domingo, 12 de fevereiro de 2012
SONHOS AINDA POR SONHAR
Tão presente!
Tantos projectos!
Tantos sonhos, ainda
por sonhar.
Não é real a sua
morte.
A nossa vida está
suspensa,
Em espera.
Para acreditar
E poder dizer,
Olhos nos olhos
Uns dos outros:
Vês agora, porque é
que ele morreu
Naquele dia concreto,
Daquela maneira concreta,
Àquela hora concreta?
Nesta vida suspensa,
Todas as perguntas
ficam sem resposta
Nos nossos corações.
O MEU FATO DE JUDO
"NÃO!Oh Não! O Pai esqueceu-se de mim… no meio do meu fato de judo branco, sentado na escada da porta do nosso prédio cinza, esperei sem saber o quê.
O Pai esqueceu-se de mim…. somos
muitos, somos vida na rotina e eu fiquei para trás.
Esperei….
Acho que esperei por ele toda a
minha vida…. ou por mim quem sabe. Esperei para o conhecer, a ele que era o pai
mais conhecido da minha turma.
Continuei sentado… o pai
esqueceu-se de mim.
Escrevo agora com um sorriso no
rosto. Porque foi um esquecimento de amor. Já estou tão junto dele que agora é
só ligar o carro, claro! Já estou tão junto dele que o Diane se encarregará
sozinho de me levar à escola. Já estou tão junto dele que os meus irmãos devem
ter pensado que o pai guardou o Nuno no bolso e no infinito da sua altura (para
mim o pai era muito alto) arrancou o Diane para não chegarmos mais tarde. O
fato de judo alguém o irá buscar.
O Pai não se esqueceu de mim.
Escrevo agora para não me esquecer de ti. Eu não me vou esquecer de ti. Porque
já estás tão junto de mim que não há rotina que me faça deixar de te viver. Eu
não me vou esquecer de ti."
São vinte e dois meses hoje.
Nenhum de nós se vai esquecer de ti. Nenhum de nós deixará de te viver.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
É PRECISO DIZER BASTA
11horas da manhã do dia 11 de Agosto de 1981. O 1º Ministro
do VII Governo constitucional chega ao palácio de Belém para apresentar, ao
Presidente da Republica, o seu pedido de demissão como chefe do Governo.
Oito meses após a morte de Sá Carneiro, e em sequência de
enorme agitação política, particularmente dentro do PSD, o País fica sem
Governo.
A opinião do Henrique, expressa a um jornalista do semanário
“O Tempo” é a seguinte:
“ O pedido de
exoneração do Primeiro Ministro foi a consequência inevitável do comportamento
e dos objectivos perseguidos pelo
impropriamente chamado “grupo” dos críticos. A atitude não poderia ser outra
depois daquilo a que se assistiu no último Conselho Nacional do PSD, onde uma
minoria, aliás, quanto a mim, não homogénea, de pessoas, se recusou a dar-lhe
condições para continuar na chefia do Executivo. E mais: quando o Dr. Balsemão,
face ao espectáculo de radicalização criado pela minoria ao longo dos debates,
sentiu o risco de quebra da unidade do partido, dispôs-se até ao último momento
a aceitar uma plataforma de conciliação para ultrapassar esse risco. Pois nem
sequer essa plataforma foi aceite por consenso, como se verificou pelos
resultados da votação. Estes factos, que não são confidenciais porque já toda a
imprensa os relatou, e que correspondem, em síntese, à verdade do que sucedeu
no Conselho, criaram as condições políticas inevitáveis para a apresentação do
pedido de exoneração do Primeiro Ministro.
Algumas pessoas têm-se mostrado surpreendidas com o
imprevisto deste desfecho. Não há aqui nada de surpreendente. Quando ao longo
destes meses, se assistiu a uma campanha sistemática de deterioração da imagem
do Governo e, sobretudo, do Primeiro Ministro; quando, publicamente, e antes do
Conselho Nacional se vem exigir a
demissão do Chefe do Executivo; quando se ouvem, ao longo do Conselho Nacional
do PSD críticas de uma dureza atroz, algumas de sentido totalmente demolidor e,
até palavras ofensivas da dignidade pessoal, quando se diz, frente a frente que
este Primeiro Ministro não tem capacidade de realização, que se deve demitir
imediatamente, porque se não o fizer no dia seguinte continuará a campanha de
obstrução ao Governo, e quando se recusa a mais ampla hipótese de conjugação de esforços e de conciliação de
posições – quando tudo isto acontece, não há que surpreender ter o desfecho
sido o que foi. Pretendia-se enfraquecer ainda mais a posição do Primeiro
Ministro, pretendia-se desgastar por algum tempo mais este Governo, pretendia-se
fazer deteriorar a situação política ao ponto de haver de surgir então,
naturalmente apetecida, outra liderança, outro Governo e outro projecto
político, sob a capa de renovação do actual. A isto respondeu o Dr. Balsemão
com um rotundo “não” e um firme “basta”. Tenho para mim que foi uma atitude
coerente, uma posição digna e uma solução correcta."
IN "O Tempo" 13 de Agosto 1981
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
NÃO AOS JOGOS DE CAPELINHA
11 de Agosto de 1981. Após mais um Conselho Nacional do PSD, (que se inicia dia 8 de Agosto e termina dia 10 de madrugada), Francisco Pinto Balsemão apresenta a sua demissão. O Presidente da Republica
aceita, afirmando que mantém a confiança política no 1º ministro. O País fica
praticamente sem Governo. Pela 1ºvez depois do 25 de Abril é o partido
maioritário que derruba o seu o seu próprio executivo.
O Henrique é entrevistado pelo jornal “O Tempo”. À pergunta
do jornalista: “Aceitaria ser Ministro do Trabalho noutro Governo não chefiado por Pinto Balsemão”?
