sábado, 31 de dezembro de 2011

ANO MAU OU ANO BOM?


O Henrique escreveu este pequeno texto no último dia do, segundo ele, pior ano da sua vida, 1958. A pergunta que faz a si próprio, fazemo-la todos nós no balanço do ano que agora termina. Por isso é intemporal e, aplica-se, também, a este final de 2011.

 “Faltam apenas 3 horas para morrer este celebérrimo ano. Mas na vida existirá porventura algum ano que não seja “celebérrimo”?... (2011) “não fugirá à regra, também é um ano celebérrimo.  Mas foi mais do que os outros anos e só uma dúvida cruel me assalta o espírito neste momento e me faz ter medo de responder:  foi bom ou foi mau? Todo o conceito de bom e mau é relativo;  relativo, porque, partindo de uma base como aquela em que eu vivo, poderemos achegar-nos à sacramental pergunta: - que mais deseja senão pão para a boca e um lar quente?. - Vendo as coisas sob esse aspecto, é lógico que eu não posso definir este ano como melhor ou pior do que os outros. Foi um ano igual, foi um ano bom, enfim! Mas houve outras coisas que, não chocando com este conceito de bom, influíram nestes já quase passados 365 dias.  Analisando-os a dúvida subsiste: foi bom ou mau?"

Lisboa 31 de Dezembro 1958

VOTOS DE PAZ


31 de Dezembro de 1981: Em título na comunicação social:

Para o Ano Novo, Nascimento Rodrigues, Vice-presidente do PSDdesejaria a consolidação constitucional da democracia plena no nosso País, única forma de fortalecimento do regime, de edificação do Estado democrático e de plena dignificação de Portugal, e que soubéssemos, em conjunto e em solidariedade, ajudar a encontrar e construir as vias de recuperação económica e financeira do País, por forma a haver justiça social mais alargada estável e equitativa para todos os Portugueses”.
Para 1982, Nascimento Rodrigues não deixa de desejar que todos os portuguesesquer os residentes no território nacional quer os residentes no estrangeiro, comungassem mais intimamente nas ideias de engrandecimento do País. Desejava também que a segunda geração de portugueses, residentes no estrangeiro” conhecesse, sentisse e amasse Portugal”.
A nível internacional, Nascimento Rodrigues gostaria que no próximo ano, “se estabelecesse uma paz sólida em todo o Mundo e que desaparecessem as situações ditatoriais existentes em vários países.
Finalmente, o dirigente do PSD fez um voto pessoal: “ cumprir com coerência e fidelidade o mandato que me deram até ao próximo Congresso, data a partir da qual desejaria retomar a minha actividade profissional, inteiramente”.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

GREVE DOS MAQUINISTAS DA CP - EM1981 FOI ASSIM


Portaria nº 478-A/81
de 9 de Junho

Dando execução à resolução do Conselho de Ministros que reconheceu a necessidade de se proceder à requisição civil do pessoal da CP – Caminhos de Ferro Portugueses E.P., e de harmonia com o disposto no artigo 4º, nº2, do Decreto – Lei nº 637/74, de 20 de Novembro:
Manda o Governo da República, pelos Ministros dos Transportes e Comunicação e do Trabalho, o seguinte:
1º São requisitados, nos termos e ao abrigo dos n.os 1, 2, alínea g), e 4 do artigo 8º da lei 65 /77 e do artigo 3º, nº1 alínea c), do Decreto –Lei nº 637/74, os trabalhadores da CP- Caminhos de Ferro E.P., que se encontram em greve na decorrência da situação de greve decretada pelo Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses.
2º É dever dos requisitados desempenharem as funções que lhes estão habitualmente cometidas no âmbito da estrutura, quadros e estatutos de trabalho da empresa.
……………………
Contem mais cinco alíneas, é assinado com a data de 9 de Junho pelos Ministros do Trabalho e dos Transportes.


 Declaração do Ministro do Trabalho, Dr. Nascimento Rodrigues, após a decisão do Conselho de Ministros acerca da requisição civil dos maquinistas da CP deliberada pelo Conselho de Ministros:

“ O Governo cumpriu o seu dever legal e democrático ao proceder à requisição dos maquinistas em greve. Os resultados positivos da requisição só prestigiam a nossa ordem democrática e são prova de que a autoridade, quando exercida com razão e no estrito respeito da lei, reforça as condições de exercício dos direitos fundamentais de todos os cidadãos.
Desejaria sublinhar o imenso respeito que me merece a atitude de civismo e de dignidade das populações até hoje afectadas pela greve e a minha esperança em que o exercício do direito à greve, em qualquer sector ou empresa, se exerça sempre com atenção e respeito para com os interesses e direitos de todas as camadas de cidadãos portugueses.”

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

POEMA DO SEMBA




huhummm o semba,
semba é canto de avenida,
é chuva de primavera,
semba é morte
semba é vida,
huhummm o semba
semba é o meu choro dolente,
olhar nossa vida de frente
semba é suor
semba é gente,
o canto,
do semba o canto
do semba ele é nobre,
o canto do semba ele é rico,
o canto do semba ele é pobre,
o canto do semba ele é rico,
o canto do semba ele é pobre,
o semba do morro
o semba do morro é fogueira,
o semba que trás liberdade,
o semba da nossa bandeira,
o semba que trás liberdade,
o semba da nossa bandeira.
huhummm o semba,
semba é canuco de rua,
na escola da vida ele cresce,
de tanto apanhar se habitua,
na escola da vida ele cresce,
de tanto apanhar se habitua,
a voz do meu semba
a voz do meu semba urbano
é a voz que me faz suportar
orgulho em ser angolano,
é a voz que me faz suportar
orgulho em ser angolano,
angolazé,
o sembaaaaaa semba é a nossa alegria paulo,
 semba é a nossa bandeira
é esperança é amor,
hummm o sembaaaa
semba tua maneira moh kota,
semba é a nossa bandeira
nossa forma de cantarrrrr.
o sembaaaa
semba tua maneira
moh semba é a nossa bandeira,
nossa forma de cantar.
o sembaaaa
semba é a nossa alegria paulo,
semba é a nossa bandeira
é esperança é amor.

