Este tipo de valor, esta exigência basilar, há-de ser fomentada desde logo na Família e na Escola. É preciso, pois, que o sistema educacional comporte uma reforma capaz de levar os jovens a assumir o seu mais livre desenvolvimento.
Acontece, porém, que o desenvolvimento integral da personalidade de cada um não se atingirá nunca enquanto outros seres humanos, nossos cidadãos – e porque não dizê-lo nossos irmãos? -, não puderem, também, dispor das mesmas condições de desenvolvimento. Daí que um dos eixos da reforma educativa terá de assentar numa perspectiva, sempre livre e aberta, de qual o papel do homem no Estado e na sociedade, para que o Estado seja democrático como emanação de uma sociedade democrática.
Não bastará, pois, que o ensino seja tecnicamente adequado. É preciso que nele se fomente o debate e a consciência cívico -cultural das relações e dependências económico-sociais existentes e se gere sentidamente um fundo de consciencialização quanto à necessidade de uma actuação comum e solidária na nossa sociedade e no mundo de interdependências em que vivemos.
Não quero com isto recusar, de modo algum, a necessidade de a reforma de ensino se orientar para uma correcta adaptação da formação que se presta às condições reais da sociedade. Isto não significa que o ensino deva servir a economia. Mas não pode ignorar-se também que um ensino divorciado dos caminhos efectivos e potenciais do mercado do emprego significa um bloqueamento para a juventude.
O ensino deve, pois, proporcionar aos jovens uma orientação e uma formação que lhes permita vir a encontrar uma entrada efectiva no mundo do trabalho. Mas tem de proporcionar igualmente uma capacidade de pensamento e de inovação que permita, ele próprio, uma renovação das estruturas económicas, por forma a que estas não se orientem pelo objectivo exclusivo do lucro, mas, sobretudo, pela finalidade essencial do pleno emprego e do livre e harmonioso desenvolvimento das capacidades individuais e da concretização das necessidades sociais.
Isto supõe uma cooperação de docentes e discentes. Isto impõe uma acção concertada do Estado, das associações de estudantes e de famílias, do movimento sindical e das autarquias, das organizações empresariais também, no sentido de se procurar ajustar por consenso a concepção, o planeamento, a execução e o controlo da reforma do ensino.
Se não queremos efectivamente uma subordinação do Homem à Economia e uma sujeição do poder político ao poder económico, não nos é lícito ignorar, também, as constrições que se nos deparam no crescimento económico, base de uma segurança material que é condição para uma vida mais digna."
Coimbra, 1981