O Ouvidor não morreu. Tornou-se luminoso e transparente como o Céu, ardente como o sol, azul como o mar, brilhante como as estrelas, e, feliz, confiante, adormeceu
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
SAUDADE
Não busco uma alegria breve, um riso
fácil,
nem ondas do mar imenso.
Não anseio a lua, as estrelas
ou o disco solar do calor de Agosto.
Quero
a saudade que vive
nos ombros do vento que passa
Quero as dúvidas que ficam
dos pequenos nadas no tempo que sobra
Quero a dor das curtas memórias que em
cada dia acordam comigo
Quero que a morte venha, me leve, e, não diga nada.
Quero que me esperes e me encontres em
qualquer lugar.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
ALGURES AO DOMINGO
Nós. Os netos mais velhos.
Os netos cresceram. (Catarina - 20, Henrique - 19). Já não somos nós.
Eu, ao Domingo, almoço sem ti.
Um chocolate, um café, e, a conta:-
Do espumante,
Da sangria,
Dos frutos vermelhos,
Da vida dos velhos,
Que almoçam aos pares
Olhando o futuro
Com olhos vazios.
Aos pares!
Inveja?
Saudade .... ! de velhos?
Sim!
Dos velhos aos pares
Que lembram sangria
De frutos vermelhos!
Bebidas as bolhas
Que foram espumante
Ainda sobra a morte
Para ter a vida
Desses pares de velhos
Com olhar vazio
Que juntos almoçam
Algures
Ao Domingo.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
O PENSADOR
Reencontramos, hoje, o Henrique. (Caloiro da
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa).
Aos 18 anos, recém chegado a um novo
continente que mal conhecia, a uma cidade que o assustava, a uma Faculdade
elitista onde não tinha amigos, reflectia, (qual Pensador da arte nativa angolana),
escrevendo:
“A vida em sociedade é, segunda as melhores doutrinas, derivada da
própria natureza do Homem.
Assim, o «status societatis» é um bem, necessário, imprescindível,
imperioso, pelo qual o homem alcança, ao servir-se dele, muitas das suas
fundamentais necessidades. Entre elas, a convivência com outros seres humanos não é das de somenos importância, se entendermos
que a ausência de contacto gera, na maioria, um estado de insatisfação, de
laconismo mórbido, de apática e inapropriada melancolia.
Um Homem precisa de falar com outros homens? – Tem a sociedade, a
convivência com seres de mentalidade conforme a sua, para dar lugar a essa
necessidade. Mas o Homem também precisa de «falar consigo mesmo». É
indispensável e não ridículo. Ridículo é a cobardia de se furtar ao monólogo,
jamais a capacidade de o fazer!
Olhando para dentro de si mesmo mirando o revolucionar das emoções que
se geram, e degladiam no seu íntimo, auscultando, sempre que possível, o
verdadeiro sentir do seu eu, o homem está a dar satisfação a uma necessidade de
ordem psicológica.
O que eu possa escrever, não tem interesse para ninguém, a não ser para
mim próprio, que vou cuidar de analisar o que sinto e o que penso e toda uma série de impressões que quer
objectiva quer subjectivamente eu for colhendo.
Portanto, será, não só uma introspecção em sentido filosófico - mas também uma vista de olhos pelo
que me cerca e sobre tudo aquilo que me fere a atenção.
Está a volver um ano desde que arribei a estas terras do Continente. Em boa
verdade – e contrariando as profecias dos mais velhos – eu não me acostumei, no
sentido verdadeiro de perfeita e incondicional adaptação, ao ambiente e ao modo
de vida metropolitano. Em meu entender, existe uma profunda diferença de
mentalidades mesmo de usos e até de sentimentos. Angolanos e metropolitanos entroncam no mesmo ramo, somos
portugueses.
Esta descendência recíproca é o traço mais forte da semelhança que se possa apontar entre uns
e outros”.
Lisboa
1958
domingo, 12 de janeiro de 2014
TEMPESTADE
Quero encontrar-te: (no som do vento que embala os sonhos).
Quero viver-te: (neste Inverno que chora o Verão).
Quero guardar as lágrimas e sentir o choro. Sonhar a vida e viver os sonhos.
Quando as saudades se agigantam, regresso à Casa da Takula. Calmamente. E o teu Eu regressa de encontro à minha esperança. És tu em cada instante, em cada canto, em cada livro. Tudo se sente, vibrante, livre, quente. Tudo vive, soa, canta, dança. O passado volta, torna-se presente. Estás cá! Tudo o que aqui está, o que aqui vive, o que aqui sinto, é tudo o que foi, tudo o que vivemos na alegria interior desse amor que construímos.
Amor imperfeito, irrepetivel, permanece em cada gota de chuva, em cada rajada de vento, e, na ilimitada paz das manhãs das nossas vidas.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
PÓ DE DEUS
Quero partir desta
varanda junto ao mar.
(meu cais de chegada o pôr do sol)
Não quero velas
(nem flores)
(nem flores)
Quero estrelas
Quero-te a Ti, ponto brilhante
Quero-te a Ti, ponto brilhante
Pó de Deus.
Neste início de 2014 a mesma saudade
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
DESERTO
Agir como tu. Sentir
contigo. Dizer… nós. Já não é. Nem presente nem futuro. É assim a morte. Mesmo
quando, em pensamento, estás aqui.
Para te encontrar,
mudei de continente. Tinha 15 anos. Nunca me orgulhei de algo que eu fosse. Só
de ti. Orgulho por me teres escolhido. Orgulho por ser mãe dos teus filhos.
Orgulho enorme por ser avó dos teus netos. Orgulho por ter vivido ao teu lado
desde sempre. Orgulho pelo nome que contigo partilho. Humildade, agradecimento,
porque a vida me proporcionou este trajecto.
Um trajecto de amor,
de companheirismo, de partilha. Num livro que escreveste, talvez 2003, deixaste
uma dedicatória : “À Maria Isabel, a quem devo ter tido uma vida feliz”.
Escrevo isto para te
dizer como é difícil a saudade. Escrevo isto para te dizer como é difícil o
presente, como é difícil continuar a ser, quando tudo á nossa volta já não é.
Quando à nossa volta se instalou a ignorância, o improviso, a falta de rumo, a
incoerência, o deserto. Não me refiro só ao deserto de ideias, mas ao deserto
de soluções, ao deserto de amor, ao deserto de solidariedade, ao deserto de
tolerância, ao deserto de democracia.
Fazes muita falta,
Henrique!





