domingo, 13 de maio de 2012

HÁ QUANTOS ANOS… ANGOLA!


Nascimento Rodrigues visita Luanda
 “ Por indicação de Cavaco Silva e Silva Peneda, Nascimento Rodrigues chefiará a delegação do Ministério do Emprego, que se desloca a Angola em missão oficial. A visita é da iniciativa do ministro do Emprego de Angola”
IN “ O Jornal,” 14 de Novembro 1988
Uma delegação técnica do Ministério do Emprego e segurança Social chefiada por Nascimento Rodrigues, parte amanhã para Luanda para manter conversações acerca da cooperação no sector laboral. A deslocação a Luanda da equipa do Ministério do Emprego, segue-se a um convite do Governo angolano, e vem na sequência de um vasto conjunto de acções de assistência técnica aos países africanos de língua portuguesa que o Ministério do Emprego desenvolve, desde há três anos, nas áreas específicas das suas atribuições.
De igual modo, a OIT tem, igualmente desenvolvido projectos na área da Inspecção do Trabalho de Angola com a colaboração dos técnicos do Ministério do Emprego português.”
IN “DN Nacional” 17 de Novembro de 1988
O ministro do Trabalho da República Popular de Angola, ao receber ontem, a delegação do Ministério do Emprego e da Segurança Social de Portugal chefiada por Nascimento Rodrigues, teve a oportunidade de, segundo informou o gabinete do ministro, elogiar a cooperação técnica com o ministério de que é titular Silva Peneda. O membro do executivo angolano expressou àquela delegação o desejo de alargamento dessa mesma cooperação, quer a nível bilateral, quer em associação do nosso país com a OIT.
A delegação chefiada por Nascimento Rodrigues tem, igualmente, em agenda um encontro com o secretário –geral da União Nacional dos Trabalhadores de Angola.”

sábado, 12 de maio de 2012

EM TUA MEMÓRIA PAI


NÃO!
“Não quero ir embora já.” Agora estou a defender na relva, não no Ferrel mas em Troia. Viemos cá uma vez. Só uma vez.
Como aquela que fomos de carro a Benidorm. Uma vez. Às vezes basta uma vez para nos marcar para todas as vezes da vida. Uma vez de felicidade pura de criança que não sabia o que era estar tanto tempo contigo e ter tudo. Porque do resto sempre tivemos muito pouco. O suficiente.
Daquela vez fomos a Benidorm. Comer tortilhas. Nós que nunca comíamos fora porque eramos muitos. Foi só uma vez. Hoje estou muitas vezes por lá a comer tortilhas. Tantas vezes que poucas vezes estive cá contigo. Mas contigo bastava uma vez.
“ Pai tive 5 a todas as disciplinas”
“ Para os melhores há sempre lugar”.
E tive uns ténis. Uma vez que me lembro e porque nessa vez eu atá precisava dos ténis. Uma vez. Quando é claro. Quando é sentido. Quando é tão verdadeiro basta uma vez.
Mas agora não vou ter mais nenhuma vez contigo. Nem mais uma vez. “ O nosso pai morreu”. Foi só uma vez. Mas parece que o momento da morte é assim: só uma vez.
“O nosso pai morreu”. O caixão corre pela calha e eu já não vejo o teu rosto frio.
“Adeus pai. Adeus pai. Adeus pai. Adeus pai….”
As palavras repetem-se no meu ser, saem pela minha boca (será que saem) e o caixão segue sem sair da calha.
“ O nosso pai morreu”. Só uma vez. Só uma vez que as cortinas fecharam e tu desapareceste para sempre da minha vida. E por isso estou a escrever. Só desta vez. De uma forma clara ( tão clara quanto os meus olhos em lágrimas permitem), tão sentido ( quanto o meu coração gelado permite) e tão sincera ( tanto quanto as minhas mãos o permitem).
E por isso estou a escrever. Só desta vez.
Para não esquecer todas as outras vezes que estavas junto de mim.
Nuno, 12 de Abril de 2010

