domingo, 7 de agosto de 2011

LUBANGO 1961

Durante o exercício da sua actividade política e técnica, teve sempre uma grande preocupação: pensar os problemas dos outros, senti-los, vivê-los na sua mente, e contribuir para a sua resolução. Foi assim, enquanto jurisconsulto ligado ao Direito do Trabalho, quando contribuiu para o nascimento de um sindicalismo livre em Portugal, quando lutou pelo diálogo social, quando esteve ao serviço da OIT, quando exerceu os dois mandatos como Provedor de Justiça, e, quando se manteve em exercício de funções, esgotado que estava o tempo do seu mandato. Os problemas dos outros eram mais importantes que o seu próprio problema. A Instituição que tutelava, era mais importante que a sua própria saúde. “Prefiro emagrecer, cansar-me, ficar doente : quero apenas, cumprir o que devo.”Estas palavras, disse-as, no dia em que fez 20 anos. Foram os pilares da sua vida. Por elas morreu cedo, mas morreu cumprindo o seu dever.” Todos nós temos uma missão a cumprir ."

Só então teve o direito de sonhar!

"O problema dos rapazes, que, sem qualquer curso, vivem em Sá da Bandeira, é terem uma vida inútil e vazia. É sempre a mesma coisa: dar umas voltas de carro, tomar um café, discutir banalidades: o futuro é o presente: trabalho de burocracia, ordenado certo, o escândalo da senhora de tal… fulano e sicrano… Eu também gosto de uma vida pacata. É mesmo a única coisa que eu desejo. Mas eu quero uma vida pacata e não vazia; uma vida tranquila, mas não banal; eu quero o meu lar, tu e os meus filhos, mas sabendo que estou a construir algo. Eu quero viver e não arrastar-me na vida. É estranho: eu sinto e compreendo esse problema e todavia, não consigo transpô-lo para o papel. Há uma quantidade enorme de questões que eu sinto profundamente e a que não consigo dar expressão escrita. Como aqui o tempo me sobra eu penso. Penso e, sobre tudo, sinto. É bom uma pessoa sentir os problemas, vivê-los na sua mente. Mas melhor seria se eu conseguisse escrever sobre eles e apresentá-los ao público anónimo. Eu gostava de saber escrever bem, eu gostaria de dar forma aos problemas humanos. Talvez assim ajudasse a construir um mundo melhor. Porquê durante tantos anos não quisemos, ou soubemos, compreender os negros e, hoje, quando queremos voltar-nos para eles só encontramos ódio e desconfiança? Será que o coração do homem não sabe perdoar? Porque morreram crianças de berço que nunca fizeram mal nenhum? Porque que é para mim matar é crime e para e para outros matar é uma consequência? Todo o homem tem um problema e os problemas precisam de ser compreendidos para poderem ser resolvidos.

É preciso que cada um tente compreender o outro; mas é tão difícil e deixamo-nos levar pela exaltação de momento… E, depois, dentro de cada homem há uma permanente contradição. Eu não sinto ódio por nenhum homem e a sua cor de pele e o meu desejo mais profundo era que todos nós pudéssemos viver como irmãos, mas, quando penso nos bárbaros que mataram crianças, eu já, concretamente não sinto o desejo de perdoar, antes me avassala a indignação. Teoricamente, um crime não se paga com outro crime, uma injustiça não pode ser seguida por outra injustiça - mas na prática não pode ser assim, é quase impossível fazê-lo. O mundo tem cada problema! Como eu gostaria de ser um grande escritor para aproximar os homens através do que escrevo ."

13 de Agosto de 1961

sábado, 6 de agosto de 2011

VISITA À PRISÃO – SÁ DA BANDEIRA, AGOSTO DE 1961

1961 foi o ano do início da Guerra Colonial em Angola. Muito do que o Henrique escreve, nesse ano, durante as férias “grandes”, está, como não podia deixar de ser, ligado aos acontecimentos da região norte de Angola, desencadeados pela UPA de Holden Roberto.

