quarta-feira, 30 de março de 2011
Percursos sindicais de um Político (2)
terça-feira, 29 de março de 2011
Percursos sindicais de um Político (1) -
segunda-feira, 28 de março de 2011
1981- Ministro do Trabalho - Tomada de posse do VII Governo Constitucional
Enquanto Ministro do Trabalho, a iniciativa mais ambiciosa que procura fazer vingar é a do estabelecimento de um acordo social, para a época inovatória no nosso país. Na discussão do Programa do Governo, lança na Assembleia da República a proposta de negociações com as confederações patronais e sindicais. domingo, 27 de março de 2011
Entrevista ao Primeiro de Janeiro 1981
Notas Políticas (66)
Notas Políticas (65)
Notas Políticas (64)
Notas Políticas (63)
sexta-feira, 25 de março de 2011
Política Salarial
Em regime democrático, o Estado não “manda”, não impõe uma política salarial. Isso seria a negação da liberdade sindical e da negociação colectiva. Salvo em períodos excepcionais de graves perturbações e crise, que podem fundamentar temporariamente uma política salarial de algum modo dirigida pelo Estado (é o caso das leis de congelamento salarial e dos tectos fixados por lei), os governos democráticos não podem nem devem interferir unilateralmente. Isto não significa que o Governo deva ser indiferente à evolução salarial. O Governo tem, nesta área, responsabilidades acentuadas, em especial no que respeita à lei dos salários mínimos nacionais e às orientações de política salarial para as empresas públicas, cuja tutela cabe, neste aspecto, aos Ministros das Finanças, do sector respectivo e do Trabalho.Entrevista a “O Primeiro de Janeiro” (1981)
quinta-feira, 24 de março de 2011
Uma concertação social renovada em Portugal
A concertação social é um instrumento de construção do progresso.Mas só é possível construir solidamente na base da confiança mútua e no reconhecimento recíproco dos valores e dos interesses de cada parte. As sociedades que procuram evoluir para patamares mais perfeitos de qualidade de vida e de condições de trabalho dos seus cidadãos defrontam-se com o desafio de compatibilizar dois grandes objectivos: modernização económica e segurança cívico - social. quarta-feira, 23 de março de 2011
Pequenas estórias (Luto académico)
Ontem encontrei na caixa do correio um panfleto miserável, desses que circulam anonimamente, o qual se propunha debater o problema de Angola.
terça-feira, 22 de março de 2011
Pequenas estórias ( Valença do Minho)
Valença do Minho 11 de Agosto de 1962
a vida futura o que apenas começa a contar? Porquê assim? Hoje preocupo-me apenas com o amanhã e esse amanhã eu já o penso, mas desligado em larga escala de todo o meu passado. Às vezes penso se gostaria efectivamente de regressar ao passado. A princípio a minha resposta sempre foi positiva. Mas, hoje creio que o deixou de ser. Recordar não é viver. Um homem só começa a recordar e a desejar voltar ao passado quando o amanhã não lhe apresenta perspectivas. A nossa geração é uma geração de sacrifícios e vive numa época de crise, instabilidade e frustração. Quero dizer, as perspectivas de futuro não são boas. Mas eu sinto, não obstante, que há um futuro que tem de ser vivido, o mais completamente vivido. E quero fazê-lo. É por isso que em mim tudo se começa a perspectivar em termos do amanhã. E quando eu penso no amanhã, o ontem começa a surgir um tanto longinquamente. É um erro pensar que o passado pode regressar. Tenho saudades, é certo, do que passou. Tanto que gostaria de rever os lugares onde nasci e cresci. Mas nada mais do que isso – rever. Sei que encontrarei recordações, mas nada que me possa prender, porque o que me interessa é o futuro e este é tão diferente do passado… domingo, 20 de março de 2011
Pequenas estórias (25.12. 1960)
Não fazes ideia de quanto eu daria para me apanhar em Lisboa! Nunca na minha vida desejei tanto fugir de uma terra como desta! É horrível. Tudo quanto eu te possa contar representa um milésimo da realidade. Póvoa e Meadas é qualquer coisa parecida com o inferno. A linguagem desta gente é semi-barbara e indecifrável. Estamos mesmo ao pé de Espanha mas não há caminho directo. Se fores ao mapa, é possível que lá não encontres o nome desta aldeia medieval, mas podes localizar-me mais ou menos, pois está situada entre Portalegre e Castelo de Vide. Póvoa é uma aldeia completa. As ruas não têm mais de cinco metros de largura e são tortuosas. As casas, desalinhadas, baixas e feias. Há lama em toda a parte e os porcos chafurdam no jardim da freguesia. Os Correios de cá (Correios?) ainda trabalham a petróleo e creio que a correspondência leva dois dias a chegar ao seu destino.