OUVIR PARA APRENDER


"É uma virtude, até certo ponto, o saber retirar a tempo. Ora, quando se vê que não temos razão, outro caminho não nos deve restar senão calarmo-nos e ouvir – para aprender.
O Lisboeta não o sabe fazer. É um tipo que discute a torto e a direito e, sobre tudo, que não abdica dos seus pontos de vista, quando estes são claramente rebatíveis, quando se está a ver de maneira inequívoca, que estão errados. Já tive oportunidade de o verificar em conversas com colegas meus. É espantoso mesmo!, a teimosia crassa que eles tomam para defender os seus pontos de vista. Admiro, sem dúvida, todos aqueles que, cientes da sua cultura e do seu modo de pensar, os defendem com unhas e dentes; mas admiro, também, aqueles que reconhecem o seu ponto de vista errado. Ora o que tenho visto chega-me para concluir, talvez à priori, porque meia dúzia de casos não são suficientes para os tornar com regra geral: o Lisboeta não tem uma cultura sólida. Tem, sim, uma cultura um pouco vasta mas pessimamente aprendida, erradamente estudada e, então estupidamente defendida.
São muitos os problemas metropolitanos. Para já e antes de tudo, dois, eu acho fundamentais: o problema económico e o problema educacional. Digo educacional, de preferência a cultural, porque, antes do resto, é mister aperfeiçoar o espírito para que ele possa receber os respectivos ensinamentos. Sem ser educado o povo não pode ser cultivado. Primeiro cultiva-se a alma e só depois o cérebro."

Lisboa 1958

SOCIAL DEMOCRATA AOS 18 ANOS


"O ensino, de qualquer grau que seja, não é uma medida de altruísmo de nenhum Estado – é, antes, uma obrigação, um dever moral e político a que nenhum Estado se pode furtar. E bem sabemos que há estados em que o ensino, além de obrigatório, é totalmente gratuito. Não pode existir uma Nação sem um povo civilizado e culto; a civilização técnico – cultural só se pode adquirir pelo estudo; e o estudo, na sua regra, só pode ser devidamente ministrado por mestres competentes. A par de outras manifestações que estão na essência do próprio Estado, o ensino é um dever que lhe compete, obrigatoriamente, que para bem dele próprio será; donde deduzimos que nenhuma mercê nos fazem ao proporcionar-nos estabelecimentos de ensino, que nos preparam para a vida… quando sabem preparar-nos!"

Lisboa 1958

domingo, 25 de dezembro de 2011

DIA DE NATAL


"Foi esta a primeira vez que passei o Natal sozinho. Ontem à noite custou-me um pouco, mas hoje, 25, passei o dia bastante distraído. No meio de tudo, não é talvez, a falta determinada disto ou daquilo que eu mais profundamente sinto; é, antes, a certeza, que se avoluma, de estarem ficando para trás, eternamente, os meus tempos de criança, os meus encantos  pelo Natal, as minhas reacções e tudo isso que faz a maravilha da petizada nesta época. Tenho um medo tamanho de deixar de ser sensível a mil pequenos nadas, de passar a ser inteiramente Homem, de deixar de sonhar e de sentir o que só um coração jovem pode sentir e sonhar. Porque isso é maravilhoso! É maravilhoso sentirmo-nos crianças e vermo-nos acarinhados, abrir os olhos deslumbrados e sonhar com uma infinidade de centelhas mágicas. Esta vida que se leva na Metrópole em nada é propícia a sonhos! E ai do dia, eu sei-o perfeitamente, em que eu deixe de ser assim um quase nada criança, porque então não terei sonhos por que lutar denodadamente e com fé para os alcançar. Tu, Senhor, faz com que, para todo o sempre, possa arquitectar acriançadamente, os meus próprios ideais, para poder ser alguém na vida. Não creio que o possa ser sem ter sonhos e ideais. Por isso te peço Senhor, mais este favor: deixa-me continuar a ser criança."

Lisboa 25 de Dezembro de 1958 

sábado, 24 de dezembro de 2011

ORAÇÃO PARA UMA NOITE DE NATAL

"É noite de Natal. Embora cansado e sem disposição alguma, não podia deixar de escrever um pouco, se bem que nem saiba para quê, pois aquela “veia” que me poderia levar a escrever já se me esvaiu como num sopro. É o primeiro Natal que passo sem os meus Pais. Senti-o certamente, mas, na medida do possível, consegui superar a tristeza que me invadia. Senti-a sobretudo entre a hora do lanche e o findar da Missa do Galo. De lá para cá estou mais animado e voltei a ser, ainda há pouco, na mesa, o moço gracejador. Lembro-me, acima de tudo, que tenho de estudar para me formar o mais rapidamente possível. Lembrei-me dos meus Pais e dos momentos felizes que tantas vezes vivemos juntos.

Nesta noite de Natal, meu Deus, agradeço-Vos imenso todo o bem que me tens dado e o teres permitido que eu continue a ser o mesmo rapaz de sempre. Talvez (mas é talvez!) tenha muitos defeitos, mas gostaria de continuar assim.

Permiti, Senhor, que possa ter os meus Pais por muito tempo ainda; permiti que o mundo se esqueça da guerra e todos os homens possam viver em paz. Senhor, auxiliai-me sempre e fazei com que nunca me desvie do bom caminho e jamais esqueça a vossa sagrada Doutrina.

Não tive um Natal como os outros, mas creio que não deixei de ter um Natal Feliz.

Espero também que Tu, Menino Jesus que estás nas palhinhas, ao veres tanta gente ajoelhar-se a teus pés, possas ter sentido que há um enorme mundo que continua a ter fé em Ti e que, por isso, também tenhas tido um Natal feliz."

Lisboa 24 de Dezembro de 1958

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

GREVE

Não se trata de interferir na vida sindical! Os trabalhadores e militantes sindicais sociais democratas têm dado sobejas provas de que sabem lutar pelo sindicalismo democrático, livre e independente. Não poucas vezes temos visto dirigentes sindicais que se reclamam do reformismo social-democrata à frente de acções grevistas e na primeira linha de combate laboral e social. Temo-los visto actuar e dirigir greves, tanto nos governos anteriores em que o PSD esteve fora da governação, como nos Governos da própria AD. E sempre o nosso partido respeitou essa independência, porque ela faz parte da essência do nosso programa e é suporte irrecusável do nosso projecto e prática política.

Mas a independência sindical que temos respeitado, e o direito à greve que temos reconhecido e garantido aos trabalhadores portugueses, não podem ser utilizados para se capturar o poder político, sobretudo quando essa captura revela finalidades revolucionárias e antidemocráticas.

A acção sindical não se confunde com acção partidária, sob pena de se denegrir e deturpar o verdadeiro sindicalismo. A voz dos trabalhadores não pode identificar-se com a voz dos dirigentes e forças partidárias.

Os trabalhadores portugueses têm o direito de ser livres. E esta liberdade compreende, naturalmente, o direito de os seus sindicatos não serem considerados, e usados como “grafonolas” de forças politico -partidárias.

