sexta-feira, 29 de julho de 2011

O JUCA E A BAMBINA

Acabado de chegar a Luanda, à sua casa na Praia do Bispo, o Henrique escreve este texto no dia 30 de Julho de 1960. Vejo-o sentado à secretária, frente à janela que dava para o mar; preocupado com o presente, particularmente, com os exames de Outubro, vai sonhando e construindo o futuro. Foi em 2006 que voltamos a ver a casa de Luanda onde tinha vivido com os Pais.

O meu quarto, aliás toda a casa, está uma maravilha. Por enquanto não tenho feito nada. Praticamente tenho comido e dormido. Levanto-me tarde, leio, faço visitas, dou um ou outro passeio de carro e mais nada. Vou começar a estudar depois de amanhã. Em princípio, penso fazer uma média de 4 horas diárias, mas em Setembro e Outubro tenho que as aumentar. Sabes que agora temos um papagaio? É o Juca, um grande “ponto”. Aprendeu a dizer “ O Henrique já veio”, mas o que eu acho mais piada é ele chamar “burra” à Bambina . É de morrer a rir, porque a Bambina, quando ele o diz, começa a ladrar furiosa. Também chama “matumbo” ao cozinheiro e não duvido de que este lhe apeteça fazer caldeirada do Juca…

Tenho tentado escrever, mas não consigo fazer nada. Não sei porquê, parece-me que a inspiração só vem quando estou na Metrópole. Aqui sinto-me molengão falho de ideias. Creio que, longe, as coisas assumem um valor uma importância que me obrigam a escrever, o que não sucede aqui.

Sinto um vazio enorme dentro de mim, uma vaga melancolia que eu não sei a que atribuir. É estranho, tenho todas as razões para estar satisfeito, mas a verdade é que não estou. Procuro dentro de mim a causa de tudo isto e não encontro uma que me satisfaça completamente. Pensando, talvez o motivo do meu aborrecimento seja precisamente o facto de não ter nada que fazer. Eu sei que preciso de estar permanentemente ocupado, de ter preocupações, de encher a minha vida, para poder ser feliz. Evidente, não é uma vida igual à de Lisboa o que eu pretendo ; mas também não posso estar sem fazer algo de útil, como aqui. Por muito que pareça absurdo, tenho saudades dos meus livros, dos meus problemas… dos exames até!

Esta vida em Luanda é quase igual à de Lisboa, enfastia-me.

A única coisa que me tem entusiasmado é conversar com esta gente, para auscultar a opinião acerca do que se passa.

O meu pai está com receio de ser enviado para Noqui, quase na fronteira com o Congo. A situação pelo nosso Congo não é lá muito boa e quase todos os Inspectores estão a ir para lá. Estou a ver se um dia destes dou uma saltada ao Quitexe.

Estou desejoso de ter uma caçada e gostaria de lá permanecer uns dias. Eu queria ir para o mato, queria encontrar a Angola que eu conheço e amo. Luanda, a bem dizer, já não é a minha Angola – é uma cidade, é quase Europeia. Por isso sinto a falta do mato, do silêncio, da calma, de tudo o que eu gosto”.