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MAPUTO

Maputo 23 a 28 de Abril de 1988

A COOPERAÇÃO TEM TIDO RESULTADOS EXCELENTES


“ É já amanhã que Silva Peneda embarca para o Maputo chefiando uma delegação que inclui os directores- gerais do Trabalho e da Segurança Social, para além de Nascimento Rodrigues.
Objectivo: proceder a um balanço ao modo como foram executados os projectos implementados por Portugal e definir o desenvolvimento futuro da cooperação entre os dois países no âmbito do trabalho.”
“ Os projectos de cooperação entre o Ministério do Emprego e os cinco países africanos de língua portuguesa (PALOP) têm tido resultados excelentes e satisfatórios para ambas as partes. O desenvolvimento dos PALOP tem de passar pela formação técnica e profissional. Ora, o nosso Ministério está especialmente apetrechado para dar uma resposta a esse objectivo. Estamos actualmente a preparar o primeiro encontro das Inspecções de Trabalho dos seis Estados. Para o futuro, prevemos encontros regulares cobrindo todos os departamentos do Ministério, e, culminando toda esta cooperação, um encontro entre os seis ministros, tendo como objectivo acertar melhor as posições a nível internacional.”
“Segundo Nascimento Rodrigues, dois motivos estão na origem do sucesso destas acções de cooperação: um empenho pessoal por parte dos técnicos do Ministério que se deslocam aos PALOP, aliado à respectiva competência (para haver cooperação não basta ser-se competente, é preciso algo mais no campo do relacionamento humano, o que só os portugueses conseguem”), e o facto de se ter feito sentir que os projectos não são episódicos mas com” perspectivas de desenvolvimento futuro e de continuidade, o que nos dá credibilidade junto daqueles países.”
IN “O Tempo” 21 de Abril de 1988

quinta-feira, 10 de maio de 2012

VAMOS MUITO BEM


“ Nascimento Rodrigues, homem ligado à cooperação com África, perito da OIT para assuntos africanos, trabalhou na elaboração da legislação laboral na Guiné Bissau, e em S. Tomé e Príncipe. Esteve em Cabo Verde. Conhece África “como as suas mãos”. Ele próprio é um africano - de Angola. Dirige o Gabinete de Cooperação do Ministério do Emprego. Uma política definida assim:”
“ Somos pragmáticos, Ganhámos credibilidade. De boas palavras e de boas intenções os países africanos de expressão oficial portuguesa estavam fartos. A política de Cooperação no que toca a este Ministério tem dois eixos fundamentais: enviamos técnicos a África, que dão apoio aos ministérios homólogos. Recebemos em Portugal técnicos africanos que estagiam nas nossas estruturas e empresas portuguesas. A prova de que a Cooperação com África está a ter bons resultados, está no convite que, no ano passado, o Ministro do Trabalho de S. Tomé e Príncipe e actual Primeiro-Ministro daquele Estado, fez ao Ministro do Trabalho português. Mira Amaral. E no convite que Moçambique agora fez, que merece honras especiais, uma vez que é fruto de uma resolução do próprio Conselho de Ministros”.
“Nascimento Rodrigues não recusa que a sua intervenção em África, enquanto perito da OIT facilitou o que vem sendo desenvolvido na Cooperação entre Portugal e os estados africanos de língua oficial portuguesa. Nascimento Rodrigues fala das condições que se oferecem aos técnicos portugueses e do que os africanos esperam de nós.”
Queremos que a OIT e as estruturas das Nações Unidas recorram aos portugueses. Que contratem os nossos técnicos. Eles chegam a África e têm uma capacidade de diálogo, de entendimento, que nenhuns outros são capazes de ter.”
“As diferenças políticas entre Portugal e os países africanos não são obstáculos. Nem as diferenças no que toca à organização económica e social”:
“ Os portugueses intervêm nos aspectos técnicos, ajudam. Não interferem nos problemas internos, nas decisões de política que apenas competem aos Governos desses países”.
“ Para Nascimento Rodrigues tem havido uma contabilidade errada na cooperação portuguesa em África”:
“ Os números parecem pequenos porque a cooperação está dispersa. No dia em que toda a cooperação for coordenada, ver-se-à que o volume despendido é muito superior ao que se diz. Essa coordenação é essencial, para que os esforços, que são muitos, não se percam. Nos meus contactos com África verifiquei que esses novos países têm uma grande estima por Portugal, que querem a nossa Cooperação, que os portugueses continuam a ser fundamentais para o desenvolvimento de África. E penso que nós, portugueses, não devemos desperdiçar as oportunidades para desenvolver essa cooperação.”
Por Nuno Rebocho, IN” O Século,” 16 de Abril 1988

segunda-feira, 7 de maio de 2012

FEITIÇO DE S. TOMÉ

Voltei de novo a ver-te toda verde
a brisa atlântica enfeitada de espumas
brincando em teus cabelos de palmar...
Trouxe-te recordações de fantasias
elegias, canções, notícias de jornal
o pranto moreno da mulher ausente
e estes sonhos sempre renascendo.