E por isso a nossa mensagem aos portugueses, e em particular aos sociais democratas, não pode deixar de ser só uma: no trabalho livre e dignificado, na solidariedade conscientemente assumida, na responsabilidade da coragem individual e colectiva – Portugal será democrático, o caminho da estabilidade e da paz, da recuperação económica e da justiça social não será arredado


Fevereiro 1982

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL E ANO NOVO

"Natal e Ano Novo… como se de facto, eles continuassem a ser para mim o mesmo que os passados Natais e Anos Novos… que hoje são velhos! Não já não o são. É extraordinário, é fantasticamente extraordinário, como, olhando para trás, eu sou levado a concluir que um simples ano, talvez 15 meses, possa operar uma mudança tão radical na minha maneira de sentir e no meu modo de agir. É fantástico, meu Deus, como uma dezena e meia de meses conseguiu ofuscar, num ápice, tudo aquilo que tinha um cunho de quase sagrado para mim. Natal e Ano Novo calavam bem fundo dentro de mim. Eram, para os meus anos de menino e moço, dois verdadeiros símbolos de maravilha, de paz, de felicidade. Era um verdadeiro sonho – especialmente o Natal – que a realidade me oferecia para eu sonhar a meu belo prazer. O Natal em especial, calha bem à meninice. Talvez por já ter deixado de ser menino, tenha deixado de ser também o Natal aquilo que outrora era. Porque de facto, há dois anos que eu já não tenho Natal. Que Deus me perdoe se Ele vê a minha afirmação como uma ofensa, mas bem sabe que não me refiro, naturalmente, àquela felicidade extrínseca e àquele bem estar natural que Ele sempre tão generosamente, me tem dado. Sim, meu Deus, Vós sabeis que não me lamento, por me faltar mais ou menos uma prenda. Bem sabeis Senhor, quanto Vos agradeço tudo o que me tens dado e que milhares, sabe-se lá se não milhões de rapazes não têm: pão para a boca, barriga farta e corpo agasalhado. Não, Senhor, certamente que eu não ponho em dúvida quão excessivamente feliz para ser verdadeiro, eu tenho sido neste aspecto. Nunca me faltou o pão que me matasse a fome e a roupa que me abafasse o frio; nunca me faltaram uma casa, mesmo onde sei que não é a minha casa, e um mimo de lar; nunca, Senhor – e quanta felicidade não é já essa! - eu soube o que era a miséria e o desgosto por algo que me faltasse. Se pobres são aqueles que não têm nada disto, rico, imensamente rico sou eu, Senhor. Mas nem só de pão vive o homem e nem só de abrigo e alimento de dinheiro e fartura é feita a felicidade.

Aquela felicidade íntima, que mais parece calmaria no espírito, paz na alma ou dor de alegria no coração, essa sim, vai-me fugindo aos poucos lentamente, tão lentamente como vão indo os meus verdes anos de adolescente."

Lisboa Natal de 1958

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NÃO É A IDADE QUE MATA A MOCIDADE


"O meu Natal…. É um Natal triste? Não, talvez apenas solitário. Mais solitário do que nunca, pois não há em meu redor uma cara familiar, uma terra amiga, uma coisa que me diga respeito
Tudo tem sido assim na Metrópole e é por isso que eu não gosto desta terra. Vai-nos ela embrutecendo a pouco e pouco, roubando-nos os nossos sonhos de criança, tirando-nos do peito as doces ilusões e os belos horizontes que só a mocidade pode forjar. Não é a idade não que mata a mocidade, porque eu sei, que no fundo ainda queima em mim a mesma chama de sempre; mas é esta vida sem espírito, este ambiente que é só matéria, que abafa e há-de acabar por matar totalmente a rama verde da minha mocidade. Oh, sim, eu nunca deixarei de ser novo só para mim; eu quererei sempre sonhar como outrora e ter um riso franco nos lábios;  mas não queria, também, que os milhares de sonhos que sonhava e as centenas de risos que abria, vão desaparecendo, desaparecendo, até ficarem cada vez menos. Não quero meia dúzia de sonhos – quero centenas; não quero um riso fortuito, de vez em vez, a lembrar-me que, afinal continuo um pouco criança – quero rir a toda a hora, abrir a alma ao mundo, sorver a felicidade e dizer em voz  bem alta: eu sou feliz como outrora!
Ah, mas onde estão os meus Natais? Onde estão os ternos anos da minha infância alegre?
Onde estão meu Deus? Oh, fazei que eles voltem para eu poder de novo ser eu inteiramente, de corpo e alma totalmente – totalmente, Senhor"

Fotografia- Luanda Natal de 1956 (último Natal em Angola)
Texto -Natal de 1958 em Lisboa
A árvore de Natal é a da nossa casa desde sempre.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ÚLTIMO POEMA


Lisboa, Vela Latina, 9 de Abril de 2010

ÚLTIMO POEMA

Sair do temporal!
é ganhar tempo pra coser as velas.
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar
O meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.
Ah, não esperem que eu espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar...
Numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.
Sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
.que vai começar.
Tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.

Cochat Osório (Calema 1956)

Calema, foi o livro  que o Henrique me ofereceu no dia em que fiz 17 anos. 9 de Abril de 2010 foi o último dia feliz das nossas vidas  

NÃO TENHO MEDO

O ouvidor do Kimbo é um blogue de memórias, recordações, saudades, pequenas lembranças, …. instantes de vida. 
É  semana de Natal. A enorme falta que o Henrique faz à nossa família leva-nos a partilhar, com quem nos ler, dois momentos especiais:  o presépio de sua casa em Sá da Bandeira - Natal de 1954 e, um pequeno texto, escrito em Lisboa, no Natal de 1959.

 "Já não sou um menino e já não posso ver-te a ti, Menino  também, com olhar de menino para Menino! Já não tenho a minha árvore de Natal feita para mim; já não vejo o meu presépio, por minha Mãe erguido só para mim; já não sinto o mesmo que sempre senti. O Natal é sempre o Natal, com que idade nós tenhamos e em que latitude vivamos, mas o Natal que eu vivo de há dois anos para cá – precisamente desde que cheguei à Metrópole - não tem, verdade, verdadinha, o mesmo “sabor” dos outros Natais. Parece que o adivinhei quando saí da minha terra e a olhei saudoso, apreensivo também pelo futuro que me esperava. Eu não tinha medo. Não tinha medo, porque sempre pensei, como pensaria qualquer criança que poderia ser criança eternamente. Vejam só que ingenuidade.
Quer seja ou não, o certo é que, ainda hoje, já vendo que os meus tempos de menino não voltarão, guardo ainda em mim a secreta esperança, de que, um dia, quando eu voltar à minha terra, talvez possa voltar conjuntamente a ser criança, amar a vida como só a pode amar uma criança e a ter um Natal e um Ano Novo como só podem ter as crianças. Quero voltar a olhar para as bolas de Natal que enchiam de cor a minha árvore e a poder ver em cada uma o mundo a meus pés; quero voltar a ver o Menino, deitado sobre palhinhas no Presépio e, olhando-o, a sentir de novo aquela sensação de infinita felicidade, de infinita tristeza por todos os que a não tinham como eu. Talvez que hoje, algum menino, ao olhar para o seu presépio, possa ter pena, como eu tinha, dos meninos que não possuíam presépio! Terá pena de mim, então! Porque será que a gente cresce e, impreterivelmente, deixa de ter os mesmos sentimentos e as mesmas reacções? Ah, que, se eu estivesse em minha casa e na minha terra, tenho a certeza que poderia voltar a sentir o “mesmo” Natal, tivesse eu a idade que tivesse!"

