segunda-feira, 14 de abril de 2014

CALEIDOSCÓPIO DE SAUDADES

A nossa filha Ana escreveu, em Julho de 2010, o texto que a seguir publico. 


" Na minha mão um caleidoscópio.
Nele mergulho o meu tempo parado, o meu espaço apertado junto do coração.
E bem lá no fundo se desenha o momento de me rever.
Saudades... palavra montada de peças brilhantes e irrequietas que giram e se transformam de novo em saudades.
De mil formas, de mil cheiros, e de mil sons.
Saudades que fazem cócegas, nos inquietam, nos deixam a fugir para trás. Saudades que se procuram fechar no tempo com a presença de sorrisos, de risos e abraços apertados.
Mais à esquerda, saudades doces e serenas, feitas de pedaços de algodão e momentos de te dar a mão e o colo. Saudades em contagem decrescente para te rever e me deixar ficar no encosto do cheirinho a mar.
E na reviravolta, as saudades de espaço, de tempo, de areia e beira mar. Saudades do tempo que se aproxima, como uma revisão do tempo que já foi. Saudades aos pulos, na expectativa de poder apenas estar.
Respiro. E na volta das peças brilhantes que mudam o mundo.... saudades. Agora fortes, marcadas. Saudades sem espaço, saudades sem ar. Saudades que transformam em ausência e deixam a angústia apertar o coração. Saudades imensas que me fazem sentir pequena. E no fundo do caleidoscópio, agora, apenas essa palavra que queima e encurrala a serenidade. Saudades de ti."

" Abril será sempre um mês em que a palavra Saudade terá  protagonismo"

Ana Nascimento Rodrigues
  

sábado, 12 de abril de 2014

QUATRO ANOS


A morte liberta a alma

 Dos que leva

A saudade mata a alma

Dos que deixa

terça-feira, 4 de março de 2014

MEMÓRIAS

Procuro. Encontro sempre: um testemunho  amigo, recordações,  memórias. Os anos vão passando, é certo, os netos vão crescendo, também é verdade. 
No entanto, continua viva a memória do Avô. Ninguém esquece. O que foi. O que deu. O que deixou. Imensa saudade.

"Cara família do dr Nascimento Rodrigues:"

"A tentar limpar a minha caixa de correio electrónica, deparei-me com alguns dos mails que o senhor vosso pai me enviou depois da sua saída da Provedoria. Mais uma vez, não consegui apagar esta memória e não resisti a dar uma espreitadela ao blogue que ele criou, graças às suas «aulas de informática», (como me contou) e, claro, sobretudo graças à enorme força de vontade e de alegria de viver que punha em cada coisa que fazia.
Foi uma comovente surpresa perceber que continuam o legado, que continuam a usar esta página para manter viva a sua memória, alimentando-a com tudo o que para ele era mais precioso: a família, a palavra, as raízes, a ética.
Sei que é um abuso entrar neste terreno privado e exclusivo da família, mas não queria deixar de vos agradecer e de vos prestar a minha sincera e sentida homenagem à memória do dr Henrique Nascimento Rodrigues.
Dele ficará, para sempre, a recordação de um homem exemplar. O amor que transmitia pela sua família, pela mulher, filhos e netos, foi mais um dos aspectos que me marcou na sua personalidade. Ser político, jurista ou Provedor de excepção é raro. Mas, dar a todos os gestos do dia-a-dia, este lado humano e caloroso de homem de família, tornou-se uma raridade. E mais um acto de coragem.
É com saudade que o recordo. O seu convívio faz-me falta e não esqueço o orgulho que tenho em ter podido contar com a sua amizade.
Acreditem que ele estará para sempre nas minhas orações.

Desculpem-me o atrevimento desta minha invasão do vosso blogue! Mas atrevo-me ainda a partilhar convosco uma das fotos que o Rui Ochoa tirou do senhor vosso pai. Foi em 2007, na primeira entrevista que lhe fiz para o Expresso (ele, que detestava jornalistas, passou um ano a dar-me, muito delicadamente, recusas piadosas para não ter de me aturar!) Finalmente, consegui! Deixo-vos esta imagem do «professor» a dar uma lição à aluna, não fosse o trabalho correr mal. 
Graças a Deus, não correu."