"Hoje fui fazer uma “visita” a uma cadeia, onde estão presos 230 pretos acusados de prepararem no Sul acontecimentos terroristas. Deu-me na cabeça ir vê-los… e fui mesmo. Não calculas a impressão que me causou a visita à prisão. Primeiro, apanhei um susto formidável porque entrei, com o aspirante, numa das celas onde estavam 150 pretos, e, nem sequer íamos armados… Só depois de sair é que verifiquei que tinha sido uma imprudência da nossa parte. Depois, eu nunca tinha visitado uma prisão e aquele amontoado de homens, sem as menores condições de higiene e comodidade, chocou-me. Fiquei a pensar no porquê deste mundo assim, em que os homens precisam de se matar uns aos outros. Gostava de perguntar a cada um daqueles presos porque razão nos queriam matar, gostava de perguntar-lhes se eles não compreendem que os homens devem viver em paz. Quando saí estava triste. Olhei em volta e vi Sá da Bandeira dormindo, a noite calma, o silêncio em redor.

E foi tão flagrante a ideia da morte, que eu fiquei com medo. Medo… todos temos mas é preciso dominar o medo dominar-nos a nós próprios, vencer. Temos que estar consciencializados, temos que lutar pela vida, porque em todas as partes do mundo os homens lutam permanentemente, e nós precisamos de nos habituar.

Talvez o mundo de amanhã seja um mundo melhor, mas não o será por certo, se nós não dermos o nosso contributo, e esse contributo requer estudo, vontade e fé.

Todos nós temos uma missão a cumprir.

Sinto que só poderei ser um homem útil à minha terra e à humanidade se estudar, se me consciencializar, se me dominar e se desejar ser alguém. "

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ORAÇÃO PELAS FÉRIAS

Dá-nos, Senhor, depois de todas as fadigas,

um tempo verdadeiro de paz.

Dá-nos, depois de tantas palavras,

o dom do silêncio que purifica e recria.

Dá-nos, depois das insatisfações que travam,

a alegria de um barco nítido.

Dá-nos a possibilidade de viver sem pressa

deslumbrados com a surpresa

que os dias trazem pela mão.

Dá-nos a capacidade de viver de olhos

abertos,

de viver intensamente.

Dá-nos de novo a graça do canto

do assobio que imita a felicidade aérea dos

pássaros,

das imagens reencontradas,

do riso partilhado.

Dá-nos a força de impedir que a dura

necessidade

esmague em nós o desejo

e a espuma branca dos sonhos se dissipe.

Faz-nos peregrinos

que no visível escutam

a secreta melodia do invisível.

José Tolentino Mendonça in “UM DEUS QUE DANÇA”

UM NOME


O único dote que possuo é uma grande vontade de ser alguém, mas isso não é dote que se possa mostrar. De facto que posso eu mostrar senão a minha cara de garoto? Que posso eu mostrar senão uns olhos que olham direito, sem medo? Quando o meu pai morrer, apenas ficarei com o seu nome e acho que é a maior fortuna que ele me pode deixar. Rapaz com nome – onde está o meu nome, senão entre gente modesta, que nos conhece, pois as pessoas da sociedade nunca terão o desgosto de me encontrar entre elas.? Eu tenho a minha personalidade e nem os meus pais a modificarão. Não é por isso com as opiniões alheias que eu me vou interessar, porque eu só faço aquilo que entendo.

Sá da Bandeira 20 de Setembro de 1960

Imagem - 2008 , fim do 2º mandato como Provedor de Justiça. Apresentação de cumprimentos ao Presidente da República

LUBANGO 1960

Cá estou é verdade… e nem sei o que dizer-te de tudo quanto sinto, mas é uma grande saudade o que me invade: saudades dos meus tempos de criança, onde tantas coisas boas vivi, saudades da minha capa, saudades… eu sei lá! Tenho vontade de fechar os olhos e pensar que, ao abri-los, eu estou a sair lá de cima, de casa do Administrador, e virei por aí abaixo, garoto sonhador….

Quanto eu daria para poder voltar a sentir tudo quanto ficou irremediavelmente para trás! Oh, sim, queria estar de novo vestido de capa e, depois, sair ao “deus-dará” por essas ruas poeirentas (agora asfaltadas!), sem rumo, só para sentir a noite, olhar a lua, sonhar e reviver! Mas não: o tempo passa, tudo passa afinal.