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MAIS DIAS FELIZES

Nesta época de Natal, lembramos todos os Natais das nossas vidas. Permanece, também, na nossa memória a extrema felicidade de outros dias, como este. Disse o Henrique:" Hoje foi o dia do meu mestrado em casamentos." O Doutoramento será dois anos mais tarde.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA


A 18 de Dezembro de 1961 o “Estado Português da Índia” foi invadido e anexado pela União indiana. Os jornais portugueses relatavam, (já depois de uma rendição total), a resistência heróica dos nossos soldados e da população frente aos invasores. Segundo a nossa imprensa, o número de mortos ultrapassava o milhar.
Todos os jornais foram uníssonos num relato que nada tinha que ver com a realidade dos factos.
Nesta pequena história a apreciação crítica feita pelo Henrique com o evoluir das notícias.

“Sabes que em Angola as tropas estão de prevenção? O meu Pai enche a carta toda a falar na Índia e na sua indignação pelo que se passou. Por aqui já começa o zum-zum dos boatos e das calúnias, muito embora eu concorde que a nossa rádio e a nossa imprensa estão a puxar demais ao sentimento. Não sei se leste a notícia que o correspondente francês Martin Gordon enviou acerca do contacto com prisioneiros militares em Panjim. Ele disse que calculava que em 2.500 as praças e em 200 e tal os oficiais, prisioneiros. Isto dá um total, geral, de 2.700 homens. Sabe-se que há outro campo de prisioneiros em Vasco da Gama; e sabe-se que os nossos efectivos militares não excediam os 3.200 homens. Se a notícia transmitida pela “Reuters” é verdadeira, então efectivamente nós tivemos muito poucas baixas para uma verdadeira luta. Não sei, ainda é cedo para fazer conjecturas, mas os indícios que começam a aparecer não nos são favoráveis.
Leste o “Notícias” de hoje? Diz que as nossas baixas na Índia se computava em 1018 homens. Francamente, isto é de uma pessoa ficar sem perceber patavina. Talvez fosse melhor a nossa imprensa não fazer tanto “escabeche” com a nossa resistência, pois, se se confirma o número de prisioneiros é porque a resistência foi fraca.
 Ou os jornalistas estrangeiros estão a mentir, e não se descortina a razão para mentirem acerca de um assunto tão sério, ou é a nossa imprensa que quer fazer ondas, o que é igualmente sujo. O que é certo é que na nossa época nunca se sabe de que lado é que está a verdade, tão opostas são as notícias.
Evidentemente que, quanto menos homens tiverem morrido, melhor, mas que nunca seja o caso de as nossas tropas se terem comportado cobardemente. Enfim, tido isto é aborrecido e o pior é que este mau período ainda está longe de acabar. Por quanto tempo aguentaremos? Já deves ter visto que a imprensa, de um modo geral, tem atacado a Inglaterra e a América. Acho bem, mas isso é uma atitude inútil se não passarmos para além das palavras. Pode ser que no próximo discurso do “Mestre” já se saiba algo de concreto. Mas, se nós continuarmos só com floreados, então bolas para todas estas manifestações.”

Lisboa 30 de Dezembro de 1961


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

NOTAS POLÍTICAS (91)

“ O que é lamentável, é o facto de o PS não ter coragem de distinguir o seu papel de oposição democrática ao Governo (que se respeita), do seu papel de partido com responsabilidades na defesa do regime democrático.”

Lisboa 6 de Fevereiro de 1982

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

AYUB OGADA - KOTHBIRO


Kothbiro

Hah Hahye hahye aye hahye ... Om maam pum imjya Kothbiro Ke luru fazer ketaa-lha Om maam pum imjya Kothbiro Ke luru fazer ketaa-lha Hah Hahye hahye aye hahye Om maam pu ...


chuva está chegando

Kothbiro (chuva está vindo)
Auma ouve o que eu te digo
A chuva vem a caminho
leva o gado de volta a casa
Yaye as crianças
o que pensas fazer?
A chuva vem a caminho
Leva o gado de volta a nossa casa


A Música é lindíssima. Recomendo: ouçam os dois vídeos em simultâneo. Como dizia o Henrique, em África é acordado que se sonha.

CONFRONTO OU CONSENSO SOCIAL

“ Existe uma crise Mundial que afecta praticamente todos os países, seja qual for a estrutura política, económica e social em que assentam. Desde os Países tradicionalmente subdesenvolvidos (África, Ásia, América Latina), até às nações altamente industrializadas de economia de mercado, os sinais de crise são evidentes (baixa de produção, redução do investimento, inflação, desemprego).

A tradicional debilidade da estrutura económica portuguesa e do nosso tecido social tornam mais aguda a crise que atravessamos. Existe o risco de continuarmos a ser a cauda, cada vez mais distante do “comboio europeu”. E é aqui que a aposta de vontade política num processo sistemático e persistente de diálogo social ou sócio – económico ganha sentido.

O caminho da consensualização sócio – económica afigura-se como o mais valido e eficaz face ao objectivo da recuperação económica e do aumento de justiça social. A alternativa seria a do confronto sistemático e permanente, mas esta via, pela agudização extrema de tensões e pela instabilidade corrente a que conduziria, não se afigura como alternativa valida para aquele efeito e potencia riscos no plano da institucionalização democrática.

A realização de uma política de diálogo social, afigura-se assim, como progressivamente exigente no quadro da situação nacional. E exigente neste sentido de que ela se assume, no seu potencial, como garante:

A) Do reforço dos valores democráticos e civilísticos inerentes à essência das sociedades pluralistas.

B) Do maior grau de compreensão dos pontos de vista dos parceiros sociais (Estado Empresários, Sindicatos), mínimo indispensável a partir do qual se podem focalizar experiencias viáveis de ajustamento ou concertação social, de perfil e conteúdos variáveis, porque dependentes do conceito específico em que se insiram.

Se se reconhecer que há um mínimo de condições viabilizadoras de uma inversão de marcha, a iniciativa do despoletamento de uma política social, ou semelhante, deveria naturalmente caber ao Governo, colocando os demais parceiros perante a responsabilidade histórica de uma resposta clara, que evidenciasse estarem ou não dispostos, porque e em que condições, a partilhar direitos e obrigações nos aspectos nacionais de crise que atinge o País.”