Não calculas o frio que faz. Um frio como eu nunca supus haver.
A casa não tem aquecimento eléctrico e ainda por cima o meu quarto fica na parte mais ventosa. Os lençóis da cama parecem estar molhados. É a antecâmara do inferno! Passamos os dias sentados à lareira, onde as conversas, evidentemente, não me interessam nada. O termómetro marca 5 graus, e, isto, é na sala onde está a lareira! Agora vê como estará no meu quarto. Onde eu me vim meter meu Deus.! Agora é que me convenci para sempre de que nunca poderia viver na metrópole.. Dói-me horrivelmente a cabeça de estar o dia todo a apanhar o calor da lareira e a fumar, e, ao mesmo tempo tenho o corpo absolutamente gelado com a temperatura. Não posso suportar o pensamento de que ainda tenho que cá ficar uma semana e tal. Crê que não exagero na minha descrição. Ficar à lareira sem fazer nada senão conversar com pessoas desconhecidas, é simplesmente morrer vivendo.
sábado, 19 de março de 2011
VIAJANTE
de trazer cá dentro como uma fé
ou até como uma secreta dor...
tambor que mão de ritmo tange
fumo de unguiriti na tardinha
da sanzala embrulhada no poente.
e sobretudo saudades dela.
e me perguntam donde venho
vem uma saudade bem fininha
me pôr facas nessa hora…
a encher meus olhos de água
fico triste e cheio de desgosto
porque afinal penso que queria
que estivesse marcado no meu rosto
marcada a mágoa em minha pele…
fico com raiva de seres assim
tão atrasada e sem gente
tão pobre e cheia de riquezas
tão triste que tuas tristezas
vêm morar dentro de mim
ardendo o rubro fogo das queimadas
no escuro das noites estreladas
Floresta e deserto certeza de futuro
no presente incerto.
como uma prece… ou uma maldição
Poesia de Albano Neves e Sousa (1961)
sexta-feira, 18 de março de 2011
Para os Ouvidores do Kimbo
Este artigo foi publicado num jornal regional de Famalicão dias depois de 12 de Abril de 2010 e é da autoria da Professora Edna Cardoso. Diz o seguinte: …".Significa um tributo, reconheço que humilde, a uma personalidade da vida publica nacional que acaba de nos deixar.
Eram tempos muito difíceis mas em que, com seriedade, se procuravam soluções. Eram tempos em que interesses pessoais ou corporativos ocultados por entre manto de espessa neblina não tinham lugar à mesa.
Soube-o, mais tarde, militante do PSD integrando a sua ala esquerda.
Um social-democrata de raiz. Uma das muitas figuras que à medida que vão desaparecendo vão deixando que o PSD se torne num partido cada vez mais incaracterístico. Cada vez menos social-democrata.
“O Ouvidor do Kimbo” é um titulo de simbiose, pois advém quer de Portugal, que é a minha Pátria, quer de Angola que é a minha Terra. Pretende ser um blogue de memórias e de saudades, de poesia, de estórias e de comentários políticos, os melhores para a gente rir…”
Foi por este meio, a blogosfera, que o Dr. Nascimento Rodrigues manifestou a gratidão aos dois países, a Angola onde nasceu e a Portugal que o acolheu. Nunca esquecendo pelo meio a política..
Essa Angola onde os olhos se espraiam num mar multicolorido. Onde se respira o ar da anhara… do deserto… da floresta… Onde se inala o aroma da flor do café…da acácia rubra…da rosa de porcelana mesmo que o não tenham. Onde o sol ao pôr-se por trás do morro do Sombreiro ou das palmeiras da Ilha do Mussulo oferece um espectáculo natural único no mundo. Onde o Zaire… o Quanza…o Cunene…o Cuando… o Catumbela… Imensos em seu leito cristalino, correm serenos a abraçar o Atlântico.
