quinta-feira, 7 de março de 2013

NOITES DE ANGOLA


Na entrevista conduzida por Ana Sousa Dias o Henrique confessa, como lemos, que tem saudades da sua terra, dos seus cheiros das suas cores. Aos 17, 18 anos, o Henrique era só emoções, sentimentos à flor da pele, que se revelavam  quando escrevia, e podem crer que escrevia muito. Neste texto de 1958, podemos sentir a mágoa  de alma por estar longe da terra onde nasceu:
“Noites da minha terra! Noites que são pedaços de mim próprio, porque na pureza do ar está a pureza da minha alma e, na sensualidade do mistério que as envolve, está a sensualidade do meu sangue quente desse sangue que eu sinto ferver dentro de mim!
Oh, noites de Angola! Noites de magia tropical, de sedutora beleza e perfume inebriante! Noites puras e sensuais ao mesmo tempo, em que a alma ingénua de uma criança se possa aliar ao sangue quente da mocidade! Noites que não têm principio nem fim, porque nasceram não se sabe quando, e morrerão só quando deixarem de ser noites de Angola.

Noites de Angola! Noites da minha terra! Poemas imorredoiros de Amor e Paz, escritos pela Mãe Natureza, destes à luz da vossa sombra a alma eternamente enamorada que eu sou!
Noites de Angola – porque tão longe me ficastes?
Saudade meu bem Saudade"……

Lisboa 1958

terça-feira, 5 de março de 2013

LINDEZA

O REGRESSO


Hoje regressamos à entrevista à Antena 1, conduzida por Ana Sousa Dias, para falar de Angola

Ana Sousa Dias – Estamos na Atena 1 a ser ouvidos na RDP África. Esta é uma casa cheia de pessoas de Angola que querem falar de Angola e do passado. Voltou a Angola mas só voltou a Luanda, mas não era a Luanda que queria voltar. Porquê?

Nascimento Rodrigues "Não, de facto. Nasci no Luso, Luena, no Moxico. Estudei na antiga Sá da Bandeira Lubango. Usávamos capa e batina,  fazíamos serenatas às meninas, espero ter feito alguma serenata à minha mulher, não tenho a certeza, e gostava de voltar a Angola para rever o Luena e o Lubango.
Eu saí de Angola com 17 anos. Tenho saudades da Terra. Costumo dizer isto às pessoas - Portugal é a minha Pátria mas Angola é a minha terra. Isto não é uma questão de lei é uma questão de coração. Gostava de ver a terra, sentir os cheiros, entrar numa senzala, sentar-me no chão e comer à mão o pirão da mãe negra".

Nota: O Henrique voltou ao Lubango em 2006. Não voltou ao Moxico. Não voltou a entrar numa senzala, para juntamente com os seus amigos, comer o pirão da mão da Mãe negra.
Mas os cheiros, as cores, estavam lá. Renovou a memória. Lembro-me de me ter dito nessa ocasião: pronto, não preciso de voltar.

MONAME



Moname ku tunde
Ku tunde n'go - ue
Moname zeka - ie
Mungu n'gu nome
Ai moname zambe iàme
Ai moname zambe iàme
Ki uijimbidila
Mavua ma n'gui tula
Moname oh m'bolo
N'gui sanguela kuebi
Moname zeka - ié
Mungu n'gui mone

segunda-feira, 4 de março de 2013

CHEGAR A CASA DOS CIDADÃOS


Em 2005, “no quadro das iniciativas de celebração do 30º aniversário do Provedor de Justiça” assina-se um protocolo entre o Provedor de Justiça e a Administração dos CTT. Para quê? Para aproximar o Provedor dos Cidadãos através da distribuição “ pelas caixas de correio dos cidadãos, residentes em localidades a escolher, de 1 milhão de desdobráveis explicativos das atribuições do Provedor de Justiça e das formas, aliás muito simples, de reclamações junto deste órgão de Estado”.
Diz o Henrique durante a cerimónia de assinatura:
“Passados trinta anos sobre a data da criação do Provedor de Justiça poderá, eventualmente estranhar-se a necessidade desta iniciativa (…).É seguro que, ainda hoje, se revela muito útil elucidar melhor os cidadãos e as empresas sobre as atribuições do Provedor de Justiça, pois é inegável que subsistem algumas confusões arreigadas.
A primeira deriva da própria designação “Provedor de Justiça”, aliás tão ressonante. Ora, o certo é que, muitas vezes, o cidadão é levado a supor que ele tem poderes para se introduzir nas questões dos tribunais, isto é na Justiça. Não é assim. O Provedor de Justiça não pode interferir nas decisões dos magistrados, como igualmente não pode interferir nas opções políticas dos órgãos competentes. Verdadeiramente, também não tem poderes decisórios em relação à actividade administrativa dos poderes públicos, quer dizer, não pode ordenar. Ele apenas sugere, propõe, recomenda – e nisto, ao fim e ao cabo, reside o núcleo da sua magistratura de influência.
Não são raras, também, as confusões entre o papel do Provedor de Justiça e o Procurador-Geral da República, de tal modo que me escrevem, por vezes, referenciando-me ou como Provedor da República, ou como Procurador-Geral da Justiça…. Verdade seja que ao Senhor Procurador- Geral da República sei que ocorrem idênticas situações, o que demonstra a confusão a que aludi.
Em fim, os dados estatísticos sobre a origem geográfica das queixas dirigidas ao Provedor de Justiça evidencia a existência de um certo número de distritos de onde advém, sistematicamente, um menor número de reclamações. É o caso de Bragança, Vila real, Guarda, Castelo Branco, Braga e Aveiro.
Por isso se me afigurou indispensável que o Provedor de Justiça procurasse chegar a casa dos cidadãos com um simples folheto explicativo sobre as suas atribuições e competências.”
Lisboa, 20 de Abril de 2005