Excerto de uma comunicação apresentada nas primeiras jornadas da inspecção do trabalho Porto, 27 de Janeiro 1982

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

ORAÇÃO

Senhor,
dá-nos o prometido no princípio
quando os homens errantes no deserto
receberam de ti a obrigação;
dá-nos a terra fértil dos eleitos;
a pátria para o povo de escolhidos
que ainda não tem pão.
É a hora
Senhor!
É a hora da estrela refulgir
guiando os passos do teu povo esparso
nas trevas desta noite de ganância
e dor
e confusão.
É a hora,
Senhor!
Dá-nos o prometido no princípio:
a terra da promissão.

Cochat Osório In "Biografia da noite", 1966
Nasceu em Luanda em 1917. Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa. Exerceu medicina em Luanda

“SOLIDARIEDADE”- O SINDICATO


A 13 de Dezembro de 1981, o Governo Polaco, pela mão do general Jaruzelski, tenta destruir o sindicato “Solidariedade” impondo a Lei Marcial.

Em Lisboa, a 16 de Dezembro, entrevistado pela RTP2 no programa ” 4ª Há Noite” a este propósito, dizia o Henrique:

Acompanhamos com extrema preocupação e diria mesmo, com grande angústia, aquilo que neste momento se está a passar na Polónia. Ao longo de mais de um ano, tivemos oportunidade de assistir ao movimento social, encabeçado pelos operários, depois pelos trabalhadores rurais, e mais tarde por outras camadas da população, no sentido de uma democratização da sociedade polaca.

Verificou-se mais uma vez que os regimes comunistas, por natureza, não podem aceitar uma situação de expansão progressiva, moderada, e responsável da liberdade. Aí, as botas militares a calarem as vozes, a abafarem os pensamentos e a criarem sangue na Polónia.

Só há uma via para a normalização, no sentido de normalidade democrática e não de normalidade comunista. E esse sentido é o do restabelecimento de conversações e do diálogo entre o Governo Polaco e o Solidariedade. É óbvio que não parece que isso esteja a acontecer quando se diz que Lech Walesa não está preso, mas no fundo está detido, forçosamente, para ser obrigado a negociar com o Governo. Obrigado a negociar significa aqui, obrigado a aceitar aquilo que o Governo Polaco quiser.

Nenhum país deve interferir nos assuntos da Polónia. Este é um assunto que só diz respeito ao povo polaco, que só por ele deve ser resolvido. Isto não significa porém que calemos a nossa voz, pelo contrário, devemo-nos expressar de todas as formas lícitas e democráticas, condenando o que se está a passar.

O futuro da Polónia só se resolve com diálogo, com conversações. Efectivamente os regimes comunistas não podem evoluir porque não podem aceitar um mínimo de liberdade e não aceitando um mínimo de liberdade, não aceitando sindicatos independentes, não aceitando uma imprensa relativamente livre, (já não pedimos totalmente livre), sem essas condições, que são as condições dos direitos humanos e das liberdades fundamentais dos cidadãos, de facto o diálogo não é possível."

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

SÃO 20 MESES HOJE

Ana: Para que a memória do nosso Pai permaneça sempre viva e o seu nome nunca deixe de ser pronunciado em nossas casas. Oremos ao Senhor


João: Para que o exemplo de vida do nosso Pai, assente em princípios, coerência e coragem, continue a inspirar-nos e a guiar-nos no caminho. Oremos ao Senhor

Nuno: Para que a confiança em Ti, Senhor, e a certeza de que estás sempre connosco, sejam mais fortes que as perguntas, as incertezas e as angustias que sentimos. Oremos ao Senhor

Sofia: Para que o mistério da morte do nosso Pai seja como o mistério da tua morte na cruz e nos espere ainda a alegria da ressurreição e do reencontro. Oremos ao Senhor

Gonçalo: Para que continuemos a sorrir e a colocar nos nossos filhos toda a nossa alegria, assim como tu, Senhor, fizeste connosco pela alegria de vida do nosso Pai. Oremos ao Senhor

sábado, 10 de dezembro de 2011

ALTERNATIVA É UMA FIGURA SEM ROSTO

os falsos democratas é que nunca têm dúvidas, é que acertam em tudo ou quase tudo. Esses não admitem, quer o direito à crítica dos outros quer a obrigação de uma sistemática e realista reflexão crítica da nossa própria consciência. Não contesto que haja críticas pertinentes.

Sou sensível a críticas justas e fundadas, formuladas através dos canais próprios e sob uma forma proporcionalmente ajustada à resposta que forem obtendo.

É admissível que se tenham cometido erros, mas não vejo que esse reconhecimento deva entender-se como fraqueza ou prova de incapacidade.

Se me é permitida uma imagem, diria que, assim como o médico não amputa um braço ao doente apenas porque tem uma unha encravada, assim também não se compreende a acção de combate ao Governo, por se ter cometido, porventura, este erro ou aquela omissão.

A menos que sejam de tal forma repetidas ou graves que conduzam à conclusão, consensual ou da maioria, de que devem procurar-se alternativas.

Porque temos, democraticamente, que aceitar o direito à alternativa. Mas, até ao momento, a alternativa é uma personagem sem nome e, o corpo de um fantasma. Nada pior para a democracia, que exige clarificação de projectos, transparência nos processos de actuação e integralidade nas pessoas concretas que os corporizam.

Entrevista ao “Tempo” 13 de Agosto 1981

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

NATAL 1957

Lisboa 1958, 1º Ano da Faculdade de Direito

Hoje, 6ª feira, dia 9 de Dezembro, lembramos outra 6ª feira, dia 9 de Abril de 2010. Já neste blogue, recordámos esse dia, que continua muito vivo na nossa memória. O Henrique levantou-se bem disposto, depois de um sono reparador. Era um dia frio, como o de hoje, descoberto, com sol. Saiu cedo de casa. Foi ao barbeiro. Passou a tarde no blogue. Tinha vários posts para colocar. Desde há uns dias que estávamos sem rede. Às 20 horas vieram buscá-lo para jantar. Foram horas de conversa quando chegou, com uma alegria que não transmitia há muito tempo.
A fotografia lembra-nos o o início da sua vida académica em Lisboa. Sebentas, sempre debaixo do braço. Estudava num café no Campo Grande.
É época de Natal. Como foi o 1º Natal do Henrique passado longe da sua Angola, do seu Sertão? Vamos ouvi-lo

Natal de 1957

Para mim este natal foi diferente dos outros. Desculpa o desabafo, mas creio que não te poderia esconder o desgosto que senti nessa noite em que, anos e anos antes, sempre fui feliz.Durante 17 anos, eu tive sempre uma casa minha, para passar o Natal, um presépio e uma árvore de Natal. Este ano, por circunstâncias facilmente compreensíveis, nada disto pude ter. E tudo agravado pelo facto de saber que era o último Natal que passava com os meus pais. Este ano, tive que ir à Missa do Galo sozinho, porque a minha mãe não me quis acompanhar. Eu sei que ela não queria que eu a visse chorar e por isso ainda mais me custou. Nos anos anteriores estávamos sempre juntos e sabíamos que “no ano seguinte” tudo seria igual; este ano eu sei que foi diferente, mas que para o ano ainda será pior. Paciência!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ADESÂO DE PORTUGAL À C.E.E.

