sábado, 5 de novembro de 2011

FIRMES NOS DESAFIOS DO FUTURO

Maio de 1985. O Henrique era Director do Orgão oficial do PSD - Povo Livre. Carlos da Mota Pinto, ex líder do partido, tinha morrido subitamente no dia 7 de Maio. Preparava-se o XII Congresso do PSD, que decorreria a 17/18/19/, desse mês, na Figueira da Foz.

A 15 de Maio, no Editorial do Povo Livre, e, dirigindo-se aos delegados ao Congresso, o apelo e o alerta:

“Que vamos nós, responder ao País, companheiro amigo?

Tu vieste de Monção, de Leiria, de Faro ou do Funchal e da Horta, ou de Paris e Toronto se és emigrante. Nós somos carne de Portugal feito comunidade espalhada além fronteiras. Somos filhos desse Povo que tem berço nas escarpas do Douro e nos picos da Estrela, que fez ninho nos barcos de pesca aproados em New Bedford, que palmilhou as anharas da Cameia e os trilhos de Bamabadinga. Povo que foi e retornou, que saiu e não voltou, ou que nunca se aventurou.

Viemos daí, somos daí. Temos orgulho nos padrões da nossa história e da nossa cultura. E por isso respondemos ao País, em primeiro lugar, que não sabemos propor para onde vamos sem dizer de onde viemos. Não queremos fazer Portugal, esquecendo Portugal.”

Referindo-se Francisco Sá Carneiro, Nuno Rodrigues dos Santos e Carlos da Mota Pinto:

“ Eles deixaram-nos a marca indelével dos valores que constituem essência e património comum da Democracia e transmitiram-nos o ensinamento revigorado de que cada homem nasce com direitos a liberdades e com o dever de responsabilidades, sem as quais não será ele próprio, na sua identidade e dignidade medulares. Identidade e dignidade que têm de ser garantidas a todos, porque se o não forem nenhum de nós será verdadeiramente livre.

Sabemos que o Futuro já começou. Temos de o ganhar fazendo do Presente o rio impetuoso que desagua no mar desse Futuro.

Cada um de nós é uma gota desse rio. Se nos perdermos do leito a que pertencemos, o rio será riacho, o riacho pode transformar-se em fio de água. É indispensável portanto, que saibamos estar unidos sob a identidade que faz de nós o mesmo rio.”

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O DESAFIO RESPEITA A TODOS NÓS

A 13 de Setembro de 1983 o jornalista do “Diário de Notícias” do Funchal faz a seguinte pergunta ao Henrique:

D.N. – O pretexto de que consumimos para além das nossas possibilidades não serve para a generalidade dos portugueses. Estes aumentos recentes recaem também, negativamente, sobre reformados, viúvas etc. Não são também portuguesas essas pessoas?

N.R.- Deixe-me dizer-lhe que aprecio bastante a tónica social-democrata que coloca na parte final da sua pergunta, e, isso, naturalmente, que me preocupa como social-democrata.

Temos a obrigação política de procurar que as camadas populacionais de menores rendimentos, ou de rendimentos mais afectáveis pela evolução do custo de vida, sejam proporcionalmente menos atingidas do que outros sectores da população. Isto pode procurar-se por várias vias, designadamente a via fiscal, a da segurança social e a da saúde e transportes.

Mas nada, ou pouco é possível fazer-se sem receitas. E para haver receitas é necessário produzir-se, por um lado e, por, outro, não se delapidar o que existe.

