quinta-feira, 12 de abril de 2012

BRINCADEIRAS EM CABANAS


NÃO!
“Não quero ir fazer a sesta”. Estamos em Cabanas e os beliches de pintura alentejana são as minhas mais antigas memórias. Como aquelas do teu kimbo que nos contaste no teu blogue.
Foi preciso ler o teu blogue para as conhecer. E de Cabanas também nunca te falei. Nem de me sentar na garagem no Ferrel ao volante do teu Renault parado a guiar a minha vida e ser importante como tu. Ou muito tempo antes ao volante do carro de pedais em Azeitão teria eu então 4 anos.
São algumas das memórias de que agora falamos para te ter mais perto de nós. Nestes segundos depois lembramo-nos dos anos antes. E lembro-me das fondues, de vermos os Jogos sem Fronteiras, de correr à volta da casa em brincadeiras de miúdos. E vocês estão sempre presentes. Vocês também são o Pai. Vocês são as peças do puzzle que me constroem. As nossas memórias. As nossas vitórias. Os nossos desencantos. Vocês meus irmãos, são a minha vida. E hoje na morte do pai isso é cada vez mais claro, apesar das lágrimas que nos turvam a vista. As paredes frias cobrem o nosso abraço e choramos com ele:
“Ele vai estar sempre connosco”.
As paredes frias não estão lá quando lhe tocamos o rosto gelado para lhe dizer adeus. Mais uma peça. Mais uma memória.
Como a memória das grades de sumol que partilhávamos no Ferrel naqueles dias que passávamos juntos. Mas convosco todos os dias são para festejar. Festejar esta dádiva que ele nos deu. De sermos nós, cada um por si, mas todos juntos nas memórias passadas e no caminho futuro. Aquele que vamos fazer para lá das paredes frias. Sempre em conjunto.
E era isso que ele queria que fosse a nossa memória. Por isso não valia a pena falar das outras.

Este texto foi escrito pelo nosso filho Nuno no dia em que o pai morreu a 12 de Abril de 2010


segunda-feira, 9 de abril de 2012

PARA TI PAI


Pela Mariana e pelo João Miguel
Pela Ana Sofia
Pela Ana, pelo João, pela Sofia e pelo Gonçalo.
Pela Catarina, pelo Henrique. pelo Gonçalo, pela Maria, pelo Mateus, pelo Afonso pela Rita.
Pelo Vasco, pelo Francisco, pelo Duarte, pelo Miguel.
Pela Bébé da Marta e do Gonçalo
Pelo Raúl,  pela Nini, pelo Paulo e pela Marta
Pela Mãe 
Por mim
Para ti Pai

domingo, 8 de abril de 2012

FIM DE CICLO


"A posição de Nascimento Rodrigues no Congresso de Braga será de distanciamento."

“É de distanciamento em relação a todos aqueles que infringem o programa do PSD. Não aceito integrar qualquer lista que não respeite o Programa do partido e que pretenda transformar o PSD numa constelação de baronatos corporativistas”.

IN “ O Jornal”, 17 de Fevereiro de 1984

"Parece consumar-se o seu afastamento definitivo das lides partidárias sociais-democratas. De facto, nem sequer se inscreveu como delegado ao Congresso de Braga, o que parece manifestar uma oposição mais profunda do que aquela que resultaria da mera divergência com os resultados do último Congresso dos TSD’s. A ausência em Braga de Nascimento Rodrigues, elemento da “troika” eleita em Montechoro, será uma das provas mais nítidas do fim de um ciclo no PSD.!

IN” A Tarde” 19 de Março de 1984

“ O representante do Governo junto da Organização Internacional do Trabalho (OIT) Nascimento Rodrigues afirmou ontem ter apresentado a sua demissão daquele cargo. Nascimento Rodrigues disse que o motivo que esteve na base do seu pedido de demissão  foi a criação da dependência do PSD de uma estrutura sindical. os TSD."

Não poderia continuar a desempenhar o cargo para que tinha sido nomeado pelo Governo, no conselho de administração da OIT na medida em que considero uma verdadeira aberração a criação de uma estrutura sindical na dependência de um partido político” -esclareceu.
Nascimento Rodrigues disse que a criação dos TSD, confirmada no último congresso dos sociais-democratas em Braga, é contrária à liberdade sindical e que” por uma questão de coerência” não podia continuar a desempenhar as suas funções."