"Um grande abraço para todos e um especial para a sr drª Isabel"

Rosa 

sábado, 1 de março de 2014

KIMBO



O Ouvidor não morreu. Tornou-se luminoso e transparente como o Céu, ardente como o sol, azul como o mar, brilhante como as estrelas, e, feliz, confiante, adormeceu 


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

SAUDADE



Não procuro rosas, telas pintadas, acordes de sinfonia.
Não busco uma alegria breve, um riso fácil,
nem ondas do mar imenso.
Não anseio a lua, as estrelas
ou o disco solar do calor de Agosto.

Quero  a saudade que vive
nos ombros do vento que passa
Quero as dúvidas que ficam
dos pequenos nadas no tempo que sobra
Quero a dor das curtas memórias que em cada dia acordam comigo

Quero que a morte venha, me leve, e,  não  diga nada.
Quero que me esperes e me encontres em qualquer lugar.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ALGURES AO DOMINGO



Nós. Os netos mais velhos.
Os netos cresceram. (Catarina - 20, Henrique - 19). Já não somos nós.
Eu, ao Domingo, almoço sem ti.

Um chocolate, um café, e, a conta:-
Do espumante,
Da sangria,
Dos frutos vermelhos,
Da vida dos velhos,
Que almoçam aos pares
Olhando o futuro
Com olhos vazios.

Aos pares!

Inveja?

Saudade .... ! de velhos?

Sim!

Dos velhos aos pares
Que lembram sangria 
De frutos vermelhos!

Bebidas as bolhas
Que foram espumante
Ainda sobra a morte
Para ter a vida
Desses pares de velhos
Com olhar vazio
Que juntos almoçam

Algures

Ao Domingo. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O PENSADOR

Reencontramos, hoje, o Henrique. (Caloiro da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa).
Aos 18 anos, recém chegado a um novo continente que mal conhecia, a uma cidade que o assustava, a uma Faculdade elitista onde não tinha amigos, reflectia, (qual Pensador da arte nativa angolana), escrevendo:


        “A vida em sociedade é, segunda as melhores doutrinas, derivada da própria natureza do Homem.
       Assim, o «status societatis» é um bem, necessário, imprescindível, imperioso, pelo qual o homem alcança, ao servir-se dele, muitas das suas fundamentais necessidades. Entre elas, a convivência com outros seres humanos  não é das de somenos importância, se entendermos que a ausência de contacto gera, na maioria, um estado de insatisfação, de laconismo mórbido, de apática e inapropriada melancolia.
       Um Homem precisa de falar com outros homens? – Tem a sociedade, a convivência com seres de mentalidade conforme a sua, para dar lugar a essa necessidade. Mas o Homem também precisa de «falar consigo mesmo». É indispensável e não ridículo. Ridículo é a cobardia de se furtar ao monólogo, jamais a capacidade de o fazer!
       Olhando para dentro de si mesmo mirando o revolucionar das emoções que se geram, e degladiam no seu íntimo, auscultando, sempre que possível, o verdadeiro sentir do seu eu, o homem está a dar satisfação a uma necessidade de ordem psicológica.
       O que eu possa escrever, não tem interesse para ninguém, a não ser para mim próprio, que vou cuidar de analisar o que sinto e o que penso  e toda uma série de impressões que quer objectiva quer subjectivamente eu for colhendo.  Portanto, será, não só uma introspecção em sentido  filosófico - mas também uma vista de olhos pelo que me cerca e sobre tudo aquilo que me fere a atenção.
        Está a volver um ano desde que arribei a estas terras do Continente.   Em boa verdade – e contrariando as profecias dos mais velhos – eu não me acostumei, no sentido verdadeiro de perfeita e incondicional adaptação, ao ambiente e ao modo de vida metropolitano. Em meu entender, existe uma profunda diferença de mentalidades mesmo de usos e até de sentimentos.  Angolanos e  metropolitanos entroncam no mesmo ramo, somos portugueses.
Esta descendência  recíproca é o traço mais forte  da semelhança que se possa apontar entre uns e outros”. 

Lisboa 1958