esta vida que se leva na Metrópole em nada é propícia a sonhos! E ai do dia, eu sei-o perfeitamente, em que eu deixe de ser assim um quase nada criança, porque então não terei sonhos por que lutar denodadamente e com fé para os alcançar. Tu, Senhor, faz com que, para todo o sempre, possa arquitectar acriançadamente, os meus próprios ideais, para poder ser alguém na vida. Não creio que o possa ser sem ter sonhos e ideais. Por isso te peço Senhor, mais este favor: deixa-me continuar a ser criança."

Lisboa 25 de Dezembro de 1958 

sábado, 24 de dezembro de 2011

ORAÇÃO PARA UMA NOITE DE NATAL

"É noite de Natal. Embora cansado e sem disposição alguma, não podia deixar de escrever um pouco, se bem que nem saiba para quê, pois aquela “veia” que me poderia levar a escrever já se me esvaiu como num sopro. É o primeiro Natal que passo sem os meus Pais. Senti-o certamente, mas, na medida do possível, consegui superar a tristeza que me invadia. Senti-a sobretudo entre a hora do lanche e o findar da Missa do Galo. De lá para cá estou mais animado e voltei a ser, ainda há pouco, na mesa, o moço gracejador. Lembro-me, acima de tudo, que tenho de estudar para me formar o mais rapidamente possível. Lembrei-me dos meus Pais e dos momentos felizes que tantas vezes vivemos juntos.

Nesta noite de Natal, meu Deus, agradeço-Vos imenso todo o bem que me tens dado e o teres permitido que eu continue a ser o mesmo rapaz de sempre. Talvez (mas é talvez!) tenha muitos defeitos, mas gostaria de continuar assim.

Permiti, Senhor, que possa ter os meus Pais por muito tempo ainda; permiti que o mundo se esqueça da guerra e todos os homens possam viver em paz. Senhor, auxiliai-me sempre e fazei com que nunca me desvie do bom caminho e jamais esqueça a vossa sagrada Doutrina.

Não tive um Natal como os outros, mas creio que não deixei de ter um Natal Feliz.

Espero também que Tu, Menino Jesus que estás nas palhinhas, ao veres tanta gente ajoelhar-se a teus pés, possas ter sentido que há um enorme mundo que continua a ter fé em Ti e que, por isso, também tenhas tido um Natal feliz."

Lisboa 24 de Dezembro de 1958

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

GREVE

Não se trata de interferir na vida sindical! Os trabalhadores e militantes sindicais sociais democratas têm dado sobejas provas de que sabem lutar pelo sindicalismo democrático, livre e independente. Não poucas vezes temos visto dirigentes sindicais que se reclamam do reformismo social-democrata à frente de acções grevistas e na primeira linha de combate laboral e social. Temo-los visto actuar e dirigir greves, tanto nos governos anteriores em que o PSD esteve fora da governação, como nos Governos da própria AD. E sempre o nosso partido respeitou essa independência, porque ela faz parte da essência do nosso programa e é suporte irrecusável do nosso projecto e prática política.

Mas a independência sindical que temos respeitado, e o direito à greve que temos reconhecido e garantido aos trabalhadores portugueses, não podem ser utilizados para se capturar o poder político, sobretudo quando essa captura revela finalidades revolucionárias e antidemocráticas.

A acção sindical não se confunde com acção partidária, sob pena de se denegrir e deturpar o verdadeiro sindicalismo. A voz dos trabalhadores não pode identificar-se com a voz dos dirigentes e forças partidárias.

Os trabalhadores portugueses têm o direito de ser livres. E esta liberdade compreende, naturalmente, o direito de os seus sindicatos não serem considerados, e usados como “grafonolas” de forças politico -partidárias.

E por isso a nossa mensagem aos portugueses, e em particular aos sociais democratas, não pode deixar de ser só uma: no trabalho livre e dignificado, na solidariedade conscientemente assumida, na responsabilidade da coragem individual e colectiva – Portugal será democrático, o caminho da estabilidade e da paz, da recuperação económica e da justiça social não será arredado


Fevereiro 1982

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL E ANO NOVO

"Natal e Ano Novo… como se de facto, eles continuassem a ser para mim o mesmo que os passados Natais e Anos Novos… que hoje são velhos! Não já não o são. É extraordinário, é fantasticamente extraordinário, como, olhando para trás, eu sou levado a concluir que um simples ano, talvez 15 meses, possa operar uma mudança tão radical na minha maneira de sentir e no meu modo de agir. É fantástico, meu Deus, como uma dezena e meia de meses conseguiu ofuscar, num ápice, tudo aquilo que tinha um cunho de quase sagrado para mim. Natal e Ano Novo calavam bem fundo dentro de mim. Eram, para os meus anos de menino e moço, dois verdadeiros símbolos de maravilha, de paz, de felicidade. Era um verdadeiro sonho – especialmente o Natal – que a realidade me oferecia para eu sonhar a meu belo prazer. O Natal em especial, calha bem à meninice. Talvez por já ter deixado de ser menino, tenha deixado de ser também o Natal aquilo que outrora era. Porque de facto, há dois anos que eu já não tenho Natal. Que Deus me perdoe se Ele vê a minha afirmação como uma ofensa, mas bem sabe que não me refiro, naturalmente, àquela felicidade extrínseca e àquele bem estar natural que Ele sempre tão generosamente, me tem dado. Sim, meu Deus, Vós sabeis que não me lamento, por me faltar mais ou menos uma prenda. Bem sabeis Senhor, quanto Vos agradeço tudo o que me tens dado e que milhares, sabe-se lá se não milhões de rapazes não têm: pão para a boca, barriga farta e corpo agasalhado. Não, Senhor, certamente que eu não ponho em dúvida quão excessivamente feliz para ser verdadeiro, eu tenho sido neste aspecto. Nunca me faltou o pão que me matasse a fome e a roupa que me abafasse o frio; nunca me faltaram uma casa, mesmo onde sei que não é a minha casa, e um mimo de lar; nunca, Senhor – e quanta felicidade não é já essa! - eu soube o que era a miséria e o desgosto por algo que me faltasse. Se pobres são aqueles que não têm nada disto, rico, imensamente rico sou eu, Senhor. Mas nem só de pão vive o homem e nem só de abrigo e alimento de dinheiro e fartura é feita a felicidade.

