sábado, 12 de junho de 2010

Eu Vencerei

Eram 8 horas e quarenta minutos. O nosso Pai morreu faz hoje dois meses. Deixamos aqui umas notas que ele escreveu, como um desabafo, num dia muito mau da sua vida. Tinha perdido o primeiro ano do curso de Direito ao «chumbar» na cadeira de Introdução ao Estudo do Direito.

"Chumbado, irremediavelmente chumbado a Introdução.

Não vou falar da justiça ou injustiça com que fui reprovado. Isso partirá muito do critério pelo qual cada um vir a minha prova e, se um diz que eu merecia passar, outro poderá rebatê-lo sem que a isso se possa chamar injustiça.
A justiça dos homens é falível e porque homem, a ela estou sujeito para a sofrer ou… para a praticar na primeira altura, quando eu acho que é justo e outrem disser que é injusto. Sempre fiz a mim mesmo esta pergunta: se a vida se me revelasse adversa e sem remédio possível conseguiria eu continuar a pensar e sentir da mesma maneira?
Conseguiria eu aguentar o choque, enfrentá-lo e ter forças para após uma desilusão outra ilusão erguer sobre os escombros da derrota?
Apanhei o primeiro pontapé forte que a vida me quis dar - pois bem eu sinto-me perfeitamente o mesmo. Eu vou continuar a lutar como sempre lutei, eu vou continuar a ter a mesma fé no meu futuro, em Deus, na vida e nos Homens.
Eu não duvido, um minuto sequer, de mim, das minhas faculdades e d’aquilo que eu posso e quero obter. Eu não duvido de nada, porque eu vou lutar pelo que sempre lutei e estou convicto , estou certíssimo de que vou vencer. Hoje ou Amanhã mas hei-de vencer. Sei perfeitamente que não fui destinado a aumentar a legião dos que andam nesta vida por andar. EU VENCEREI! Vencerei com a ajuda de Deus dentro dos princípios que Ele nos ensinou, seguindo os caminhos da honestidade e da justiça, fazendo os possíveis por continuar ou vir a ser um rapaz sem qualquer mancha na consciência; continuarei a minha vida, como sempre, lutando pelos meus ideais de sempre com o fito ardente e elevado de ser alguém prestável à humanidade e à sua terra de quem os meus Pais se possam orgulhar de eu me possa sentir honrado, de que toda a gente possa falar sem apontar a mais pequena falta. Que Deus me ajude na minha vida de Amanhã e me torne no Homem que eu sei que sou capaz de ser."


Lisboa Outubro de 1958



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