Quem sabe, se nessa viagem de onde não se regressa, o Dr. Nascimento Rodrigues terá a oportunidade que lhe faltou para regressar aos Luchazes das suas origens e seu berço. Ali mesmo encostado ao planalto do Bié onde eu nasci.
Por aqui me fico por hora… Terminando com um provérbio que o Dr. Nascimento Rodrigues qualificou de provérbio saloio.” Se não gostas do que lês, pois não leias”… Um louvor à liberdade."
Publicado em “O Povo Famalicence” pag 6 (20 a 28 de Abril de 2010)
quinta-feira, 17 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (7)
O formalismo jurídico das concepções não é o melhor conselheiro para julgar destas coisas. Sendo os interesses o que são e os homens seus autores e actores, não é curial esperar um rosto celeste para o mundo terrestre das relações recíprocas do sindicalismo e dos partidos…
Mas será já, porventura, espectável e exigível que os altos dirigentes partidários e sindicais (precisamente porque o são) assumam e exerçam o seu específico estatuto na base de um relacionamento claro, estabelecido sob um entendimento consensual a respeito da matriz básica do subsistema de relações industriais e da subsunção harmoniosa deste no sistema político do País. Essa é a questão de fundo. O resto são peripécias mais ou menos importantes, e para alguns chocantes, da história das conjunturas politico-sindicais.
Diário de Notícias 1 de Março de 1992
quarta-feira, 16 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (6)
Sem ignorar que não deve esperar-se da lei o que melhor se esperará dos homens, não seria, afinal, vantajoso para os próprios sindicatos e suas centrais que os respectivos estatutos determinassem, sem equívocos de consequência, a incompatibilidade dos cargos de direcção sindical com cargos de direcção partidária e parlamentar?
Diário de Notícias 1 de Março de 1992
terça-feira, 15 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (5)
A liberdade e independência sindicais significam o reconhecimento de que as organizações sindicais titulam com autonomia plena os interesses dos seus representados e são soberanas na formulação interna desses interesses e na projecção com que concretizam na sociedade, momento a momento, a conceptualização do seu específico modelo de defesa dos trabalhadores.Por isso, não comungo o entendimento que acabaria, afinal, por conduzir à tese de que a independência sindical acarretaria o reconhecimento de uma “coutada monopolística”do sindicalismo, politicamente incensurável.
Diário de Notícias 1 de Março de 1992
segunda-feira, 14 de março de 2011
Concertação Social - a 25ª hora
Nesta 25ª hora da concertação social, é preciso trazer à colação esse significado. Talvez não valha nada.
Excerto de um artigo publicado a 10 de Outubro 1994 (O Público)
domingo, 13 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (4)
A luta laboral não se trava hoje apenas entre o patronato e os sindicatos, isto é, a luta reivindicativa não se joga apenas a dois, - organizações patronais e sindicais -, visto que, directa ou indirectamente, o Estado está presente e pesa, embora de maneiras diferentes na solução dos problemas. É impossível negar que hoje a acção do sindicalismo é política, ou tem grandes repercussões políticas, mas até onde deve ir essa evolução por forma a que ela não altere a fisionomia do sindicalismo como movimento autónomo?
É que a irrupção do sindicalismo na política tem outras consequências. A partir do momento em que as sociedades actuais são sociedades em que o poder político corporizado no Estado e no seu aparelho atribui a este acrescidas responsabilidades no domínio económico e social, a questão das relações entre partidos e sindicatos torna-se uma questão central. O sindicalismo pode desinteressar-se dos programas, da política e do comportamento dos partidos políticos?
Quais são as possibilidades de não inquinar esse nexo de relação, dito por outras palavras, quais são as condições para que a luta sindical seja autónoma, logo, não conduzida indirectamente e/ou não apropriável pelos partidos políticos?
sábado, 12 de março de 2011
A morte não é nada
Porque estaria eu fora dos vossos pensamentos?
Eu não estou longe.
A vida continua como sempre foi.”
Oração de Santo Agostinho
sexta-feira, 11 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (3)
E daqui derivam consequências importantes nomeadamente no domínio da concepção do papel ou do estatuto que o movimento sindical se atribui a si próprio.Se outrora as despesas públicas correspondiam à necessidade do Estado fazer face à obrigação de assegurar um mínimo de serviços públicos, hoje em dia as despesas públicas são também em certa medida, despesas de investimento, e não apenas do sector público, mas também no sector privado através da via das subvenções ou facilidades financeiras e fiscais a empresas privadas e estas despesas podem inscrever-se num plano económico nacional.
