quinta-feira, 7 de novembro de 2013

DESERTO

Agir como tu. Sentir contigo. Dizer… nós. Já não é. Nem presente nem futuro. É assim a morte. Mesmo quando, em pensamento, estás aqui.
Para te encontrar, mudei de continente. Tinha 15 anos. Nunca me orgulhei de algo que eu fosse. Só de ti. Orgulho por me teres escolhido. Orgulho por ser mãe dos teus filhos. Orgulho enorme por ser avó dos teus netos. Orgulho por ter vivido ao teu lado desde sempre. Orgulho pelo nome que contigo partilho. Humildade, agradecimento, porque a vida me proporcionou este trajecto.
Um trajecto de amor, de companheirismo, de partilha. Num livro que escreveste, talvez 2003, deixaste uma dedicatória : “À Maria Isabel, a quem devo ter tido uma vida feliz”.  
Escrevo isto para te dizer como é difícil a saudade. Escrevo isto para te dizer como é difícil o presente, como é difícil continuar a ser, quando tudo á nossa volta já não é. Quando à nossa volta se instalou a ignorância, o improviso, a falta de rumo, a incoerência, o deserto. Não me refiro só ao deserto de ideias, mas ao deserto de soluções, ao deserto de amor, ao deserto de solidariedade, ao deserto de tolerância, ao deserto de democracia.

Fazes muita falta, Henrique!    

sábado, 12 de outubro de 2013

EM JEITO DE DESABAFO

Não sei fazer comentário político. Não sei o que dirias se estivesses connosco, hoje, dia 12 de Outubro. São 42 meses de uma aprendizagem de vida sem ti, sem a tua inteligência, sem a tua capacidade de ver mais longe, de saber dar a volta às contrariedades do dia a dia.
Talvez por isso, talvez porque não consigo aceitar, tenho  que falar do próximo Orçamento do Estado. Ouvi Paulo Portas lançar o anátema, demagogicamente, sobre as pensões de viuvez, designadas por pensões de sobrevivência.
Afinal ser viúvo é a condição de alguém que percorreu durante anos, 40? 50?, esse caminho que se chama vida com um companheiro/companheira, e que o perdeu. Até que a morte nos separe!
Penso que não é por acaso que a lei protege o cônjuge sobrevivo, mesmo quando este já tem uma pensão própria. A casa onde ambos viveram é a mesma, só falta quem morreu. Os filhos, os netos, são os mesmos. Falta quem morreu. As responsabilidades assumidas a dois são as mesmas. Falta quem morreu. A vida continua inexorável. Falta quem morreu. O cônjuge sobrevivo está só. Resta-lhe a consolação de saber que, em vida, se pensou nessa possibilidade. Resta-lhe um conforto: saber que a sua falta não trará, a par dessa dor imensa que é a perda do companheiro, a perda de algum conforto material para a velhice, que ambos prepararam.

O desaparecimento dessas pensões não é só, mas também, monetário. É uma afronta à memória dos que morreram. À memória de muitos que nem tiveram tempo para “gozar” a reforma porque trabalharam para todos nós até aos 70 anos. À memória daqueles que em vida fizeram um contrato com o Estado – pessoa de bem, pensavam eles – e que agora trata os sobrevivos como criminosos que, escandalosamente, acumulam pensões!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

41 MESES DE AUSÊNCIA

Há textos que não podem ser escritos. Não se transmitem. Porque se sentem. Hoje. 41 meses. De uma ausência. Que é presença. Permanente.
O “Ouvidor do Kimbo” faz parte dessa ligação, desse sentimento de pertença, desse espaço que se alarga em cada dia que passa. Neste blogue o tempo não corre. A história que contámos, teve princípio. No meio ficou a vida. O fim está suspenso nos dias que continuam. O Henrique permanece aqui. Em casa. Com a família. Com os amigos. Não envelhece. Está. É. Sempre será.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A HISTÓRIA DE UM COLONO

Encontrei esta história, real, no livro de Adriano Vasco Rodrigues intitulado: “De Cabinda ao Namibe” -  Memórias de Angola, na segunda edição de 2011.

É a história de um jovem nascido numa aldeia da região da Guarda. Nos anos 20, do século passado, termina o então 7º ano dos liceus. É o segundo de nove irmãos. Tem que dar rumo à vida. Procura emprego. Concorre, assim, ao Quadro Administrativo das Colónias. É aceite. Embarca para Angola. Viagem longa, beliche estreito, tão estreito, que passa os dias no convés. Os enjoos, o calor insuportável, a isso o obrigam.

Luanda era, à época, uma cidade poeirenta. Longos muceques ou areais cobertos de cubatas e casas rasteiras. Calçadas, meia dúzia.

