quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CUIDADO… OU ENTRAMOS EM DERRAPAGEM


Partilha da ideia que quem é mais sobrecarregado, a nível dos encargos fiscais, é quem mais trabalha?

Nascimento Rodrigues – “Seguramente, são os trabalhadores por conta de outrem. É escandaloso o nível de fraude de evasão fiscal no nosso País. A reforma fiscal é prioritária, a minha dúvida está em saber se é apenas para mudar as leis, ou sobretudo para pôr a administração fiscal e tributária a funcionar. Tirando casos excepcionais, o que verificamos é que as inspecções não funcionam e há violação dos direitos dos cidadãos. E depois há a reclamação para o Provedor ou o recurso para os tribunais. O cidadão não acredita na administração pública, na classe política, nos dirigentes, nos governos, e entramos em derrapagem. A Administração fiscal e tributária precisava de ser reequacionada para ser mais operacional e controlar melhor. Haverá sempre situações de fuga, isso é um problema de cultura da própria sociedade. O Orçamento do Estado não tem as receitas que precisaria para suportar as despesas, sobretudo as sociais, de que o País ainda carece. A economia paralela é um cancro. As pessoas que trabalham na economia paralela não têm protecção social, aí está uma área em que deviam actuar a inspecção de Finanças e do Trabalho.”  
IN “Jornal de Leiria” 24 de Janeiro de 2002




terça-feira, 30 de outubro de 2012

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA EM PANTANAS


Diário de Notícias, 19 de Novembro de 2000, – Entrevista Nascimento Rodrigues

“ Assume-se como um homem pouco dado a mediatismos e faz questão de se apresentar como um africano de gema. Não só por ter nascido em Angola, esclarece, mas porque teve a hipótese de percorrer e conhecer todas as ex-colónias portuguesas em solo africano. O gosto pelo continente ficou-lhe no sangue e transporta-o para todo o lado.”

Preocupação. “Não quero que a Administração Pública encare o provedor de Justiça como um guerrilheiro, um bloqueio ou um homem que a aborrece”

Quem procura mais os serviços da Provedoria?

Nascimento Rodrigues – “ O maior volume de reclamações vem dos funcionários públicos contra o Estado-patrão. Todo o funcionalismo público incluindo as Forças Armadas. Queixam-se das condições de trabalho, dos concursos, de não terem sido promovidos, de não lhes contarem a antiguidade… Ora, se se queixam ao provedor é porque não encontram, dentro da sua própria casa, satisfação para as suas queixas. Isto diz-nos que o Estado é mau patrão. Se a administração de uma boa empresa não se preocupar com os trabalhadores e não tiver uma boa política de recursos humanos entra em pandemónio. Olhando para o número de queixas concluímos que a administração pública entrou em pantanas na gestão dos seus recursos humanos.
Há sectores da Administração Pública, seja central, seja autárquica, que são muitíssimo relapsos na resposta a dar ao Provedor. Estes casos acontecem com demasiada frequência revelando uma falta de cultura democrática por parte de alguns sectores da nossa Administração.
Gostava de ser encarado como um agente de cooperação, até porque não tenho poderes decisórios vinculativos. A Administração Pública tem de perceber que não estou aqui para condenar ninguém. Se sou encarado como força de bloqueio não resolvo os problemas dos cidadãos.
De pouco vale que a lei diga que as entidades públicas têm o dever de cooperação com o provedor e que a infracção pode dar lugar a processos disciplinares ou a crime de desobediência (que eu tenho o poder de comunicar ao Ministério Público para efeitos criminais). Mas não tenho ideia que alguma vez o provedor tenha colocado ao MP uma denúncia por crime de desobediência. E, no entanto, há uma infracção muito frequente a este dever de cooperação. A verdade é que não podemos continuar a resolver os assuntos com “ofício para lá, ofício para cá”… Por telefone, novamente por ofício… Isto não pode continuar, porque é o cidadão que está a ser prejudicado”.

Diário de Notícias 19 de Novembro de 2000


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ODE AO COLONO PORTUGUÊS

anónimo desbravador da brenha virgem
deixou
na aldeola natal
a jaleca garrida dos dias de romaria
abandonou
os pais já velhos e a noiva prometida.
mochila às costas
botou-se  mares a dentro
rumo aos sertões ignorados das terras novas
que à terra velha o Português ia mostrando
emagreceu-lhe o rosto
lá nesses mundos de perdição
bronzeou-se-lhe a pele
à torreira ardente do sol dos trópicos
calejaram-se os dedos
ao romper o solo duro e estranho
não vacilou um só instante
trabalhador infatigável homem de tempera rija
machada a machadada
derrubou o emaranhado da selva inóspita.
sacha que sacha
arcou sozinho com a canga da desilusão
o travo amargo da derrota.
depois
na roda dos tempos
o tempo rodou.
outros vieram
gerações novas
criaram novas gerações
e o colono ficou para trás
esquecido na loucura do futuro
e na tontura do progresso
velho e alquebrado
pendurou o ancinho num prego da parede
lançou o último olhar
sobre a imensidão daquela terra amarga
cumprida a missão em que se empenhara
ficou descansando
na campa fria e sem lápide
dos heróis desconhecidos