28 de Março de 1977 - Mário Soares faz o pedido de adesão à CEE.

19 de Maio de 1978 - A comissão dá parecer favorável ao pedido de adesão de Portugal

6 de Junho - o conselho também dá luz verde a esse pedido

17 de Outubro de 1978 - Início de negociações de adesão de Portugal à CEE

4 de Dezembro de 1980- Acidente de Camarate

Janeiro de 1981 Toma posse o VII Governo Constitucional

1983 Governo do Bloco Central

12 Junho de 1985 - É assinado, em Lisboa, o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. Espanha assina o Tratado de Adesão em Madrid no mesmo dia.

6 de Outubro de 1985 - PSD vence legislativas e Cavaco Silva é eleito primeiro-ministro

Em 1981, em entrevista ao jornal “O Dia”, (ocupava o Henrique a pasta do Trabalho), exprime assim o que pensa sobre este pedido de adesão à CEE.

"O pedido de adesão de Portugal às Comunidades Europeias representa uma decisão, fundamentalmente, de carácter político, tomada democraticamente.

Pode dizer-se, contudo, que a adesão às Comunidades envolve aspectos de natureza política, económica e social e, representa, de facto, um “desafio” ao modo de funcionamento e vivência democrática da sociedade portuguesa, sobretudo no que respeita a uma alteração de mentalidades, que, aliás, está na base do desenrolar de todo o restante processo.

Quanto aos aspectos predominantemente económicos, a resposta ao “desafio”que se coloca neste domínio deverá ser dada em termos de desenvolvimento e modernização da nossa economia, os quais, sendo em qualquer caso inevitáveis para que se obtenham níveis de bem estar e de progresso social elevados, deverão ser acelerados pelas exigências de um espaço económico alargado e desenvolvido.

Este desenvolvimento e modernização terão de ser conduzidos de modo a conseguir-se uma maior competitividade das empresas e, simultaneamente, um elevado nível de emprego e de salários remuneradores.

É bastante possível que tudo isto passe pela reestruturação e reconversão de vários sectores de actividade e pelo desenvolvimento de outros, o que poderá suscitar delicados problemas de relacionamento e entendimento social, se não houver uma prévia concertação quanto aos objectivos e aos processos do nosso desenvolvimento

Terão de ser intensificadas as acções de formação e orientação profissionais de modo a permitir à população portuguesa enfrentar as alterações estruturais da economia nacional.

No que se refere aos aspectos de natureza social aos quais se atribui a maior importância, salientarei a perspectiva de que a adesão deverá implicar uma maior democratização das relações de trabalho, com uma maior intervenção dos parceiros sociais na resolução dos problemas, não só à escala nacional como também à escala europeia, na medida em que Portugal passará a participar, através dos seus representantes, no Comité Económico e Social.

Tudo isto vai implicar uma preparação técnica exigente, que reforçará, porém, o papel dos parceiros sociais."

Lisboa, 10 de Junho 1981

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

EXEMPLO DE HONESTIDADE

Em 19 de Setembro de 1981, o jornal “A Tarde”, publicava, em artigo de opinião, o seguinte título: Nascimento Rodrigues: exemplo de honestidade; e continuava em texto:

“Muito haveria que dizer acerca do debate do programa do Governo, das moções de rejeição e da moção de confiança, porque o dia de ontem foi particularmente rico em pormenores significativos. Todavia, o jornalista prefere ceder o espaço que destinaram à sua opinião ao deputado social democrata Nascimento Rodrigues, ex-ministro do Trabalho. O seu discurso, precisamente o último do debate do programa, é um exemplo de honestidade. Que aqui registamos integralmente”.

………………………

“É que, sr. presidente e srs. deputados, a coerência dos ideais políticos tem de reflectir-se em tradução quotidiana; o sentido vivido dos interesses mais fundamentais da nossa sociedade pluralista não pode cair no abismo da incontinência das opções básicas; o desapego sincero às cadeiras estofadas do poder merece, quando justificável, a concretização pelo exemplo, para que não se defraude e desiluda o Povo; e até a dignidade de cada homem concreto, na sua individualidade irrefutável, deve ser resguardada pelos democratas de todos os quadrantes, para quem a democracia se visiona também no homem como centro e destino da sua progressiva libertação.

E é nesse sentido, sr. presidente e srs. deputados, que quero deixar uma brevíssima palavra sobre a revisão das leis do trabalho……

As leis do trabalho não podem ser nunca germe de certos conflitos entre os próprios trabalhadores. E existe esse risco quando dão azo a que uns se sintam em segurança artificial de emprego, outros se sintam sob o cutelo dos abusos dos contratos a prazo e muitos outros se defrontam com o desespero de não encontrar trabalho. Este é um conflito normativo a que se tem de pôr cobro. Tal como se deve pôr cobro ao conflito potenciado entre os que esmoreceram no seu dever de sindicalização e de solidariedade no trabalho e os que desenvolvem uma militância sindical democrática, legítima e indispensável com alicerces das liberdades políticas e cívicas.

Mas há, seguramente outros germes de conflituosidade, esta diferente, e que importa afastar com toda a firmeza. O sentido da revisão laboral não pode ser também – e não vai ser - de servir interesses económicos e bafientos de uma faixa, felizmente estreita e não representativa, de um patronato tardio em compreender que os ponteiros do relógio histórico não param e muito menos voltam para trás.

Talvez nada melhor para exprimir o sentido mais autentico deste objectivo, do que recordar bem alto e respeitosamente estas palavras da recente encíclica “Laborem Exercens”. Cito: “ Diante da realidade dos dias de hoje, em cujas estruturas se encontram marcas profundas de tantos conflitos causados pelo homem, e na qual os meios técnicos – fruto do trabalho humano - desempenham um papel de primeira importância, deve recordar-se, antes de mais, um princípio sempre ensinado pala igreja. É o princípio da prioridade do trabalho em confronto com o capital(…); Este princípio é uma verdade evidente, que resulta de toda a experiência histórica do homem”.

Possam estas sábias palavras, senhor primeiro – ministro, fortalecer o ânimo e o sentido de acção concretas do seu Governo, porque da parte dos sociais-democratas não faltarão o apoio e o estímulo para ajudar Portugal, na Paz, na Liberdade, no Progresso e na justiça”.