Depois de um estágio breve o nosso jovem é enviado, como “Aspirante”, para os Luchazes, nos confins do planalto angolano. Quarenta e quatro dias de marcha interminável a pé ou de tipoia. Encontro com os embondeiros. Travessia do Quanza em jangada. Para lá do Dondo uma dolorosa subida para o planalto.
Atravessa, espantado, os altos morros da Kibala, comparando-os com os cumes agrestes da sua Serra da Estrela. Percorre as chanas e as planuras do Bié. Passa por aldeamentos. Pernoita em cubatas. Finalmente, entra no território dos Luenas governado por uma rainha.

No povoado, que lhe destinaram, foi durante anos o único branco, nem padres, nem comerciantes, nem militares.
Viveu numa cubata de colono até construir com a ajuda dos africanos, a sua própria casa de adobe. Jornais e notícias não havia. Rádio não existia. O que se passava em Lisboa e em Luanda ignorava-o.
Naquela área as populações africanas andavam em revolta por causa do sal. Os brancos prometeram levar-lho mas faltaram à promessa.
Para resolver o assunto foi ao Moxico Velho. Reclamou um saco de sal e distribui-o, equitativamente, ganhando a confiança das gentes.
Anos mais tarde regressa à Metrópole para terminar os estudos na então Escola Superior Colonial, (mais tarde  Instituto Superior de Estudos Ultramarino).
Termina a sua carreira como Governador do Distrito da Lunda.  
Esta é a história do bisavô dos meus catorze netos. O seu nome, António do Nascimento Rodrigues.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

AMIGOS VERDADEIROS

Na minha recolha de memórias encontrei histórias, poemas, pequenas notas, coisas esquecidas.
Para encontrar é necessário revolver, procurar. Está cá tudo dentro. Não sei se na alma se no coração. Em 1953, na hora da despedida - o pai tinha sido transferido do Luso para Sá da Bandeira, (o Henrique não tinha entrado, ainda, na minha vida), um poema de um mestre, de um amigo, que marcou profundamente o seu gosto pelos livros, pelo saber, e, pelo saber dizer.  



Cuidado, Henrique, porque nesta vida
Nem todos são amigos verdadeiros!
Duvida dos que forem lisonjeiros
Porque tal ralé é só fingida.

Porque uma parte – a parte mais crescida –
É feita de um punhado de matreiros
Que te abandonarão, entre os primeiros,
Numa curva qualquer da tua vida.

Escolhe com cautela! Escolhe poucos
Mas que sejam sensatos e não loucos
Dos que podem usar de falsidade

Possas este livro preencher
Com amigos sinceros, a valer,
E este livro será só o da amizade

Angola - Vila Luso 16 de Dezembro 1953



sábado, 17 de agosto de 2013

NÃO SOU NADA

Não sou morro nem penhasco.
Não sou vento.
Não sou brisa.
Da vida
Já sou só sombra
(nuvem breve,… envelhecida).

Não sou garota nem jovem
De larga saia rodada,
Não sou mãe. Não sou avó.
Não sou estrela nem cometa.
Não ando a pé na calçada.

Não sou estrada.
Sou ruela,
Talvez beco ou labirinto.
Alma negra em sofrimento
Minha saudade esquecida.

Tu não estás.

Eu não sou nada

“Porque hoje eu sei que só morrem verdadeiramente aqueles que, depois de mortos, nós conseguimos matar também. E nada é pior do que um morto vivo, habitando lado a lado com os que não morreram e tiveram a coragem de tentar viver para além da morte dos que amavam.”
IN “ Madrugada Suja” de Miguel Sousa Tavares  


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

QUANDO BATE UMA PORTADA


Agosto. Tempo de férias. Memórias das casas. De férias. Das nossas férias.   Das sonhadas. Das vividas. Sempre em família.
De início - Os Brejos de Azeitão. Depois “O Casaleco” em Cabanas, Palmela, e a praia da Figueirinha. A partir de 1979, “O Casal Saloio” e a praia do Baleal. Finalmente “A Casa da Takula”, as grandes portadas em madeira de Angola, e, as nortadas constantes neste mês de Agosto. No teu blogue, Henrique, as memórias e as saudades.

QUANDO BATE UMA PORTADA

Neste castelo encantado
Nascido
Aqui
No mar
Há uma portada que bate
E
Não me deixa
Sonhar

Das ameias do castelo
Vejo
Um barco
A navegar
Deixa um rasto de loucura
E
Não me deixa
Pensar

Loucura neste castelo.!

Desfaz-se a identidade.!
Nada fica.
Nada sobra
Quando cá bate a saudade.

Saudade de ti.
De tudo.

Do mundo que construímos
Neste castelo encantado
Erguido
Perto 
Do mar.
Quando soa
Esta nortada
Nem sou capaz
De chorar

Não sou capaz de chorar
Já não consigo viver
Neste
Castelo encantado
Nascido
À beira mar

Quero voar

Ser gaivota
E correr ao por do sol
Quero ser Tu.
(Re) nascer.
Porque bate uma portada
Neste castelo
(Encantado)
Erguido
Bem junto ao mar