Nada me disseste e nem escutaste 
nem tiraste o teu olhar do horizonte...
Que estranho sortilégio te embruxou
que nem sequer sabes já quem sou?...

Puseste mágoas de nada em nosso encontro
e perco-me em ti por me encontrar ausente.

Albano Neves e Sousa IN " Macuta E Meia De Nada"
S. Tomé 1969

NÃO É SIMPLES GANHAR A VIDA


1988. O Henrique regressa, pela última vez a S. Tomé. O seu ciclo africano está a chegar ao fim.
Depois do terreno desbravado, das sementes lançadas à terra, é altura de encarar outros desafios.
“Não sei bem o que contar-te, pois não há propriamente novidades. Estou instalado na Pousada, claro. A alimentação tem sido um pouco melhor do que a do ano passado, pelo menos há pão, arroz e peixe e fruta. Não há é café e já se esgotou o frasco de Nescafé que trouxe. Mas comprei aqui na loja franca quatro caixas, embora a 900 escudos cada uma! Até agora tenho estado a trabalhar num gabinete do Ministério do Trabalho mas creio que amanhã ou depois passarei para outro edifício. Têm dificuldades em arranjar secretária, cadeira, etc.
A minha vida tem sido muito mais pacata do que o ano passado, o que se torna aborrecido por ser solitário. Já fiz um projecto de diploma e agora vou trabalhar noutros. Começo a trabalhar às 9 até ao meio dia, depois venho almoçar, recomeço por volta das 3 e às 5 acabo e volto para a Pousada. Como vês isto é um repouso… tenho-me sentido um pouco melhor com o tratamento e também, possivelmente, porque não bebo café, vinho e a comida é o mais simples possível, quase sem molhos. Vamos a ver se no aspecto da saúde, eu aproveito estas estadias, estou convencido que sim, sentia-me mesmo precisado de repouso.
O tempo tem estado todos os dias chuvoso, com mais ou menos chuva. Não conhecia S.Tomé assim e acho tristonho. África não o é sem sol. No sábado fui à praia e disse ao motorista para voltar às 5. Começou a chover e fiquei dentro de água uma hora, pois era mais quente do que cá fora e apanhava menos chuva! Mas nem sequer tem estado tempo de sol para praia para meu aborrecimento.
A pedido meu, passei a guiar o jipe. Sai mais barato, pois poupa-se combustível ( em vez de oito viagens diárias são apenas 4) e não estou prisioneiro do horário do motorista. Mas à noite tenho ficado sempre cá em cima na Pousada, pois a cidade ainda fica a meia hora de caminho (que não é fácil) e ao fim e ao cabo também não há muita coisa para vêr ou fazer-se.
Quando regressar, vou ter um mês de Março um pouco agitado. Tenho que ir aos Açores e de novo a Dublin. Enfim, vamos a vêr se vou com forças físicas, que são as mais necessárias.
Diz aos filhos que espero que estudem e tirem boas notas, pois isto de ganhar a vida não é simples nem agradável.”
S. Tomé e Príncipe 16 de Fevereiro de 1988
“Continuo a sentir-me melhor. A vida tem decorrido muito monótona e sensaborona, nada que se compare com o ano passado. Tenho feito só trabalho de gabinete e isso não me entusiasma nada.  Mas, enfim, é preciso calma e saber “semear” para o futuro, se é que vou ter futuro neste âmbito da cooperação com África. O tempo continua tristonho, quase sem sol, e assim não parece África, só que, de facto faz calor. Ontem, então, parecia um dia de pleno inverno em Lisboa – e nós de mangas de camisa!
Tenho repousado, claro, ainda que não durma muito. Mas como regresso à Pousada por volta das 6 da tarde, a partir daí isto é uma calmaria.
S. Tomé 23 de Fevereiro de 1988