O destino encarregou-se de pôr as coisas como elas deviam ser!! Isso não impede, porém, que eu tenha saudades: saudades do que senti: aquilo que hoje não posso sentir. E o que é? Fico a pensar no que tanta falta me faz. Não sou feliz? Que ideia! Não pode ser isso. Ah!, não, há uma coisa que não volta mais: é a meninice. Sim, disso é que eu tenho saudades e pouco importa saber que hoje eu sou mais feliz do que ontem.

A meninice… essa ninguém ma pode voltar a dar! E tudo isso ficou para trás… Olhei outra vez os sítios onde vivi, onde senti, onde pensei, e tudo está diferente, até eu talvez o esteja. Não, é bem verdade que o tempo não perdoa.

Não mais há-de viver aquela criança que eu fui, não mais há-de passar por estas ruas aquele moço com a cabeça cheia de sonhos. Dissemos adeus a Sá da Bandeira quando daqui saímos: foi um adeus para sempre.

Sá da Bandeira 27 de Agosto 1960

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

“DESCULPAS DE MAU PAGADOR”


O Henrique sempre defendeu a responsabilidade individual no "fazer" e "fazer bem". Exigia essa responsabilidade a si próprio e aos outros. Aos filhos dizia: " Para os melhores há sempre lugar".

Mudar de vida, passa também por aqui: deixar de atribuir aos outros a responsabilidade que é de cada um.


"Melhorar o saber, fazer com qualidade em todos os planos da nossa dimensão humana,

- a profissional

-a política

-a social e outras

é a isto que se reconduz o compromisso de cada um com a valorização dos recursos humanos. É um compromisso na escola, na empresa, no lazer, na participação cívica que a todos deve ser proporcionada.

É uma valorização dos recursos humanos que nos questiona todos pelo que fazemos e omitimos, pelo que deixamos os outros fazer e omitir.

A qualidade dos nossos empregos, dos nossos meios e ambientes de vida dependem desta nossa participação, desta nossa exigência pessoal e exigência para com os outros. Se a não alcançarmos, de nada servirão as culpas de terceiros para acomodarem as nossas próprias desculpas

-sobre o emprego

-sobre a falta de qualidade e produtividade

-sobre os baixos salários ou salários em atraso

etc., etc.,"

Lisboa, 15 de Março de 1995

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

FAÇO HOJE VINTE ANOS

Faço hoje 20 anos. Vinte anos é uma idade em que o sonho vai ficando para trás para dar lugar às responsabilidades.

Por isso, talvez, eu não viva o dia de hoje com aquela alegria e aquela inconsciência dos aniversários passados.

Tenho a vaga sensação de que em mim a criança deu lugar ao homem, isso impressiona-me, naturalmente, mas estou seguro de que lutando contigo a meu lado poderemos construir o nosso futuro.

A vida é o que está em frente e não o que ficou. As preocupações não resolvem nada: o que temos é que encarar as coisas como elas são e não pensar senão no exame que nos espera. Não podemos ter descanso porque o tempo é escasso; por enquanto, não podemos sonhar.

Só te peço que encontres em ti as forças necessárias para lutar sempre pela vida. Ela não é fácil por isso temos que encontrar dentro de nós a vitalidade suficiente para nunca desanimar.

É isso que eu quero que tu me prometas. Desaires, todos têm e nós não podemos escapar-lhes. Mas há que lutar, lutar com todas as forças, porque o resto… o resto virá!

Prefiro emagrecer, cansar-me, ficar doente, mas o curso hei-de tirá-lo! Tenho vergonha de mim quando não estudo o suficiente. Não pretendo ser um grande aluno. Quero apenas, cumprir o que devo.

Quero mostrar a mim próprio que posso sonhar porque tenho esse direito. Quem não luta não tem direito a ter sonhos. Temos que renunciar a determinadas coisas que nos agradam para nos dedicarmos a outras. É assim agora enquanto estudamos, será assim depois, sempre.

Nunca te esqueças, a vida é renúncia de uma coisa para se conquistar outra. Se não quisermos acreditar, se quisermos continuar a viver tudo ao mesmo tempo, então acabamos por não agarrar nada.

Luanda 3 de Agosto de 1960