quinta-feira, 14 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (40)

A democracia não é, e nunca foi, senão um sistema de lenta, penosa e difícil construção de uma ordem política, económica e social mais livre e mais justa.

Democracia não significa apenas ausência de ditadura. As liberdades que ela postula só são reais, e não meras caricaturas, quando exercidas num Estado de Direito, o que pressupõe o império da lei e o primado da Justiça.

A democracia não é um «bem de luxo», próprio para consumo dos países ricos. Cada homem e todos os homens têm direito à liberdade e à justiça social. Onde elas existirem, haverá paz na consciência dos homens

Não está nunca definitivamente conquistada, senão através da tolerância, do diálogo, do esforço permanente de compreensão e de busca de soluções comuns.

Nenhuma «varinha mágica» está ao nosso alcance para nos fazer ultrapassar milagrosamente as imensas barreiras que se levantam, ou mantêm, ao aprofundamento das liberdades, ao crescimento saudável das economias de mercado, à generalização da justiça social.

Porém se não acreditarmos na capacidade do Homem, em que devemos acreditar? Falo do homem concreto, cuja dignidade essencial é igual em todo o lado, seja pobre ou rico, culto ou analfabeto, religioso ou ateu, homem ou mulher.

Essa dignidade só é atingível no respeito integral pelos direitos do homem.


Lisboa 1992

MÃE ÁFRICA

E depois,
Não mais foi como antes…
Roubaram minha alegria de viver.
Foi só a dor que nos restou
Na despedida.
E tu,
Mãe África,
Ficaste na distância…
O grito secou na garganta,
A liberdade perdeu-se no gesto,
A vida ceifou-se no ato
A terra semeou-se com sangue!
O mar te sepultou o corpo
E exangue respiras
Na negra solidão de tuas noites,
Mais terríveis…
Mais escuras…
Mais negras…

(Poesia do blogue “Muhuil´as”)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

HÁ SEIS MESES - O NUNO ESCREVEU

NÃO!
«Não chutes com tanta força, pai». Estou no meio da relva. À baliza eu que gosto de ser importante e por isso de marcar golos. Mas com o pai tanto faz. Só quero fazer alguma coisa com ele.

Não. Não chutes com tanta força. «Zuuuuca» dizes tu a quem o futebol nunca disse muito. Um chuto com o pé esquerdo no meio da relva no Ferrel e eu defendo e tu sabes que eu defendo. Pé esquerdo como o João Miguel. Tenho pena disso. De tu não estares para lhes mostrares como se chuta. Não os chutos na bola mas os outros. Os chutos na vida.

Queria tanto que eles aprendessem contigo. Tu sabias bem o que era importante, as regras que não se podiam quebrar, as linhas que não se podiam pisar. Hoje em dia só ouvimos dizer: «Não há problema. Toda a gente faz e o árbitro não apita». Mas tu sabias as regras. E elas estavam-te tatuadas no corpo. E assim o árbitro apita sempre. Vê tudo. Está lá sempre.

Gostava que soubesses mostrar as regras ao João e à Mariana. É que às vezes não percebo como é que para ti era tão claro. É tudo tão rápido que muitas vezes não percebemos se estamos fora de jogo ou não. Mas para ti parecia que as jogadas da ética são sempre claras. As regras acima de tudo. E nós queremos ganhar, sorrir, festejar e às vezes não percebíamos.

«Entrou. Foi golo» - digo eu

«Não filho, não passou a linha. A linha é clara. Um lado e o outro. Continuamos a jogar, ainda com mais empenho e amanhã…Zuuuuca».
Chuta com força pai. Não há problema. A linha está lá. Nós estamos sempre aqui a jogar um com o outro. E isso é o mais importante no final do jogo.
Vou dizer isso ao João quando ele chutar com o pé esquerdo.

domingo, 10 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (39) - LIBERTAR A SOCIEDADE CIVIL

«Ao alargamento desmesurado das despesas do Estado, a que se assistiu nos últimos anos, há que opor a contenção rigorosa dos gastos supérfluos e dos não essenciais. À burocratização do Estado há que opor a desburocratização do País. À descoordenação administrativa e à duplicação funcional e delapidação consequente dos recursos há que opor eficácia e produtividade.
É decisivo que os cidadãos e as organizações legítimas de representação dos interesses colectivos mais diversificados assumam o protagonismo que lhes cabe na modelação da nossa sociedade. E para isso também é preciso que não se continue a dar prova quotidiana de que tudo esperamos do Estado, no subconsciente assumido, afinal, como a mezinha para as nossas próprias incapacidades.
A Constituição deve ser um traço de união e não uma fonte de desunião, deve ser a estrada onde caibam todos os portugueses, com o trajecto que a vontade colectiva democrática apontar nas urnas. »
23 de Novembro de 1981
Referindo-se ao PSD

«A democracia não existe sem partidos políticos bem identificados, com projectos e propostas bem diferenciados. Não se serve a Democracia quando se pretende meter no mesmo bojo partidário visões ideológicas, programáticas e políticas opostas.
Sabemos que o Futuro já começou. Temos que o ganhar fazendo do presente o rio impetuoso que desagua no mar desse Futuro.
Cada um de nós é uma gota desse rio. Se nos perdermos do leito a que pertencemos, o rio será riacho, o riacho pode transformar-se em fio de água. É indispensável portanto, que saibamos estar unidos sob a identidade que faz de nós o mesmo rio. Porque é essa identidade que timbra as nossas propostas políticas, que nos diferencia. E ao diferenciar-nos, seremos fieis ás origens e dignos dos que em nós têm confiado. »
15 de Maio de 1985

terça-feira, 5 de outubro de 2010

NOTAS POLÍTICAS (38)

O ouvidor do Kimbo já não pode escrever as suas notas políticas. Todos, os que o conheciam e respeitavam, sentem a falta das suas opiniões, da sua honestidade, da sua isenção e do seu rigor.
Deixamos hoje algumas palavras, frases, que em 1982- 83 escreveu a propósito da crise que o País atravessava.