Assembleia da Republica 18/9/1981

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

É DISSO QUE O PAÍS ESTÁ À ESPERA

"Os problemas laborais são tão importantes na vida de qualquer País que merecem um autêntico debate público, a começar pelos próprios parceiros sindicais e patronais. Qual a fronteira básica das soluções concretas a adoptar, face ao diagnóstico da situação?

Uma revisão superficial, de retoque, poderia revelar-se como “pior a emenda do que o soneto”. E isto porque e se partirmos da convicção de que vigoram soluções jurídicas que criaram uma situação global em que se protegem, artificialmente em certos casos, interesses de trabalhadores contra a protecção que deveria ser dada a outros trabalhadores, como os desempregados, os que estejam arbitrariamente sujeitos a sucessivos e fraudulentos contratos a prazo, os que enveredam pelo trabalho clandestino, os que se vêem forçados a aceitar horários parciais e salários correspondentemente reduzidos, os jovens à procura de primeiro emprego.

Esta é a situação genérica da injustiça social, com sequelas económicas graves que, por sua vez inviabilizam ou dificultam condições de progresso e de bem estar para todos os portugueses.

A linha básica das soluções tem de ir ao fundo dos problemas e à raiz das injustiças, das desigualdades gritantes de situações, e restabelecer pela equidade o caminho da modernização, da responsabilidade de uns e da libertação de outros, do progresso social e económico. A voz da verdade nunca dói aos trabalhadores.

Exponha-se a verdade, explique-se aquilo que se pretende atingir, discutam-se abertamente as alternativas e opte-se com seriedade e lucidez. É disso que o País está à espera."

Excerto de uma entrevista ao Semanário “O Tempo” em 1 de Outubro de 1981

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPERO


Por ti espero

desde que partiste

e aguardo o teu recado

em cada pessoa que chega;

Olho para os caminhos

todas as manhãs

na esperança de nos encontrarmos.

O cacimbo passou.

Nova folhagem cobrirá

daqui a pouco

a floresta

e tu não vens.

Depois

serão as chuvas...

De tanto te esperar

já sonho que chegaste.

Desperto ao latir dos cães

julgando ter chegado

quem vem bater-me à porta.

Esta esperança vã

é um tormento que em mim cresce

dia a dia.


Raul David, poeta angolano, In "Cantares do nosso povo", Luanda 1983

União dos Escritores Angolanos

COMPROMISSO SOCIAL

Em 5 de Setembro de 1981 dizia o Semanário “Expresso”:
“Por paradoxo que pareça, Nascimento Rodrigues terá sido um dos ministros do Trabalho que maior surto de greves conheceu, nos nove meses que esteve à frente daquela pasta, mas não saiu “ queimado” do lugar. Prova disso, é o facto de na próxima quinta feira, sindicalistas do PSD e independentes o homenagearem com um jantar. Também os sindicalistas do PS inscritos na UGT nada tiveram a opor à actuação de Nascimento Rodrigues e os próprios homens da CGTP nunca exigiram a sua demissão do cargo.
As razões da recusa em fazer parte da nova equipa governamental, e o que será o futuro da política do “compromisso social” por ele iniciada em Janeiro passado, são alguns dos temas desta entrevista.”
"Conhece-se a grave crise económico-financeira em que o País se encontra. É um imperativo nacional conter o défice da nossa balança exterior e do orçamento do Estado. Isso implica a adopção de medidas de fundo, mas quer parecer-me que a maior parte delas, para que se alcance de facto a necessária e urgente recuperação económica, não passa essencialmente pela área das leis do trabalho.
Eu nunca afirmei que a legislação laboral não devia ser revista. Só que o processo e o âmbito e conteúdo dessa revisão legislativa, no meu pensamento, e no contexto concreto – repito, no contexto concreto - em que pude actuar como responsável pelo Ministério, seriam levadas mais eficazmente a cabo se observados os princípios fundamentais do tripartismo e da consensualização.
Defendi e procurei por em prática um processo de participação social alargada, que permitisse uma revisão das leis do trabalho feita no quadro de balizas bem delimitadas pelo indispensável equilíbrio das relações sociais, e com uma expressão ajustada à necessidade de viabilizar soluções que penetram duradouramente no tecido económico e social da nossa sociedade.
A consensualização social depende de condições várias e de múltiplos vectores, que não são estáticos. Portanto, não depende apenas do Governo, embora a vontade política tenha aqui um papel importante. Se as forças empresariais e sindicais não quiserem fazer um grande e necessário esforço para ajudar a encontrar soluções viáveis de recuperação económica e de justiça social, nenhum Governo pode ser responsabilizado pelo falhanço na sustentação de um clima de normalidade social mínima. Se é verdade que um Governo democrático tem obrigações, é igualmente verdade que organizações democráticas de patrões e trabalhadores também as têm – e todos, e sobretudo, face ao País no seu conjunto.
Nós estamos a viver uma crise internacional aguda e uma situação interna económica de grande melindre. Não é nem pelo afrontamento nem pela permissividade sócio – económica que encontraremos saída. É dentro dessas fronteiras que teremos de buscar soluções, procurando os caminhos de participação social, umas vezes mais amplos, outras vezes menos amplos, exigidos pelo projecto de democracia política, económica e social escolhido pelo voto popular."
Excerto de uma entrevista ao Semanário “Expresso”, em 5 de Setembro de 1981

CANÇÃO DE ANO NOVO - ANGOLA

domingo, 4 de dezembro de 2011

EQUIDADE NA REPARTIÇÃO DE SACRIFÍCIOS


Não tenho qualquer pejo em afirmar, e sempre o fiz, que muitos empresários têm fundadas razões de queixa contra a improdutividade no trabalho, acerca da falta de qualificação e pundonor profissionais de muitos trabalhadores, contra o abuso nas faltas, etc.
Mas sejamos claros: o que se verifica também é que os empresários dinâmicos e competentes são os que menos se queixam das relações laborais.
Em contrapartida, quantas razões legítimas não têm os trabalhadores e os sindicatos democráticos? É aceitável que uma empresa invoque dificuldades insuperáveis para recusar melhores salários, e depois se verifique que os gestores andem em carros de luxo e façam despesas descabidas?
O português é muito sensível à lisura e à coerência de atitudes. É um dos valores culturais do nosso Povo e ainda bem que a generalidade dos trabalhadores preserva esse vector da identidade nacional.
Temos que fazer sacrifícios, porque o futuro do país assim o exige.
Mas se os sacrifícios forem exigíveis a uns e não a todos, de acordo com uma repartição equitativa, então não se estará face a uma política de rigor e autenticidade democráticas mas, sim, face a uma política de capitulação classista.
Um social-democrata tem de lutar contra isso. Compreender realidades económicas inultrapassáveis, sim – abdicar, não.
Excerto de uma entrevista ao Semanário “Expresso”, em 5 de Setembro de 1981

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

NÃO!!!