O Henrique responde:
“ Se a sua pergunta contém implícito o entendimento de que
estou neste Governo por uma atitude de relacionamento ou seguidismo pessoal,
impõe-se um esclarecimento muito frontal e claro: não vim para este Governo por
tal tipo de razões e não vou para nenhum Governo impelido por tais motivações.
Acreditei que poderia realizar trabalho útil e prestar um serviço honesto à
resolução dos problemas laborais do nosso País, na previsão de um mandato
minimamente durável e sob um projecto de diálogo e distensão sociais que se
enquadravam perfeitamente no perfil global do Governo ora exonerado. Desde que
isso deixe de ser possível politicamente, não se justifica, a nenhum título,
sequer a hipótese de integrar outro Executivo.
E mesmo que este assuma a possibilidade da mesma linha de acção que
defendi, haverá sempre alternativas mais válidas para casos pessoais. O PSD não
é pobre em valores, ainda que já tivesse sido mais rico. É preciso ir buscar os
sociais democratas mais válidos, mais capazes, mais dinâmicos. Nós temos esses
homens e não é difícil descobri-los, desde que nos deixemos de “jogos de capelinha” internos e de
sectarismos incompatíveis com o ideário democrático e social – democrata”.
IN " O Tempo" 13 de Agosto 1981
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
SAÍDA PELA PORTA ALTA
A 4 de Setembro de 1981 “O Jornal “ publicava um artigo
intitulado “Como o FMI “abateu” um ministro.”
E continuava: “Pela primeira vez, um ministro do Trabalho
abandona a Praça de Londres com mais prestígio do que aquele com que entrara.
Não por obra feita – mas pelo que se recusou a fazer”.(….) “ O acordo com o FMI serviu-lhe de pretexto e
causa próxima. A decisão estava já tomada. Uma decisão pessoal e que os
acontecimentos das últimas semanas mais não fizeram que consolidar e tornar
irreversível. Balsemão ainda insistiu – uma, duas vezes, mas com convicção
decrescente perante a resolução inabalável de Nascimento Rodrigues.
Compreensão e total solidariedade encontrou Nascimento Rodrigues
junto dos sindicalistas e de outros sectores do partido. Atitude que, algo
surpreendentemente, se alargou a alguns empresários, que vinham acompanhando
com atenção a política lavada a cabo no Ministério do Trabalho. E terminava em jeito
de comentário: “Nascimento Rodrigues,
saída pela porta alta”.
Em 5 de Setembro, e a este propósito, dizia o Henrique ao “Expresso”:
“Quanto ao FMI, também não tive conhecimento de quaisquer
eventuais condições relacionadas com a legislação laboral. Conhece-se mais ou
menos a grave situação económico - financeira em que o País se encontra. É um
imperativo nacional conter o deficit da nossa balança exterior e do orçamento
do Estado. Isso implica a adopção de medidas de fundo, mas quer parecer-me que
a maior parte delas, para que se alcance de facto a necessária e urgente
recuperação económica, não passa essencialmente pela área das leis do trabalho.
Se se pensa que as greves acabam com a revisão da lei da greve, alguém vai
ficar muito enganado. Ou não é verdade que nas empresas bem geridas não há ou
quase não há greves?”
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
COERÊNCIA E DIGNIDADE
4 de Setembro de 1981. Toma posse o VIII
Governo Constitucional. Em entrevista ao Semanário Expresso, o Henrique explica,
mais uma vez, as razões que o levaram a deixar a pasta do Trabalho
EXPRESSO – Por que razão não aceitou fazer
parte deste novo Governo AD?
Desejaria sublinhar que o primeiro-ministro
ponderou atentamente o meu pedido e procurou persuadir-me a continuar como
responsável pelo Ministério do Trabalho. Não posso senão sensibilizar-me com
tal atitude. Mas ele próprio veio a reconhecer a pertinência das razões que
invoquei e aceitou-as inteiramente"
EXP – Não pode especificar melhor essas
razões?
N.R.- "Creio ter sido claro na resposta. Não
há aqui nada escondido, tudo simples! No fundo, repare, do que se trata é de
escolher o perfil dos governantes em função da política que se anteveja como
necessária, e não de definir a política em função de homens previamente
escolhidos. Pelo menos é assim que encaro os passos de formação de um novo
Governo. Devem definir-se os objectivos e as políticas, depois a orgânica
governamental adequada, e só no fim as pessoas tidas como mais aptas para levar
a cabo as metas traçadas.
Penso que toda esta explicação é suficiente e
entendível. Qualquer esclarecimento complementar e mais pormenorizado cabe ao
senhor primeiro-ministro, se, quando e como ele o julgar conveniente. E volto a
sublinhar que ambos convergimos na solução da minha saída do Governo, ou, mais
precisamente, do Ministério do Trabalho."
(…)
EXP- Vamos terminar; que cargo pensa que
poderá vir a ocupar na Assembleia da Republica ou no PSD?
N.R. – "Retomarei o mandato de deputado, para
que fui eleito e nada mais. Quanto ao PSD o presidente do partido quis ter para
comigo o gesto de confiança de propôr à Comissão Política Nacional a
indigitação do meu nome para o futuro vice - presidente. Sei que a comissão
politica em reunião em que não pude estar presente, deliberou por unanimidade a
minha candidatura para esse cargo. O órgão com legitimidade para decidir é o
Conselho Nacional, enquanto não se realizar o próximo Congresso. Aceitarei as
tarefas que me atribuírem com a militância que nunca recusei ao meu partido,
desde que me sinta capaz de as exercer com validade para o PSD, para a social
democracia e para o País."
Expresso 5 de Setembro de 1981
Fotografia - Cerimónia de posse do VIII Governo