Em Democracia os conflitos são tão normais como os consensos.
O conservadorismo, mesmo que pincelado de modernismos, não terá futuro. Mas este também não se constrói, sem uma resposta de mudança concreta que concilie a liberdade individual com a solidariedade social, a firmeza dos objectivos com o pragmatismo dos caminhos, o sentido de justiça com o valor do comando democrático.
Ao fim e ao cabo, mais uma vez, a iniciativa e a responsabilidade maior das modificações giram em torno do PSD. Que melhor prova se pretende daquilo que continuamos a ser no país e a representar para Portugal? (Dezembro de 1982)

A justiça social exige combate ao desemprego, que temo, possa aumentar gravemente.
A crise, é também de todo um povo que ainda não conseguiu afirmar-se colectivamente. Não há curas nem soluções milagrosas. É preciso que haja consciencialização patriótica nomeadamente quanto aos problemas económicos. Não se deve esperar do Estado o que não é viável que o Estado conceda. Na actual situação de crise interna e externa não parece que seja avisado encarar o conteúdo das compensações sociais pela mesma forma por que era encarado há uns anos. (Março de 1983)

sábado, 2 de outubro de 2010

TODA A VIDA


São José, Santa Maria,
Santa Marta, Todos os Santos.
Hospitais.
Sempre lá estive.
Toda a vida.

Quando Tu morreste,
eu não estava lá.

Fins de semana, dias, noites, feriados.
Bancos, tantos anos!!
Hospitais.
Sempre lá estive.
Toda a vida.

Naquela manhã, daquele dia,
Tu morreste,
e eu não estava lá.

Hospitais.
Trabalho, estudo, concursos.
Exames, investigação.
Saber!
E depois?

Meu amor!
Quando tu morreste,
eu não estava lá.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

SOLIDARIEDADE SINDICAL


Editamos hoje, pela actualidade do tema, uma versão muito resumida da intervenção que o nosso pai faz, em 1981, no III Congresso da Tesiresd.
Caros amigos,
Companheiros amigos da Tesiresd

É a primeira vez que me encontro perante vós, e num Congresso da Tesiresd, não na qualidade de membro fundador da tendência sindical reformista social-democrata, ou de titular de alguns dos seus órgãos estatutários, mas como dirigente nacional do PSD, convidado a esse título para, em nome do partido, vos dirigir algumas palavras nesta sessão de abertura do vosso 3º Congresso.
Gostaria de confessar que não é sem um sentimento de profunda nostalgia que me vejo a mim próprio na posição de ter de vos falar, não tanto como companheiro, desde a primeira hora, das lutas sindicais democráticas, mas sobretudo como Vice-Presidente do PSD.
Sucede, porém que as coisas são como são - o que significa que devo assumir a responsabilidade que me foi atribuída de exercer o melhor que saiba o cargo em que o Conselho Nacional do PSD me investiu. Por isso mesmo não me é lícito deixar que o lastro de uma convivência amiga com os sindicalistas social-democratas se sobreponha, em termos menos adequados, às obrigações de um cargo em que é imperativo atender-se às linhas fulcrais de orientação político partidária emergentes da vontade do conjunto ou da maioria dos militantes.

Aborda em seguida alguns temas de interesse político do momento, nomeadamente a natureza do PSD, a relação entre partido e sindicatos, e a independência sindical, para chegar à crise económica e diz:
Parece-me evidente que a situação económica e financeira – caracterizável, em traços largos, por um défice orçamental de 200 milhões de contos, por um encargo de juros que, só por si, sofrerá em 82 um aumento de 50% em relação ao ano em curso, por uma balança de pagamentos crescentemente negativa e por uma retracção do investimento – arrasta consigo reflexos sociais negativos, nomeadamente no plano das garantias do poder de compra e do emprego.
Se cada grupo profissional pretender melhorar a sua própria situação, o que é legítimo mas não é de todo viável numa situação de crise grave, as tensões sociais agudizar-se-ão e podem ressuscitar-se perigosos pendores autocráticos na nossa sociedade.
Deve ser dada prioridade ao desemprego, mesmo que, para esse efeito, haja de consentir-se, transitoriamente, em pôr de lado outras reivindicações profissionais e sociais. Não se trata de renunciar. Não tenhamos complexos de palavras e atitudes! Do que se trata, pelo contrário é de proporcionar, na maior amplitude concebível, emprego a quem quer e pode trabalhar. Porque o homem só se realiza no trabalho e é nessa exacta medida que colhe prioridade social e humana a primazia do objectivo do emprego sobre outros objectivos.

E acrescenta:

Não devemos mercadejar votos e manipular inteligências e sentimentos. Devemos ser iguais a nós próprios. A Social-Democracia ganha-se na limpidez das atitudes, na coerência dos ideais e na verticalidade da assunção de cada um e do partido no seu conjunto. E por isso me recuso a iludir seja quem for, e muito menos os meus companheiros sociais-democratas, com o intuito, para mim sem sentido e sem dignidade, de captar emoções de apoio.
20 de Novembro de 1981