Perante este tipo de Estado moderno, face a tais atribuições e a tais responsabilidades económicas e sociais, o sindicalismo não pode ficar neutro ou manter-se passivo.
Por isso, as organizações sindicais são arrastadas a precisar as suas concepções e a formular as suas preposições com base nos seus projectos, do ponto de vista das classes trabalhadoras e com o objectivo dominante da defesa dos seus interesses por forma a poderem dar resposta aos problemas da actualidade.
O sindicalismo actual encontra-se assim face à necessidade inafastável de uma intervenção na vida política.
As expressões tradicionais de “não fazemos política” ou “ deixar a política à porta de entrada da sede do sindicato” têm de ser, assim, reformuladas, em ordem a ganharem um sentido diferente do sentido histórico, que era o do afastamento entre Estado e sindicatos, e entre Estado e partidos políticos.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (2)
Se os partidos políticos são organizações que visam conquistar o poder com vista a gerir uma sociedade de uma certa forma – forma esta que tem a ver com o interesse dos trabalhadores -parece ser inviável ao sindicalismo alhear-se da existência de partidos políticos. Manuscrito 1981
quarta-feira, 9 de março de 2011
Sindicatos e Partidos Políticos (1)
O problema da autonomia sindical supõe uma relação. Não se é autónomo sem o ser em relação a algo. No fundo, a autonomia coloca-se em relação ao condicionalismo total envolvente, económico, político, social, cultural, confessional, etc. Mas esta situação recoloca o problema, velho, das relações entre as organizações sindicais e os partidos políticos, e o problema da intervenção sindical na política, ou seja, na concepção concreta da sociedade existente e futura.
Manuscrito, 1981
terça-feira, 8 de março de 2011
SÓ, COM OS MEUS SONHOS.
No sábado, o meu tio “deu-me” a carrinha e sozinho, (sozinho, hein?!), fui para a estrada ver se caçava alguma coisa. Também foi maravilhoso. Foi a primeira vez que me passaram um carro (aliás, carrinha) para as mãos, sem ninguém a meu lado. Claro que não tinha interesse nenhum em caçar!!! O que eu quis foi sentir-me sozinho, no meio do mato, com uma estrada esburacada e uma carrinha a guiar! O que eu fiz e o que eu sonhei! Senti-me tão criança e tão homem ao mesmo tempo, que não fazes ideia. Em primeiro lugar, fartei-me de dar curvas e fazer manobra. Ri-me sozinho. Ri-me porque senti que a vida na Metrópole, por mais desgostos que nos traga ainda, é uma simples etapa; ri-me porque senti-me feliz e sei que o hei-de ser quando regressar a Angola. Para quê preocuparmo-nos em Lisboa ? Naquele momento era feliz. Que me importa que ainda venham dias maus? Sabê-los-emos vencer. Depois há-de voltar sempre o tempo bom. Andei mais de três horas a guiar e gastei quase meio depósito de gasolina! Quis experimentar a velocidade, e sabes a quanto cheguei? – A 110. Dou-te a minha sincera palavra de honra! Em estradas de Angola é difícil conseguir-se atingir essa velocidade, mas as estradas estão em bom estado e a carrinha desenvolve bem. Quando regressei ninguém acreditou em mim. Voltamos de novo à estrada e de novo 110. O meu tio ficou parvo…e cheio de medo, claro! Houve um momento em que a carrinha apanhou um bocado de areia e quase derrapou. Àquela velocidade, se não a aguento, era morte certa. Mas, felizmente, agarrei-me ao volante com calma e mantive-a dentro da estrada. É uma sensação formidável dar 110! Só se ouve o vento a assobiar forte nas janelas e só se vê o mostrador das velocidades. Eu senti, que naquele momento tinha a minha vida nas mãos. Bastava um simples imponderável para tudo se perder num ápice. É uma sensação de terror e de felicidade ao mesmo tempo! Tenho a impressão de que não volto a repetir o que fiz, embora o tivesse feito conscientemente.Carmona Verão de 1959
domingo, 6 de março de 2011
Roteiro de Viagens
A viagem, pode-se considerar razoável. Apanhámos, ainda, um mau pedaço de estrada, mas foi pequeno.