Não é só o Governo que é responsável pela adopção de medidas nestas áreas. Todos nós cidadãos activos, também somos responsáveis. Por exemplo: porque se gasta tanto dinheiro em subsídios de doença? Já teremos pensado que as”baixas” desnecessárias ou fraudulentas delapidam milhares de contos por ano? Já teremos pensado que uma greve inoportuna dos transportes pode acarretar a perda irreparável de encomendas para o estrangeiro e o consequente custo em divisas que são tão necessárias? Já pensamos que a não entrada de contribuições para a segurança social, seja por fraude, seja por impossibilidade financeira das empresas, se repercute nas receitas actuais e na solvabilidade futura do sistema? A ideia da solidariedade é fundamental, mas ela não se encaixa nessa visão estatista. Há um ditado popular apropriado: “Ajuda-te a ti mesmo que deus te ajudará”. Eu diria em termos políticos, que a evolução social apela para formulas em que a solidariedade para com o futuro individual e colectivo se repense e efective em termos inovatórios. Cada indivíduo, cada pessoa, deve ser, ele próprio agente de solidariedade. E isto comporta deveres. Não vale a pena falar em solidariedade quando se exige o máximo para nós, para o nosso sector, para a nossa classe, e se esquece o resto da comunidade.

Só mais uma nota: quando se diz que o País consome acima das suas possibilidades não se está a arranjar um pretexto, está a usar-se sim um dado da realidade económica estatisticamente comprovado. O mesmo acontece noutros países onde foram impostas restrições, desvalorização da moeda, ou de aumento de preços de bens e serviços essenciais, ou de restrições salariais, ou de recuos nos benefícios sociais, ou de aumento de impostos. Não visiono outra solução que não seja a de nos tornarmos mais desenvolvidos, mais produtivos, mais combativos economicamente e menos agrestes socialmente. O desafio respeita a nós todos.

Lisboa 13 de Setembro 1983

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O GRANDE POEMA

Este é o poema que eu escrevi
para as crianças da minha terra!...
Para as crianças negras,
e brancas,
e mestiças,
sem distinção de cor...
comungando o Amor
que as unirá...

Este é o poema que eu escrevi a sonhar...
de olhos perdidos no mar,
que me separa delas...
O poema que escrevi a sorrir…
a gritar confianças desmedidas
nas ânsias partidas...
quebradas...
como velas de naufrágio!...

O poema que eu escrevi a soluçar,
sobre os livros
onde não encontrei
para os sonhos resposta um dia!...

Alda Lara 1949

Alda Lara ( 9/6/1930 - 30/1 1962). Ingressou na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1948. Acabou o curso em Coimbra defendendo Tese de Licenciatura sobre Psiquiatria Infantil.
Após a sua morte a Câmara Municipal de Sá da Bandeira (actual Lubango) decidiu instituir o "Prémio Alda Lara de Poesia"

ANGOLA - PÔR DO SOL



REFORMA DO SISTEMA EDUCACIONAL

A sociedade de amanhã vai ser, muito provavelmente, uma sociedade qualitativamente diferente. Qualitativamente diferente, no sentido de que não conseguirá, por certo, alcançar uma ordem social melhor sem base numa assunção reflectida e consciente do próprio Homem como ser solidário perante os outros e perante a sociedade.

Este tipo de valor, esta exigência basilar, há-de ser fomentada desde logo na Família e na Escola. É preciso, pois, que o sistema educacional comporte uma reforma capaz de levar os jovens a assumir o seu mais livre desenvolvimento.

Acontece, porém, que o desenvolvimento integral da personalidade de cada um não se atingirá nunca enquanto outros seres humanos, nossos cidadãos – e porque não dizê-lo nossos irmãos? -, não puderem, também, dispor das mesmas condições de desenvolvimento. Daí que um dos eixos da reforma educativa terá de assentar numa perspectiva, sempre livre e aberta, de qual o papel do homem no Estado e na sociedade, para que o Estado seja democrático como emanação de uma sociedade democrática.

Não bastará, pois, que o ensino seja tecnicamente adequado. É preciso que nele se fomente o debate e a consciência cívico -cultural das relações e dependências económico-sociais existentes e se gere sentidamente um fundo de consciencialização quanto à necessidade de uma actuação comum e solidária na nossa sociedade e no mundo de interdependências em que vivemos.

Não quero com isto recusar, de modo algum, a necessidade de a reforma de ensino se orientar para uma correcta adaptação da formação que se presta às condições reais da sociedade. Isto não significa que o ensino deva servir a economia. Mas não pode ignorar-se também que um ensino divorciado dos caminhos efectivos e potenciais do mercado do emprego significa um bloqueamento para a juventude.