Escrito pelo Henrique aos 17 anos.quando frequentava o 1º ano da Faculdade de Direito da Universidade Clássica, Lisboa, 1958

sábado, 27 de outubro de 2012

FORMAR E INFORMAR PARA A CIDADANIA


Actualidade Jurídica”- Portugal/Press nª 39/40- Setembro/Outubro de 2000

Pergunta- Despindo a “veste de Provedor” como é que o Dr. Nascimento Rodrigues encara a actual situação da Justiça?

Nascimento Rodrigues – “ Como sabe, de um ponto de vista institucional, o Provedor tem uma  muita reduzida intervenção no sistema judicial. A que tem, por força de reclamações sobre atrasos em processos judiciais, canaliza-os para o Conselho Superior da Magistratura, ou consuma-a por via informal. Deste ponto de vista, é gratificante o relacionamento do Provedor com as magistraturas.
Mas como cidadão, a minha própria experiência é frustrante. Sou testemunha de defesa de um amigo meu em processo  crime de difamação por ele instaurado, já lá vão uns sete anos. Já fui, com as demais testemunhas, mais de quinze vezes a tribunal para depor. Creio que só foi ouvida uma ou duas testemunhas e repetem-se os adiamentos das sessões de julgamento, por falta de arguidos. Isto descredibiliza a Justiça, cria ira nas testemunhas presentes, tem um custo enorme no plano da confiança no sistema judiciário e também no bolso dos contribuintes que somos todos (ou muitos)
Mas estou confiante porque a crescente informação sobre a crise do sistema judicial levou a um “toque de rebate” agudo. É preciso informal mais – mas é preciso, sobretudo, informar melhor, porque também os magistrados têm direito a ser ” julgados “ com verdade. Se há razões de queixa, sérias, também existem críticas infundadas e superficiais, fruto do desconhecimento ou, por vezes da má fé.
Daqui retiro uma conclusão, que tem a ver com outra vertente do papel do Provedor de Justiça: é absolutamente necessário formar e informar para a cidadania desde os bancos de escola até ao longo da vida. Logo, é necessário reforçar a difusão do conhecimento dos direitos dos cidadãos – quer dizer, reversamente, a sensibilização para os deveres cívicos.”
Pergunta – O que o satisfez mais, até agora, no seu ainda curto mandato? E o que o satisfez menos?
Nascimento Rodrigues – “ Satisfez-me encontrar uma equipe de colaboradores jovens e empenhados.
Satisfez-me receber algumas cartas de cidadãos anónimos, reconhecidos pela solução que encontrámos para as suas queixas. Satisfez-me perceber que esta instituição é olhada com muita confiança, pelos cidadãos e pelos poderes públicos.
O que mais me desagradou? Bem… algumas entidades públicas muito relapsas nas respostas à Provedoria! E também alguns queixosos: uns, tão repetentes que não entendem estar a atrasar, afinal, as reclamações dos seus concidadãos; outros, tão expeditos, que se queixam ao Provedor de actos que a Administração ainda não decidiu e não lhes comunicou! Tudo isto é também uma questão de cidadania”  
                                                                     
Lisboa, Outubro de 2000


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

FALTOU… CONTINUAR


FALTOU… CONTINUAR
São fotografias
 enormes
pequenas
ou já sem cor
de jornais
ou de revistas
mas és tu
o meu amor
Teu cabelo
 é branco cinza.
Teus olhos
são de criança
cheios de brilho
e de luz.
Irradiam
toda a esperança
e desejo de voltar
(como nos tempos da Chela)
a ser o  menino
de escola
que sonhava 
SER UM HOMEM.
São fotografias
agora
que me levam
a pensar:
TUDO CORREU COMO QUERIAS.
Mas choro:
faltou-te o tempo
da colheita
junto aos teus.
Do descanso.
Faltou-te o tempo
da escrita,
da leitura,
Um tempo
que não viveste
mas que tu querias
sonhar.

Faltou…

Continuar

AS QUEIXAS CHEGAM DE TODO O LADO



Diário de Notícias – 19 de Novembro de 2000

Pode destacar uma queixa que tenha recebido desde que está na Provedoria?