Almocei às quatro da tarde, num vilarejo de nome Vista Alegre e às 7 chegamos ao posto do Quitexe onde pernoitamos. O Quitexe já é uma vilazita engraçada, praticamente encravado entre montanhas, sem ruas asfaltadas (mas onde paira um ar de paz e de indefinível tranquilidade), com alguma luz eléctrica que, se não abrange toda a povoação, tem alguns sítios com lâmpadas fluorescentes. A casa do chefe do posto pode considerar-se uma maravilha para o meio e não envergonharia Luanda. Pois foi ali, que resolvemos pernoitar. Deitei-me cedo, já pouco acostumado a estas andanças. Dormi maravilhosamente e, no outro dia, às 6 da manhã já estava a pé.
Abri a janela, e não calculas o entrechocar de emoções que eu senti. Nem te saberei explicar.
Senti uma alegria como há muito tempo não tinha. Que saudades de poder escutar um pouco de silêncio e de paz.
Campos em fora o sol inundava tudo e vinha até mim um cheiro muito meu conhecido e, sobre tudo, – muito querido, o cheiro do mato. Foi maravilhoso voltar a sentir aquela emoção de felicidade, aquele cheiro peculiar a terra, a capim, a campo, voltar a respirar aquela atmosfera de Paz e poder olhar em redor sem ver gente nem casas.
O grande prazer desta minha viagem é o facto de sentir de novo pesar sobre mim a paz destes campos de Angola, ver este sol tão cheio e tão vermelho, sentir o cheiro do mato, enfim, tudo quanto diz respeito à terra propriamente dita. Tenho tempo para pensar, sobretudo.
No domingo, fomos ao posto do Songo. Almoçamos numa fazenda de café e passamos um dia formidável. Quando regressamos eram já 10h da noite. Deitamo-nos cedo e na 2ª feira fomos almoçar ao Negage, que é uma vila já bastante engraçada. Do Negage ao Alto-Caríale fui eu a guiar! Chegamos ao anoitecer e pronto! O Alto-Cariale nem sequer luz eléctrica possui!
Terça - feira foi dia de descanso. Aproveitei-o para…não fazer nada! Sim, compreendes o que quero dizer? – Não fazer nada nesta imensa paz de Angola é fazer tudo afinal! Ficar sentado à varanda, com um enorme silêncio sobre a terra e sentir tudo o que se sente nessas alturas. O Alto - Caríale não chega a ter uma dúzia de casas! Imaginas o que é uma terra assim? Sem dúvida, eu acredito que a solidão seja para essas pessoas um mal que as põe neurasténicas.
Mas, para mim, farto até aos olhos do movimento de Lisboa, nada mais agradável do que estar sozinho no meio do campo, olhando a vastidão dos horizontes, sentindo o ar puro, encantando-me com a tranquilidade e o silêncio que reinam. E, à noite, que dizer-te da escuridão, do silêncio, da paz que se sente e não se sabe contar?