Começou o mês de Dezembro. Em família, Dezembro representa, a pausa, o aconchego, a solidariedade, a amizade, o amor, a dádiva, todos os sentimentos guardados cá dentro e que, ao longo do ano, vão ficando fechados no turbilhão da vida de todos os dias. Dezembro, na nossa casa, é um mês de Paz, de alegria, de reencontro, de harmonia. Há que acumular todas as energias que nos permitam enfrentar mais uns meses, até Agosto. Para o Henrique, o Natal concentrava todos esses valores. O Natal permitia-lhe vivê-los, senti-los e, o mais importante, exprimi-los. Com ele, aprendemos a viver o mês que agora começa. Sem ele, cabe-nos unir a família e transmitir às gerações mais novas o sentido dos valores, dos ideais, das convicções, que nos legou. O Henrique é a Família. Dentro de nós, ainda está aquele grito de dor, de incredulidade, de desespero, que a sua morte totalmente inesperada nos provocou, e que o Nuno tão bem escreveu.

NÃO!!!

O grito vem do fundo de tudo

NÃO!!!

Voaram os pássaros para longe, para onde já nada era.

NÃO!!!

O mundo roda à minha volta e agora não estou em mim

NÃO!!!

Mas cá estamos. Na incerteza do mundo de amanhã, tudo o que ele nos legou constitui um cimento, que mantém sólidos os pilares que nos permitem viver no meio da tormenta, das angústias, da incerteza. Somos Família, somos o Henrique, ausente das nossas vidas, mas presente nas nossas almas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA

Com Manuel Alegre, (Vice-Presidente da Assembleia da Republica), Sala do Senado, 18.11.2002

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA

A casa está cheia de ti
Não apenas os retratos os recantos
Os quadros
Não apenas os objectos onde
Roça ao de leve
A suave mão da tua ausência
Mas aquela luz que trazias dentro
E deixavas de passagem
Nos seres e nas coisas.
Talvez agora mores entre as estrelas
Mas brilhas
Intensamente brilhas dentro de casa

Manuel Alegre in Poesia Volume II D. Quixote 2009

VISÃO HUMANISTA DA DEMOCRACIA

" Passamos por um momento da nossa vida nacional em que se torna importante reafirmarmos a nossa concepção de democracia.

Os direitos económicos e sociais têm um ponto de partida, que são os inalienáveis direitos políticos e cívicos fundamentais; e têm um ponto de destino, que é a democracia plena e a libertação do Homem. Estes dois vectores são inseparáveis.

Mas democracia plena, na minha perspectiva de social-democrata, é enquadrada para além e sobre uma visão parcelar de subordinação do poder económico, que deve ser, de facto, um instrumento ao serviço do Homem: ela significa, fundamentalmente, a progressiva porque porventura nunca terminada libertação do Homem, o seu combate secular pela conquista total da eminente dignidade que lhe é inerente.

As constrições económicas e as discriminações sociais constituem, sem dúvida, grilhetas a quebrar. Mas não se conseguirá, seguramente, quebrá-las à margem de um quadro de plena democracia representativa.

As reformas sociais não se atingem nunca à custa da liberdade."

Vimeiro, 25 de Outubro 1981 (Excerto de um discurso proferido no “Primeiro Encontro Nacional dos Sociais- Democratas nas Comissões de Trabalhadores”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

JUNHO 1981

Dias Felizes na companhia de amigos

SÓ A VOZ

O tempo passa veloz
e só a voz
da saudade que mata
teima em ficar
dentro de nós

Jorge Arrimar ( poeta Angolano)

domingo, 27 de novembro de 2011

POR UMA NOVA ORDEM ECONÓMICA INTERNACIONAL

A 11 de Junho de 1981 o “Correio da Manhã” noticiava o seguinte: “ O Ministro do Trabalho, Nascimento Rodrigues, parte hoje para Genebra, a fim de participar na 67ª sessão da Conferência Internacional do Trabalho, a decorrer naquela cidade até ao dia 24 do corrente.O titular da pasta do Trabalho, discursará na sessão Plenária de amanhã, prevendo-se que regresse a Lisboa dia 13.”É um excerto desse discurso que editamos a seguir.

"Toda a estratégia de desenvolvimento integra uma dimensão social.
A política de cada país tem sempre repercussões além fronteiras. Ora quando essas repercussões agudizam as desigualdades económicas e sociais; quando suscitam penurias inaceitáveis do ponto de vista de dignidade humana; quando alargam o flagelo do desemprego; quando aumentam o fosso entre homens de diferentes nações e entre nações de todos os continentes; quando desencadeiam o afrontamento entre possuidores e não possuidores de bens e de conhecimentos que são indispensáveis à promoção do bem estar de toda a comunidade internacional - quando isto acontece, temos a obrigação de realizar todos os esforços para assegurar as condições de realização de justiça económica e social, quer no campo internacional, quer no campo interno.
Temos, felizmente, condições de estabilidade política, decorrentes de uma vivência democrática que cada vez mais se consolida em Portugal, para tentar esse esforço visando a melhoria das condições de vida e de trabalho da nossa população.
Estamos conscientes do desequilíbrio gerado a nível mundial pelas desigualdades de riqueza e de oportunidades.
Essa consciencialização advêm-nos de três ordens principais de factores
Somos, por um lado, um pequeno País, com uma economia extremamente vulnerável às flutuações e à instabilidade que se vêem observando na ordem económica internacional.
Somos, por outro lado, um Povo que, por razões ligadas à sua história, tem actualmente mais de três milhões de cidadãos seus que vivem em praticamente todos os continentes.
E isto não só redobra a nossa sensibilidade para a compreensão da interdependência à luz da qual temos de encarar e resolver problemas que a todos, afinal, afectam, como reforça o nosso entendimento de que só com acções de estreita cooperação, baseadas num quadro global de solidariedade, será possível afastar os riscos emergentes das clivagens económicas, sociais e culturais que teceram uma divisão angustiante no nosso mundo.
Enfim a nossa consciencialização, ganha, ainda, suporte na circunstância de Portugal se encontrar numa situação de desenvolvimento intermédio e de deter um posicionamento claro na região europeia – mediterrânica, do mesmo passo que, criámos condições para entender o significado das aspirações legítimas a uma maior justiça económica e social por parte dos povos de regiões mais afectadas pela pobreza.
Isto leva-nos a encarar a exigência de solidariedade, pressuposta pela estratégia internacional de desenvolvimento, quer no sentido de uma cooperação mais sólida entre os próprios países da Europa democrática - como demonstração palpável de que são capazes de uma convergência de interesses e de uma ultrapassagem das desigualdades existentes no seu próprio seio – quer a um nível mais alargado, como prova de que estamos conscientes do carácter verdadeiramente imperativo de uma nova ordem económica internacional.
Genebra 12 de Junho 1981