O ensino deve, pois, proporcionar aos jovens uma orientação e uma formação que lhes permita vir a encontrar uma entrada efectiva no mundo do trabalho. Mas tem de proporcionar igualmente uma capacidade de pensamento e de inovação que permita, ele próprio, uma renovação das estruturas económicas, por forma a que estas não se orientem pelo objectivo exclusivo do lucro, mas, sobretudo, pela finalidade essencial do pleno emprego e do livre e harmonioso desenvolvimento das capacidades individuais e da concretização das necessidades sociais.

Isto supõe uma cooperação de docentes e discentes. Isto impõe uma acção concertada do Estado, das associações de estudantes e de famílias, do movimento sindical e das autarquias, das organizações empresariais também, no sentido de se procurar ajustar por consenso a concepção, o planeamento, a execução e o controlo da reforma do ensino.

Se não queremos efectivamente uma subordinação do Homem à Economia e uma sujeição do poder político ao poder económico, não nos é lícito ignorar, também, as constrições que se nos deparam no crescimento económico, base de uma segurança material que é condição para uma vida mais digna."

Coimbra, 1981

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

VERDADE, COERÊNCIA, FIRMEZA DEMOCRÁTICA

"No interior de espaços geográficos que são considerados, e justamente, como exemplos de uma maior libertação do Homem, ocorrem diferenças significantes, e preocupantes entre países neles enquadrados. Refiro-me, em especial, à Europa Ocidental, por nos dizer respeito a vários títulos, e às diferenças económico-sociais entre a sua faixa mediterrânica, e as outras zonas do espaço europeu democrático.

E como a unidade só pode construir-se na solidariedade, e como a crise económica persistente que vem atingindo praticamente todas as economias europeias ocidentais vai fomentando reflexos de autodefesa, de sentido individualista e marginalizador assistimos hoje, com preocupação, a um declínio (espero que transitório) do valor da solidariedade e do sentido de justa concertação de esforços e meios entre os povos europeus democráticos.

A crise económica persistente que vem afectando os países da Europa, reflecte-se ampliando as dificuldades e criando novos obstáculos, na nossa própria situação.

Somos um país tremendamente dependente da importação de produtos alimentares e de bens de equipamento e a alta do custo de uns e de outros potencializa o agravamento da inflação a nível interno. Por outro lado, a retracção que se verifica nos consumidores dos mercados externos que são nossos principais compradores, agudiza a situação da nossa balança comercial.

Mas se a situação económica é verdadeiramente preocupante, que dizer de uma situação social que não é caracterizável por menores índices de preocupação?

Bem sabemos que esta é uma situação com origem em factores e erros históricos, de natureza estrutural e de consequências largamente perduráveis no tempo.

Não devemos esconder a ninguém que a resposta à nossa própria crise não é fácil e muito menos milagrosa.

A política tem que ser uma política de Verdade, de Coerência, de Firmeza democrática, de Solidariedade e de Justiça. Tem que ser uma tarefa constante e sem desfalecimentos."

Coimbra, 8 Novembro 1981

Publicado no “Povo Livre” em 18 de Novembro de 1981

terça-feira, 1 de novembro de 2011

REGRESSO













Quero guardar as lágrimas, viver a alma, sentir o choro, e, encontrar-te. (No céu transparente deste Outono com cheiro a Verão). Quero ouvir-te, neste som do vento, que embala os sonhos.

Volto a casa. Calmamente, regressas de encontro à minha esperança. Tudo vive. Em cada instante, em cada canto, em cada livro. Tudo soa, canta, dança. O mundo muda. O passado volta, torna-se presente. Tudo se sente, nesta casa que foi tua. Estás cá! O que aqui vivo, o que aqui sinto, o que aqui está, é tudo o que foi, e vivemos, na paz interior do amor total que construímos. Amor imperfeito, irrepetivel, permanece em cada gota de orvalho, em cada brisa, e na ilimitada paz das manhãs das nossas vidas.