Quinta feira, um grande dia! Fomos visitar as Quedas do Duque de Bragança, que ficam, ida e volta a 500km do Alto Caríale. Passámos um dia inteiro na viagem e lá nas quedas mas asseguro-te que nunca vi espectáculo tão imponente na minha vida. Maravilhoso! Não há nada no género em Angola, decerto, a não ser as do M’Bridge, mas essas se superiores em altura, não o são em imponência. As Quedas do Duque fazem uma pessoa sentir que o homem é mesquinho perante a natureza
Carmona 25de Julho de 1959
sábado, 5 de março de 2011
A História de Muculo Nambuco
“ Viera de longe – das bandas em que as chanas e as anharas se dão as mãos de passo a passo e se espreguiçam infinito a dentro numa caminhada de que não logra topar o termo. Porque Muculo Nambuco é caçador de profissão. Botado terras em fora de cambulhada, correm luas sobre luas sem que alguém lhe ponha olho no corpo ou boca alviçareira se abra para lhe apontar o paradeiro. Na “banza” de Nha-Caritina, ao rés do rio, as mulheres cantam agora, no amanho das lavras, tristes melopeias de saudade pelos abraços fortes do negro caçador e os velhos da tribo arengam-lhe os feitos de andarilho dos grandes matos, quando a “mutopa”corre de boca em boca, nas longas noites tombadas sobre os “h’rimbos” dos luivas. Mas Muculo Nambuco tã
o cedo não há-de voltar. Junho cacimbeiro andava ainda espalhando as primeiras névoas pardas e já Nha-Caritina, rei da terra Luiva e dos negros dela, perdera a conta das pragas à socapa cuspinhadas contra Zambi-ià-Meia, o deus das águas. Nas palhotas do sobado, “tchinguilos” abertos para Nordeste, de onde sopram os ventos de Caçone, os velhos da tribo têm os olhos parados de tanto mirarem os longes sem viração da terra cansada. Campos além até tão longe quanto costumam ir os batedores luivas apanhar a caça fugida, um pesado silêncio se espicha sobre o mundo em que Nha-Caritina dita a sua lei de senhor dos povos. Os negros das chotas cravadas ao longo do Luíva, o grande rio de torrentes caudalosas que à raça dera o nome, já não sabem que mais caminhos palmilhar em busca de carne para o povo faminto. E os velhos conselheiros dos povoléus tão dextros na lenga-lenga das histórias da gente luíva, meneiam a cabeça de cansaço e perdem a memória na narração das luas passadas desde que o mau tempo da desgraça caiu de espicho sobre as planícies ermas e rasas. Nha- Caritina anda de cabeça tombada sobre o peito. Está mais velho que a podre “mulemba” erguida no centro do terreiro da sua “banza” e as pernas magras já não têm músculos para passarem além da última palhota do povoado”-Carmona 24 de Julho 1959
sexta-feira, 4 de março de 2011
"Os Meus Primeiros Passos"
Não te esqueças de emendar as inúmeras gralhas que o meu livro tem. Foi uma pena que eu cá não estivesse, pois orientando a elaboração, teria saído uma coisa muito mais apresentável. Eu volto a dizer o que sempre disse: ao reler todos estes contos não posso deixar de lhes encontrar, como única fundamental característica, a infantilidade. Por isso, nem de contos devem ser chamados. Eu cresci no espírito e, naturalmente esse crescimento havia de se reflectir infalivelmente na minha maneira de escrever.Estou convidado para escrever para uma revista de Luanda, a “Cultura”, pertença da Sociedade Cultural de Angola. É a única revista no género que Angola possui, mas é nova e ainda não alcançou grande repercussão. Isso pouco me importa. Sabes tu porque me fiz sócio da Sociedade e aceitei enviar colaboração? Porque é, praticamente, o berço da juventude, que um dia mais tarde se poderá intitular intelectual de Angola. É quase toda ela feita por rapazes novos e estou convicto de que se não morrer, estará ali o fulcro da geração Angolana. De tal maneira que um dos membros, um rapaz de cá com os seus 25 anos, foi preso pela Pide na véspera da minha partida… Já vez o que aquilo é. Por ora enviarei um trabalho que será apreciado por uma comissão. Mandam-me dizer, depois, se agrado ou não e, em caso afirmativo, fico a colaborar. Não se ganha nada mas não me importo.
A Metrópole marcou um passo decisivo e profundo na minha maneira de ser. É natural, portanto que a maneira de escrever sem deixar de ter o cunho eternamente próprio, também tivesse “crescido”. Sei bem quão longo é o caminho a percorrer. Hoje se eu escrevesse ainda como em Sá da Bandeira, decerto desistiria por constatar que não tinha futuro. Mas eu sei - eu sinto – que o meu estilo mudou e que caminha para o amadurecimento. É uma coisa que eu não sei explicar, mas que sinto. Este ano, apenas pretendo concorrer aos jogos florais da Sociedade Cultural de Angola. De antemão, não ganharei, decerto, pois a Sociedade, como já tive ocasião de te contar, é hoje o único alfobre de escritores existentes em Angola. Não vou portanto ter veleidades que não se coadunam com o meu feitio e só seriam de admitir se eu não soubesse o que valho por enquanto. Mas concorro para me treinar, para me obrigar a mim próprio, dado esse objectivo, a escrever.