domingo, 3 de março de 2013

TRÊS ANOS

O tempo têm-nos dado razão. Para nós, Família,  a alma da nossa democracia morreu a 12 de Abril de 2010, mas a sua agonia começou, pelo menos, dois anos antes.
Sim, ainda alguém se lembra da vergonha que sentimos ao ver um Parlamento, enredado em interesses partidários, deixar suspensa, por um ano, a obrigação legal de substituir o Provedor de Justiça? É que a lei é muito clara. A Constituição da República portuguesa, no seu art. 163º, e o Estatuto do Provedor de Justiça impõem, que este seja designado pela Assembleia da Republica nos 30 dias anteriores ao termo do quadriénio.  
Isto significa que, terminado o quadriénio do 2º mandato como Provedor de Justiça, a lei imporia que a designação do seu substituto tivesse ocorrido entre Maio e Junho de 2008. 
Teve que renunciar um ano depois, a 3 de Junho de 2009.
Desde então o que temos visto?
Olhamos o País, ouvimos os actores políticos, sentimos os “média”, e perguntamos:
Que aconteceu ao País que o Henrique nos ensinou?
Que aconteceu às balizas que aprendemos a respeitar?
Que aconteceu às linhas que não se podem ultrapassar?
Que aconteceu ao sentido de unidade do Estado que toda a vida defendeu e pelo qual lutou até ao fim?
O que aconteceu à “verdade acima de tudo” e à coerência de vida?
Onde estão os políticos com P grande?
Onde estão a solidariedade e a justiça social, pilares da democracia?
Quem os defende?
Quem dá a cara por eles?
Quem?
O Henrique, o nosso grande Amigo , o nosso Pai, o nosso Avô morreu a 12 de Abril de 2010. Há três anos.
Mas, se sentimos que com ele morreu a alma da nossa democracia, sentimos também o dever de tudo fazer, para que não se perca o que semeou.

sábado, 2 de março de 2013

NEO-LIBERALISMO/SOCIALISMO

Como País, como Povo, como Nação, olhamos perplexos, incrédulos, preocupados com o nosso futuro comum. Perguntamo-nos: que faria, que diria o Henrique? Como nos orientaria?
Disse um dia a nossa filha Sofia: «O espírito de Deus sopra onde quer e como quer. Estou convencida que sopra neste blog». Nestes momentos de incerteza recorremos aos textos políticos que  escreveu, às suas reflexões Constituem para nós, família, um legado que nos orientará toda a vida. Se a partilha deste privilégio contribuir para  a edificação de uma sociedade mais justa, então a sua memória nunca se apagará!

«No contexto destas dificuldades, observo que uma corrente de pensamento, dita neoliberal, propugna soluções que considera as mais adequadas à solução dos problemas de crescimento, da competitividade e do combate ao desemprego, e essas soluções passam, nuclearmente:

1º pela desregulamentação ( a que pudicamente chamam flexibilização) do mercado de trabalho

2º pelo desmantelamento, ou, pelo retrocesso acentuado das garantias dos sistemas de protecção social (no sentido amplo do termo).

3º pela filosofia nuclear de que a história da humanidade revela que a solidariedade não é compatível com a liberdade de mercado, com o espírito de iniciativa e com o legítimo direito de os “melhores”se constituírem em vanguarda do progresso da humanidade.

Em contrapartida a esta corrente de pensamento, o socialismo, que se reclama de democrático e evolutivo, já não oferece também respostas credíveis salvo nas situações em que o liberalismo selvagem não permitiu aos cidadãos outra escolha alternativa, exactamente porque ele demonstrou ser incapaz de resolver o problema social e os desafios de um crescimento saudável e de uma competitividade que não se traduz em agravamento das discriminações sociais, em proteccionismos nacionais, impensáveis num mundo de internacionalização das economias, num dualismo inaceitável dos que têm trabalho e dos que o não conseguem ter, do divórcio insuportável da desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres, entre gerações, entre excluídos e integrados.

Uma resposta social-democrata implica, pois, esta equidistância entre neo-liberalismo e socialismo. Mas uma equidistância não se valora, nem se identifica, apenas ou sobretudo, por critérios quantitativos. Pelo contrário: é pela dimensão social e qualitativa, pela valoração ideológica, pela postura de rigor humanamente pragmático, que devemos proclamar a nossa diferença e a nossa convicção de que o futuro passa pelas nossas ideias e pelos nossos homens, mulheres, jovens e idosos.»

5 de Maio 1994