domingo, 6 de março de 2011

Roteiro de Viagens

Vamos por partes: Ao fim e ao cabo, acabei por sair de Luanda na 6ª feira de manhã. Só sábado - por volta das seis da tarde, cheguei a Carmona.
A viagem, pode-se considerar razoável. Apanhámos, ainda, um mau pedaço de estrada, mas foi pequeno.
Almocei às quatro da tarde, num vilarejo de nome Vista Alegre e às 7 chegamos ao posto do Quitexe onde pernoitamos. O Quitexe já é uma vilazita engraçada, praticamente encravado entre montanhas, sem ruas asfaltadas (mas onde paira um ar de paz e de indefinível tranquilidade), com alguma luz eléctrica que, se não abrange toda a povoação, tem alguns sítios com lâmpadas fluorescentes. A casa do chefe do posto pode considerar-se uma maravilha para o meio e não envergonharia Luanda. Pois foi ali, que resolvemos pernoitar. Deitei-me cedo, já pouco acostumado a estas andanças. Dormi maravilhosamente e, no outro dia, às 6 da manhã já estava a pé.
Abri a janela, e não calculas o entrechocar de emoções que eu senti. Nem te saberei explicar.
Senti uma alegria como há muito tempo não tinha. Que saudades de poder escutar um pouco de silêncio e de paz.
Campos em fora o sol inundava tudo e vinha até mim um cheiro muito meu conhecido e, sobre tudo, – muito querido, o cheiro do mato. Foi maravilhoso voltar a sentir aquela emoção de felicidade, aquele cheiro peculiar a terra, a capim, a campo, voltar a respirar aquela atmosfera de Paz e poder olhar em redor sem ver gente nem casas.
O grande prazer desta minha viagem é o facto de sentir de novo pesar sobre mim a paz destes campos de Angola, ver este sol tão cheio e tão vermelho, sentir o cheiro do mato, enfim, tudo quanto diz respeito à terra propriamente dita. Tenho tempo para pensar, sobretudo.
No domingo, fomos ao posto do Songo. Almoçamos numa fazenda de café e passamos um dia formidável. Quando regressamos eram já 10h da noite. Deitamo-nos cedo e na 2ª feira fomos almoçar ao Negage, que é uma vila já bastante engraçada. Do Negage ao Alto-Caríale fui eu a guiar! Chegamos ao anoitecer e pronto! O Alto-Cariale nem sequer luz eléctrica possui!
Terça - feira foi dia de descanso. Aproveitei-o para…não fazer nada! Sim, compreendes o que quero dizer? – Não fazer nada nesta imensa paz de Angola é fazer tudo afinal! Ficar sentado à varanda, com um enorme silêncio sobre a terra e sentir tudo o que se sente nessas alturas. O Alto - Caríale não chega a ter uma dúzia de casas! Imaginas o que é uma terra assim? Sem dúvida, eu acredito que a solidão seja para essas pessoas um mal que as põe neurasténicas.
Mas, para mim, farto até aos olhos do movimento de Lisboa, nada mais agradável do que estar sozinho no meio do campo, olhando a vastidão dos horizontes, sentindo o ar puro, encantando-me com a tranquilidade e o silêncio que reinam. E, à noite, que dizer-te da escuridão, do silêncio, da paz que se sente e não se sabe contar?
Quinta feira, um grande dia! Fomos visitar as Quedas do Duque de Bragança, que ficam, ida e volta a 500km do Alto Caríale. Passámos um dia inteiro na viagem e lá nas quedas mas asseguro-te que nunca vi espectáculo tão imponente na minha vida. Maravilhoso! Não há nada no género em Angola, decerto, a não ser as do M’Bridge, mas essas se superiores em altura, não o são em imponência. As Quedas do Duque fazem uma pessoa sentir que o homem é mesquinho perante a natureza

Carmona 25de Julho de 1959