quinta-feira, 3 de março de 2011
SAUDADE
Angola Setembro de1957
Terminei há três dias os meus exames de aptidão à Faculdade. Francamente, não me correram bem, e, como se tanto não bastasse, ainda li no jornal que o maior número de reprovações nos exames de admissão em Lisboa, se verifica precisamente em Direito. Tudo isto me atemoriza um pouco. Reprovar agora, depois de ter ficado com média 15 no 7º ano! Enfim, esperemos com calma e fé nos
resultados que só devem sair lá para Outubro.Sigo viagem no “Uíge” juntamente com a Maria Helena, e com mais malta de Sá da Bandeira e Luanda. Creio que partimos daqui no dia 25 do corrente, e, portanto estaremos em Lisboa na 1ª quinzena de Outubro. Que saudades eu já sinto. Creio que deixo em Angola todos os meus sonhos e esperanças de rapaz! Tenho a impressão de que me não adaptarei à vida social Lisboeta, o que me custa imenso, pois necessito, de qualquer modo, de vir a criar ambiente para o meu curso. Vai ser difícil! Em Direito, segundo informações que me têm dado, é necessário, sobretudo saber falar e escrever bem, e usar de diplomacia. E se à primeira condição eu posso dizer que estou apto a enfrentá-los, já o mesmo não acontece para a segunda, por causa deste meu feitio abrupto e demasiadamente sincero. Veremos, contudo, se eu consigo captar a excelsa simpatia da Faculdade de Direito não logo no 1º ano (se eu passar) mas lá para o 2º ou 3º, embora tal me custe.
Sabes bem o que são vésperas de partida e por aí deduzirás o estado, não só de espírito como de tempo em que te estou a escrever.
quarta-feira, 2 de março de 2011
O Silêncio do Mato
Parto amanhã para o Songo. Não vai ser longa a estadia. Na quinta - feira à noite já estou de volta. Vou para caçar, evidentemente! Sabes bem, que, eu sou um apaixonado pela natureza da minha terra e nada melhor do que a caça para nos pôr em contacto com ela e sentirmos bem fundo de nós, a maravilha da terra e dos seus elementos. Não é propriamente, melhor, especialmente, a caçada em si que me traz alegre: é sobretudo, poder estar só no meio do grande mato e sentir à minha volta tudo quanto conheço e mais querido me é: a terra desconhecida. Como posso eu contar-te toda a satisfação que sinto por voltar a percorrer os matos da minha terra, voltar a sentir um enorme entrechoque de sensações dentro de mim, sei lá que amalgama de sentimentos! Sei que não posso descrever-te – era impossível! - o que eu sinto quando ando assim de noite a percorrer os campos, com a lua, as sombras, o enorme silêncio destas noites… meu Deus, há tanta coisa que se sente e não se sabe contar! Mas é isto, afinal, o que eu adoro em Angola e me prende irremediavelmente: a minha terra – a própria terra em si, com toda a beleza e majestade destes campos e matos, o silêncio das grandes noites, o luar, o canto das cigarras o mistério que em tudo paira. Isso sim, isso é Angola, isso é que eu amo. Isto faz parte de mim. Jamais poderei prescindir desta beleza sem enorme sacrifício. Sei lá quando poderei, de certeza, voltar a Angola e assistir de novo a todas estas coisas.
Mas esta caçada tem duas novidades: em primeiro lugar é de dia, a partir das quatro da madrugada (de quinta portanto) e, depois, garantiram-me, que encontraríamos caça grossa. Creio que é uma região em que ela abunda e por isso, desta vez, já não vou à aventura. Espero, portanto, encontrar caça e, se Deus quiser, poder filmá-la, o que seria interessantíssimo. Vamos em busca de pacaças e elefantes. Ocasiões destas há poucas.Desta vez, se Deus quiser, a par das saudades que levar destas férias, levo também uma vontade grande de lutar e vencer a minha vida; mas não posso deixar de considerar Lisboa, hoje mais do que nunca, como uma situação transitória. E isso, claro, ainda me dará mais forças para regressar depressa.
Agosto 1959
terça-feira, 1 de março de 2011
Notícias de Carmona (Uíge)
Tudo isto é uma grande aldrabice. Angola está a precisar de uma grande vassourada nos cargos mais altos. Choca-me o estado de atraso em que vejo a minha terra.
Carmona ( Uíge) 19 de Julho 1959