Aquela felicidade íntima, que mais parece calmaria no espírito, paz na alma ou dor de alegria no coração, essa sim, vai-me fugindo aos poucos lentamente, tão lentamente como vão indo os meus verdes anos de adolescente."

Lisboa Natal de 1958

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NÃO É A IDADE QUE MATA A MOCIDADE


"O meu Natal…. É um Natal triste? Não, talvez apenas solitário. Mais solitário do que nunca, pois não há em meu redor uma cara familiar, uma terra amiga, uma coisa que me diga respeito
Tudo tem sido assim na Metrópole e é por isso que eu não gosto desta terra. Vai-nos ela embrutecendo a pouco e pouco, roubando-nos os nossos sonhos de criança, tirando-nos do peito as doces ilusões e os belos horizontes que só a mocidade pode forjar. Não é a idade não que mata a mocidade, porque eu sei, que no fundo ainda queima em mim a mesma chama de sempre; mas é esta vida sem espírito, este ambiente que é só matéria, que abafa e há-de acabar por matar totalmente a rama verde da minha mocidade. Oh, sim, eu nunca deixarei de ser novo só para mim; eu quererei sempre sonhar como outrora e ter um riso franco nos lábios;  mas não queria, também, que os milhares de sonhos que sonhava e as centenas de risos que abria, vão desaparecendo, desaparecendo, até ficarem cada vez menos. Não quero meia dúzia de sonhos – quero centenas; não quero um riso fortuito, de vez em vez, a lembrar-me que, afinal continuo um pouco criança – quero rir a toda a hora, abrir a alma ao mundo, sorver a felicidade e dizer em voz  bem alta: eu sou feliz como outrora!
Ah, mas onde estão os meus Natais? Onde estão os ternos anos da minha infância alegre?
Onde estão meu Deus? Oh, fazei que eles voltem para eu poder de novo ser eu inteiramente, de corpo e alma totalmente – totalmente, Senhor"

Fotografia- Luanda Natal de 1956 (último Natal em Angola)
Texto -Natal de 1958 em Lisboa
A árvore de Natal é a da nossa casa desde sempre.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ÚLTIMO POEMA


Lisboa, Vela Latina, 9 de Abril de 2010

ÚLTIMO POEMA

Sair do temporal!
é ganhar tempo pra coser as velas.
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar
O meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.
Ah, não esperem que eu espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar...
Numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.
Sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
.que vai começar.
Tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.

Cochat Osório (Calema 1956)

Calema, foi o livro  que o Henrique me ofereceu no dia em que fiz 17 anos. 9 de Abril de 2010 foi o último dia feliz das nossas vidas  

NÃO TENHO MEDO

O ouvidor do Kimbo é um blogue de memórias, recordações, saudades, pequenas lembranças, …. instantes de vida. 
É  semana de Natal. A enorme falta que o Henrique faz à nossa família leva-nos a partilhar, com quem nos ler, dois momentos especiais:  o presépio de sua casa em Sá da Bandeira - Natal de 1954 e, um pequeno texto, escrito em Lisboa, no Natal de 1959.

 "Já não sou um menino e já não posso ver-te a ti, Menino  também, com olhar de menino para Menino! Já não tenho a minha árvore de Natal feita para mim; já não vejo o meu presépio, por minha Mãe erguido só para mim; já não sinto o mesmo que sempre senti. O Natal é sempre o Natal, com que idade nós tenhamos e em que latitude vivamos, mas o Natal que eu vivo de há dois anos para cá – precisamente desde que cheguei à Metrópole - não tem, verdade, verdadinha, o mesmo “sabor” dos outros Natais. Parece que o adivinhei quando saí da minha terra e a olhei saudoso, apreensivo também pelo futuro que me esperava. Eu não tinha medo. Não tinha medo, porque sempre pensei, como pensaria qualquer criança que poderia ser criança eternamente. Vejam só que ingenuidade.
Quer seja ou não, o certo é que, ainda hoje, já vendo que os meus tempos de menino não voltarão, guardo ainda em mim a secreta esperança, de que, um dia, quando eu voltar à minha terra, talvez possa voltar conjuntamente a ser criança, amar a vida como só a pode amar uma criança e a ter um Natal e um Ano Novo como só podem ter as crianças. Quero voltar a olhar para as bolas de Natal que enchiam de cor a minha árvore e a poder ver em cada uma o mundo a meus pés; quero voltar a ver o Menino, deitado sobre palhinhas no Presépio e, olhando-o, a sentir de novo aquela sensação de infinita felicidade, de infinita tristeza por todos os que a não tinham como eu. Talvez que hoje, algum menino, ao olhar para o seu presépio, possa ter pena, como eu tinha, dos meninos que não possuíam presépio! Terá pena de mim, então! Porque será que a gente cresce e, impreterivelmente, deixa de ter os mesmos sentimentos e as mesmas reacções? Ah, que, se eu estivesse em minha casa e na minha terra, tenho a certeza que poderia voltar a sentir o “mesmo” Natal, tivesse eu a idade que tivesse!"