Nascimento Rodrigues- “ Recebi uma queixa de alguns cidadãos timorenses contra eventuais atentados aos direitos humanos cometidos pela administração colonial portuguesa durante os anos 50 na zona de Viqueque. Esta queixa foi recebida há três meses e enviada de Timor. Queriam saber se seria possível uma reparação civil. A instrução do processo, para já, foi neste sentido: nós não temos provas nenhumas de que tenham sido cometidos os actos invocados. Em segundo lugar, permiti-me fazer uma reflexão para os nossos amigos timorenses: disse-lhes que passados 50 anos sobre acontecimentos de que não temos provas, talvez não fosse altura de reabrir feridas. Depois, para além dos conselhos puramente legais, formulei uma apreciação pessoal: devemos olhar para o futuro, Portugal está apostado em ajudar Timor e é isso que nos deve preocupar e não eventualmente o que se passou há 50 anos.

Mas estes atentados contra os direitos humanos não prescrevem…

Nascimento Rodrigues- “Não, não prescrevem e, por isso, eu dizia que a solução legal seria a criação de uma comissão tal como a que foi criada após o 25 de Abril para apurar casos de perseguições a cidadãos das ex-colónias. Mas as feridas devem-se curar, sobretudo num momento em que os portugueses estão lá a arriscar a vida pelos timorenses. Passados três dias depois de ter escrito a carta morreram os militares portugueses. Parece que foi premonitório…
IN “ Diário de Notícias”, Domingo, 19 de novembro de 2000



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

RETRATO DE UM HOMEM SÁBIO



Nascimento Rodrigues, Provedor de Justiça – “ Sinto-me incómodo para o sistema”.
 Recusa a imagem do “justiceiro,” mas não abdica do papel de “justo”. Eleito há dois meses e meio para o cargo de Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues afirma que quer “ sair da montanha de processos” e ir ao encontro do “país real”. Nesta primeira entrevista desde que tomou posse, saiba o que o novo Provedor pensa, não apenas das funções que exerce, mas de temas candentes como a descriminalização da droga, espoliados, co-incineração, etc. etc.
Descriminalização do consumo da droga
É minha opinião que (o consumo) deve ser descriminalizado. Não consigo entender, de maneira nenhuma, como é que “ressocializamos” uma pessoa que se droga, mandando-a para a prisão… Mas isto não pode ser dito isoladamente. O que é que vamos fazer para melhorar a prevenção? Não ouço discutir muito isso, e isso precisa de ser discutido. E o que é que estamos a fazer para combater o tráfico? Portanto, nós não vamos resolver o problema, com esta lei. Só vamos resolver uma coisa que a meu ver está certa: uma pessoa que se droga não resolve o seu problema se a mandarmos para a prisão”.
“ Se sou favorável aos referendos? Democraticamente não posso estar contra. Mas com uma condição:
os referendos pressupõem uma informação, longa e prévia sobre a matéria a referendar. Neste problema da droga eu sou favorável, em teoria, ao referendo, mas tenho algum receio da maneira como se põe o problema. Porque pôr o problema desta maneira: “sim” ou “não” à droga… É óbvio que se eu não souber o que está a ser discutido, eu digo “não à droga”. Como qualquer pessoa normal tem que dizer “não à droga”. E assim desvirtuámos aquilo que está a ser discutido. É preciso que o povo saiba, rigorosamente sobre o que está a ser auscultado! Porque senão há manipulação – que é democrática – mas que é má.
Dia mundial sem carros
“ Não vou ser politicamente correcto… É preciso raciocinar como cidadãos normais, e o Provedor é um cidadão normal. Penso que as pessoas estão de acordo com o sentido e com a ideia que estão subjacentes a esta iniciativa. Mas se me dizem que a iniciativa é para sensibilizar, eu penso que vai ter efeitos perversos. Isto vai criar problemas a muitas pessoas que em vez de ficarem sensibilizadas para a necessidade de melhor ambiente, vão ficar extremamente irritadas. Levamos as pessoas a ter uma reacção humana, contrária àquilo que se pretende.
Espoliados do Ultramar
“ Os casos de reinserção, quer do ponto de vista de ocupação das pessoas, quer do ponto de vista da contagem de tempo, eu penso que, na generalidade, estarão resolvidos. Penso que Portugal, nesse aspecto, foi razoavelmente feliz. Nesse aspecto… Agora quanto à indemnização de bens, esse é um problema político e de justiça obviamente. Trata-se de cidadãos portugueses, que fizeram a sua vida nas ex-colónias, deixaram lá todos os seus bens…
Co-incineração
“ Acho que é uma questão tão grave e tão complexa que tem momentos de afluxo e refluxo. Quando se diz “vamos fazer”, temos as manifestações, os protestos, a Assembleia, e durante um ou dois meses todo o país fala nisto. E depois morre! Ou não está morto neste momento? (…) Também se pode dizer que a comissão está a estudar o assunto… Mas enquanto eles estudam, o problema poderia continuar a ser debatido. Nós somos um povo assim… As culpas também são nossas, não são só das instituições. Isto é fundamentalmente um problema de participação das populações… que não devem ser ocasionais ou pontuais.
IN “O Diabo”, 3ª feira, 19 de Setembro