IN “ O Comércio do Porto” 30 de Março de 1984

CARTA A MOTA PINTO


“Ao retirar-me da sala na última reunião da CPN, imediatamente após a votação do projecto de alteração dos estatutos do Partido referente à institucionalização dos TSD, exprimi o estado de espírito que essa questão, e sobretudo a votação ocorrida, me suscitaram.
…….
Permito-me recordar-lhe, antes de mais, que há muito tempo já,…… esclareci sempre que uma votação favorável da CPN sobre os TSD como estrutura partidária me obrigaria à renúncia do cargo para que fui eleito. Nunca fechei portas a qualquer solução, salvo a da monstruosidade de se aprovar um organismo partidário com finalidades sindicais e outras que, na prática, não têm nada a ver com co-gestão nem com sindicalismo. De facto, quando se actua para pressionar a designação de gestores públicos, para influenciar a nomeação em vários cargos de empresas públicas, ou da Administração, ou para exercer o papel de grupo de pressão corporativa dentro do partido, é preciso um grande esforço para fingir que está em causa apenas a questão da unidade de grupos sindicais ligados ao nosso Partido. Mas esta é a questão de fundo dos TSD, a que, agora não desejo voltar senão para recordar o que foi sempre a minha posição e o aviso leal, claro feito em tempo sobre as consequências que retiraria do beneplácito de outros dirigentes do Partido a tal estrutura……
A carta continua por seis longas páginas….
“ Neutralidade, foi sempre o que aguardei de si e o aconselhei a seguir, em homenagem aos interesses da sua liderança e do equilíbrio no Partido. Nunca pretendi que o Mota Pinto se declarasse e votasse a favor de uma das partes. Intentei sempre resguardá-lo nesta questão, mesmo em prejuízo manifesto da minha própria e bem conhecida opção. Não estou certo que outros o tenham feito. Mas é também pelos processos que se conhecem as pessoas e os objectivos……..
“Não me recusará ….. de considerar-me inviabilizado de manter uma solidariedade e um apoio não apenas a si como a alguns dos companheiros que mais estreitamente o rodeiam. Não se pode fugir às consequências das situações que se deixam criar”.
E termina:
 “Devo-lhe, como última palavra, um agradecimento muito sincero pela intervenção a que acedeu e que proporcionou ao Partido os resultados inestimáveis das últimas legislativas e um sopro muito grande de esperança. Estou convicto de que o Mota Pinto mantem potencial para continuar a protagonizar a liderança que os nossos militantes ambicionam. Não se trata de um elogio, descabido nas actuais circunstâncias, mas da verdade tal como a sinto. É essa mesma verdade que me leva também a sublinhar, por outro lado, o sentimento de enorme e angustiada preocupação por verificar que companheiros nossos, cuja isenção e lisura política são incontroversas estão a afastar-se do seu rumo. O meu desejo é de que o Mota Pinto consiga agrupá-los e liderar, não uma parte mas um conjunto expressivo do que melhor existe e simboliza o PSD como partido contra extremos.
É esse o voto que lhe deixo, na certeza de que o exprimo em função dos interesses do Partido e da estima e grande respeito pessoal por si”.

sábado, 7 de abril de 2012

PÁSCOA EM CANGAMBA 2010


Procissão de entrada à igreja Rainha da Paz, no dia de Páscoa 2010, na cidade de Cangamba (município dos Luchazes, Moxico, Angola). O povo canta e dança ritmicamente para celebrar a alegria da Ressurreição de Cristo!

" Eu fui concebido nos longes de Angola, num despovoado que se chamava Cangamba, nos Luchases. Era aí que se marchava, a pé ou de tipoia mas não de jipe, para as " terras do fim do mundo", as do Cuando-Cubango. Julgo que ainda hoje se chamam assim."

IN " O TITULO e EU", primeiro post deste blogue

INDEPENDÊNCIA

“O Tempo”- Mas em que sentido defende essa independência? Um trabalhador militante do PSD deixa de o ser?

Nascimento Rodrigues- “ Defendo a independência do poder sindical face ao poder político e politico-partidário. Claro que um trabalhador social-democrata pode e deve militar no PSD. Mas milita aí como filiado do partido, trazendo a este, como é natural, a sua vivência, a sua experiência do meio social em que vive em que trabalha. Confronta essa vivência com a de milhares de outros militantes, muitos dos quais são profissionais liberais, técnicos, agricultores, industriais, etc. como é próprio de um partido interclassista. E no PSD cimenta e aprofunda os seus ideais da social-democracia, compreende a essa luz a vivência dos militantes que não têm a condição de trabalhadores, procura com eles a comunhão nas grandes linhas de política partidária. Mas não faz acção sindical no partido ou através das estruturas partidárias. Não prepara listas nem define acções nem organiza programas sindicais dentro do partido. Tem de preservar a independência de pensamento e de acção especificamente sindicais, sob pena de ser “baronizado”. Porque então deixa, verdadeiramente de ser autónomo na actuação enquanto trabalhador e membro de uma organização de trabalhadores. A Democracia é pluralista por natureza e tem de alimentar-se da autenticidade organizativa e estratégica das forças sociais que fazem a liberdade e impulsionam a criatividade e o progresso na sociedade civil. Quando começa a mistura de funções e a confusão de planos das instituições abre-se a porta à fragilização da própria democracia. A linha de combate deve ser a inversa.

“ O Tempo”- Não é uma visão pessimista?

Nascimento Rodrigues- Antes fosse. Acredito plenamente que os trabalhadores sociais-democratas não querem isso. Mas se alguma coisa lhes posso pedir, então peço-lhes que reflitam maduramente. Acontece a todos nós, muitas vezes, defendemos soluções bem intencionadas, cujos objectivos radicam no mais autêntico desejo de engrandecer o País, de fortalecer a democracia, de expandir o PSD. Mas quantas vezes essas mesmas soluções não contêm em si o germe das desvirtualização de objectivos e são plataformas de futuros desastrosos que não se queriam. O PSD, a democracia portuguesa, os trabalhadores do País devem muito a tantos e tantos militantes sócio-profissionais ou da TESIRESD que, com denodo, esforço, sacrifício da sua vida familiar e profissional têm lutado pelo sindicalismo livre, pela melhoria das condições de trabalho e de vida em Portugal, pela implantação do ideário social-democrata. As excepções de oportunismo, de baixa querela pessoal, de indisfarçado interesse por cargos e apetite por benesses, essas existem como existem em todo o lado – mas não são a expressão largamente maioritária do trabalhador social-democrata e militante do PSD.É minha obrigação exprimir-lhes este reconhecimento e não é mais do que um simples acto de justiça fazê-lo.

“O Tempo”- Mas o que defende e propõe então nestas condições?

Nascimento Rodrigues- “ Acredito que o objectivo essencial na solidariedade entre todos os trabalhadores sociais-democratas não está de todo perdido. Nunca é tarde para corrigir o que antevejo como errado e desastroso. A autonomia de uma estrutura que congregue todos os trabalhadores sociais-democratas é desejável. Mas no respeito pelos princípios e valores fundamentais, ou seja, como estrutura não partidária e como expoente do reencontro aberto de todos quantos se reclamam do mesmo núcleo essencial de objectivos.

IN “ O Tempo” 5 de Janeiro de 1984

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O QUE PARECE NÃO É


“O Tempo”- Bem dr. Nascimento Rodrigues, mas que razões mais concretas aponta contra o Congresso dos TSD? E porque só agora o faz?

Nascimento Rodrigues -“ Não, já disse que não estou contra a ideia da realização de um congresso democrático de todos os trabalhadores sociais-democratas que pudessem superar a divisão, a sangria de esforços e os conflitos pessoais entre trabalhadores sociais-democratas. Todos os militantes do PSD o desejam. O ideal seria o reencontro numa estrutura única com finalidades sindicais e laborais, no seio da qual se confrontassem leal e democraticamente as divergências quanto a objectivos, estratégias, táticas e preferências de liderança. Mas essa não pode com tal finalidade, ser uma estrutura do próprio PSD. Aí é que está o fulcro da questão. As coisas são simples: não pode haver identificação entre funções partidárias e funções sindicais. Partidos políticos são uma coisa, organizações sindicais são outra. Esta é uma aquisição consumada do pensamento democrático e uma herança irrenunciável da marcha de emancipação histórica dos trabalhadores, na liberdade, na independência e na responsabilidade.
Não é exacto que só agora me pronuncie sobre este assunto. Na Comissão Política Nacional disse, oportunamente, qual a minha posição e que atitude me reservava o direito de tomar caso o partido consentisse na criação de uma estrutura partidária com finalidades sindicais. E também em entrevista ao “Povo Livre” de 14 de Setembro último referi-me ao assunto de modo a não deixar margem a dúvidas. É certo que fiz tudo isso no interior do partido, como tem sido a linha da minha conduta.
Como vice-presidente do PSD desde 1980, sempre entendi que tais funções me impunham uma estrita e autêntica isenção face às controvérsias e lutas que se foram avolumando entre as duas estruturas de trabalhadores sociais-democratas. Porque sou originário de uma delas, a TESIRESD, maior a obrigação que senti de não interferir. Tenho a consciência tranquila a esse respeito. Neste momento, eleitos que estão os delegados ao Congresso dos TSD, conhecidas e discutidas em reuniões preparatórias as moções, já assumidas decerto as preferências dos próprios participantes ao Congresso, seria ridículo considerar-se como interferente nesta altura a expressão pública da minha opinião.”
IN “ O Tempo” 5 de Janeiro de 1984